


Tatiane Matheus, de São Paulo
Em fevereiro, a trading norte- americana Gavilon resolveu abandonar o mercado de glicerina. A companhia era uma das maiores compradoras do produto no mundo, movimentando cerca de 250 mil toneladas por ano. Em 2012, apenas ela foi responsável por 42% das 168 mil toneladas de glicerina que o Brasil exportou, de acordo com a contabilidade do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). A explicação foi, no mínimo, lacônica: em maio de 2012, a empresa foi comprada pela japonesa Marubeni e os novos donos não querem saber do negócio de glicerina.
Para o setor de biodiesel foi um baita susto. Com a antiga número um fora, para quem vender os milhões de litros de glicerina que são gerados como subproduto da fabricação de biodiesel?
Para a diretora da Lumina Trading, Carla Vilas Boas Romero, não haverá grandes mudanças nos compradores finais do produto, mas sim nos intermediadores. Ela aposta que outras empresas logo deverão assumir os principais clientes que antes eram atendidos pela Gavilon.
O gerente comercial da Aboissa, Felipe Camargo, vai mais ou menos na mesma linha. “Acredito que o mercado brasileiro irá absorver uma parte, e a outra continuará sendo exportada para China e outros países”, opina, acrescentando ainda que o mercado continua aquecido e há muitas empresas brasileiras investindo em pesquisa e desenvolvimento voltados ao coproduto. “A cada dia aparece uma nova aplicação para a glicerina loira do biodiesel”, diz.
O gerente da UniAmerica, Eduardo Oliva, também concorda que o volume comprado pela Gavilon (71 mil toneladas em 2012) vai acabar sendo absorvido por outras tradings e, no final, o balanço do mercado não será alterado. “A glicerina brasileira é procurada por diversos países o ano inteiro e não deverá haver dificuldades na negociação para outras empresas. A diferença é que a Gavilon já tinha um nome forte e confiável que facilitava as compras e deixava as usinas tranquilas”, analisa.
O diretor comercial da Prisma Brazil, Moisés Rocha, elogia a ex-concorrente, afirmando que a Gavilon foi, “sem dúvida”, uma das grandes responsáveis pela profissionalização do mercado internacional de glicerina, mas não acredita em um baque. Ele diz que não há mais volta no nível de maturidade atingido pelo mercado, o que torna a saída da empresa menos traumática.
Disputa sucessória
Embora todos pareçam concordar que o mercado não vai ficarórfão por muito tempo, está armado o cenário para uma feroz disputa comercial pela liderança num segmento que, apenas em exportações, movimentou mais de R$ 45 milhões no ano passado.A própria UniAmerica já se movimenta para tentar ficar com a coroa. “Conseguimos selecionar as empresas que são boas e confiáveis no mercado e quem não é, assim temos uma relação de clientes sérios e de primeira linha que são compradores o ano todo de glicerina”, garante Oliva.
Outra empresa que mostra estar atenta é a Meridional TCS. “Temos posicionamento e condições de absorver o volume comercializado pela Gavilon em nossa estrutura”, informa o diretor geral Leonardo Nasser Gardemann. De acordo com ele, a Gavilon comercializava a glicerina loira do Brasil principalmente para a China, mesmo mercado que sua empresa vem explorando desde 2007.
Gardemann sabe que haverá concorrência. “Existem outras tradings no mercado que também irão absorver parte deste volume [deixado pela Gavilon]”, diz. Mas também ressalta que a Meridional tem bons diferenciais, como laboratórios de análise e equipamentos para a padronização dos produtos, para atender necessidades específicas do mercado comprador na China.
Loira
A glicerina loira de origem brasileira sempre teve características próprias, pelo fato de o Brasil produzir biodiesel com uma mistura de matérias-primas (óleo de soja, óleo de algodão, sebo bovino etc.). “Muitos clientes internacionais dão preferência para o produto 100% vegetal, preferencialmente de óleo de soja. No entanto, a demanda pela glicerina ainda é alta e a qualidade das glicerinas ‘mistas’ tem evoluído muito, fazendo com que os clientes estrangeiros sejam mais flexíveis”, explica Carla, da Lumina.O principal mercado comprador da glicerina feita no Brasil ainda é a China, que a usa como fonte de combustível barato e para obtenção química de outros produtos. Pequenos volumes são exportados para Europa, Argentina e Malásia. “A Índia também tem grande demanda, mas a logística é cara, o que não viabiliza as exportações”, completa Carla.
Segundo Camargo, da Aboissa, a qualidade do produto brasileiro melhorou muito nos últimos anos: “São poucas as empresas que não conseguem gerar glicerina com no mínimo 80% de pureza.” Porém, o gerente ressalta que não basta atingir os índices elevados de glicerol para a aceitação do produto, pois existem outros itens que são exigidos dependendo da destinação final. “Por exemplo, o teor de metanol. Algumas empresas exigem glicerina isenta de metanol, outras aceitam até 0,1%. A maioria trabalha com 1%, no máximo”, pondera.

Mercado interno
“A glicerina deixou de ser o patinho feio do biodiesel e passou a ser um produto que compõe o biodiesel em si”, reforça o gerente de biodiesel e coprodutos da Camera, João Artur Manjabosco.Antonio Alves, diretor administrativo da Grupal, acredita que o Brasil poderá se tornar o maior consumidor de sua própria glicerina: “Em grande parte a glicerina de biodiesel [glicerol a 80%] pode ser tratada por processos de bidestilação, tornando-se útil para diversos fins em indústrias de tintas, vernizes, têxtil etc.”
Embora já seja uma substância bastante versátil, ainda há projetos que estão dando novos usos para a glicerina. Áreas como extração de petróleo, rações e plásticos biodegradáveis deverão consumir grande parte ou a totalidade do que se produz atualmente. Recentemente, surgiram duas novas aplicações: na construção civil, a glicerina pode funcionar como substituto de um plastificante de alto valor, aplicado para fazer o concreto deslizar pela tubulação; na nutrição animal, pode servir como fonte energética para aves e suínos, substituindo itens caros como o óleo de frango e de soja degomado (esse uso ainda está em fase restrita de aplicação).
“Durante um bom tempo, o principal destino da glicerina será mercado externo, pois ainda estamos na fase dos projetos. Daqueles que saíram do papel, o consumo de glicerina é considerado pequeno em relação à produção e comparado aos volumes exportados”, discorda Oliva, que acredita que somente se esses projetos realmente decolarem o mercado interno passará a ser mais atraente.
“Assim como a grande maioria dos mercados, a glicerina sofreu grande impacto com o advento do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). Uma substância que antes era produzida apenas pela indústria de sabões e em escala relativamente pequena, passou a ser o coproduto do biodiesel, cujo percentual de produção seria definido por lei”, analisa Rocha, da Prisma. Ele explica que, neste momento, o mercado nacional de glicerina sofreu sua maior queda histórica de preços porque não estava preparado para absorver a enxurrada do produto que começou a entrar na praça de 2008 para cá.
Manjabosco ressalta que com a proximidade do novo marco regulatório, a oferta só tende a aumentar. “Crescemos praticamente 400% do volume exportado de glicerina (de 2008 a 2012)”, conclui.
Destilação
A profissionalização do mercado ocorreu e a capacidade brasileira de destilação de glicerina está aumentando. “As aplicações para o produto se expandiram, tanto em âmbito nacional quanto internacional e aprendeu-se a tratar a glicerina como commodity e não mais como um problema industrial”, opina Rocha. “O mercado aprendeu a trabalhar com glicerina”, complementa Manjabosco.Mesmo assim, a Prisma Brazil descobriu que o país ainda não é autossuficiente em termos do produto destilado de maior qualidade e valor agregado. Aopesquisar o destino da produção de glicerina loira, a empresa concluiu que em 2012 o Brasil produziu aproximadamente 260 mil toneladas, e que dois terços desse volume foram exportados. “No Brasil, o mercado tem surpreendido por seu crescimento, mas continua deficitário de glicerina destilada (produto que utiliza glicerina do biodiesel como matéria-prima). Em 2012, o Brasil importou 17 mil toneladas de glicerina destilada, especialmente da Argentina”, analisa Rocha.
O diretor comercial da Prisma ainda destaca que há uma tendência de mudança no perfil brasileiro quanto à glicerina. “O país está ampliando sua capacidade de destilação, o que deve torná-lo um importante exportador de glicerina destilada, que possui um maior valor agregado quando comparado ao produto em seu estado bruto”, prevê.
Fabricantes
As usinas de biodiesel também não parecem preocupadas com a saída da Gavilon do mercado. Por meio de sua assessoria de imprensa, a BSBios informa que seu coproduto é comercializado no mercado interno: “Ela pode ser utilizada como matéria-prima em plantas de bidestilação de glicerina, como aditivo em formulações de ração animal, mas as aplicações específicas são definidas pelas indústrias.”Já a diretora financeira da Granol, Paula Cadette, explica que atualmente a companhia tem comercializado somente a glicerina comercial (loira), e que em breve iniciará a produção de glicerina bidestilada. A executiva complementa que a Granol exporta desde 2008 e acompanha permanentemente o mercado interno e externo, alternando destinos conforme as melhores condições de preço. “Ao compararmos preços internos e de exportação também consideramos os impactos fiscais de cada operação. Como a empresa é credora de impostos, damos preferência às operações tributadas no mercado interno”, explica.
A Petrobras Biocombustível (PBio) comercializa sua glicerina de forma regular. “A oferta regular de glicerina permitirá a abertura de novos negócios no mercado interno, principalmente por conta da confiabilidade de suprimento que a indústria do biodiesel propicia”, informa a assessoria de imprensa. O Centro de Pesquisas (Cenpes) da Petrobras está na linha de frente da pesquisa para o desenvolvimento de novos usos, produtos e aplicações para a glicerina produzida nas unidades da PBio. “A purificação mais eficiente e com menor custo é a base dos projetos de P&D (pesquisa e desenvolvimento) nesta área”, ressalta.
Entre as novas aplicações para a glicerina estão: como matéria- prima para processo de fermentação visando à produção de hidrogênio e biolubrificantes, na recuperação avançada de poços de petróleo com o objetivo de aumentar a vida útil da exploração, como base de fluido de perfuração e completação de poços. De acordo com a PBio, este último projeto, com patente, já está em fase de testes de aplicação nos poços do pré-sal.
Como se vê, o mercado pode ter sido abalado, mas está preparado para prosseguir.