Estudo realizado pela Abiove e pela Ubrabio conclui que o biodiesel de soja emite pelo menos 65% menos CO2 do que o diesel mineral
Edição de Abr 2013 / Mai 2013 ··8 min de leitura
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Estudo realizado pela Abiove e pela Ubrabio conclui que o biodiesel de soja emite pelo menos 65% menos CO2 do que o diesel mineral
Estudo realizado pela Abiove e pela Ubrabio conclui que o biodiesel de soja emite pelo menos 65% menos CO2 do que o diesel mineral
Patrícia Herman, de Curitiba
Mais uma vez, o biodiesel brasileiro comprovou que faz por merecer suas credenciais ambientalmente corretas. Um estudo divulgado no início de fevereiro deste ano contabilizou as emissões de gases do efeito estufa (GEEs) geradas durante todo o ciclo de vida do biocombustível feito a partir de óleo de soja, mostrando que o uso do produto pode diminuir a poluição entre 65% e 72% quando comparado ao diesel de petróleo. O setor espera que esses bons resultados ajudem a convencer o governo federal a aprovar o novo marco regulatório do setor o quanto antes.
Embora pareça óbvio dizer que o biodiesel tem um menor fator de emissão do que o diesel não renovável, o problema era que os impactos ambientais resultantes de sua produção não haviam sido adequadamente mensurados. “Não havia nenhum estudo completo no Brasil das fontes de gases de efeito estufa e da pegada de carbono da produção do combustível. Os cálculos que existiam eram baseados em informações indiretas, o que dificultava o levantamento de resultados mais precisos”, conta o gerente de economia da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Daniel Furlan Amaral. Ele acrescenta que foi realizada uma coleta de dados ampla, por longo período de tempo e com mais variáveis, para atingir um grau de precisão inédito.
Além da Abiove, a União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio) e a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT) ajudaram a financiar a pesquisa.
Para Furlan, os novos números têm tudo para engrossar o apelo do setor por novos aumentos de mistura. “Hoje os números melhoram ainda mais a imagem do biodiesel, já que existe apelo de preservação ambiental comprovado, mas, principalmente, se tornam um argumento bastante forte para que o governo aumente a mistura”, opina.
De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em 2012 o Brasil consumiu mais de 2,7 bilhões de litros de biodiesel. Utilizando o valor médio de 70% de redução nas emissões de GEEs, pode-se estimar que algo em torno de 5,9 milhões de toneladas de CO2-equivalente (CO2e) deixaram de ser emitidas no país graças ao uso do biocombustível apenas no ano passado. Se somarmos todo o biodiesel consumido no Brasil desde 2008, quando o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB) foi instituído, as emissões de CO2e evitadas já chegaram a 23,3 milhões de toneladas. Os envolvidos com o estudo lembram que quanto maior o uso de biodiesel, maior a redução nas emissões.
Mercado externo
Um importante desdobramento desse novo balanço da pegada de carbono está na sua implicação para os produtores que têm ambições de exportar. A Diretiva de Fontes de Energia Renovável da União Europeia (2009/28/EC) estabelece que, para entrar no mercado europeu, os biocombustíveis precisam emitir 35% menos GEEs do que seus semelhantes fósseis.
Pelas contas da Comissão Europeia, o biodiesel de soja brasileiro só reduzia as emissõesem 31%. Isso criava uma barreira efetiva à entrada do produto made in Brazil no mercado do Velho Continente. Apenas usinas que estivessem dispostas a fazer, por conta própria, seus cálculos de emissões teriam alguma chance.
No futuro essa redução deverá ser ainda maior. A perspectiva é de que a barreira de entrada no mercado europeu suba para 50% em 2017, e para 60% em 2018. “Com o estudo, vimos que o biodiesel de soja brasileiro já atende as exigências europeias, tanto as atuais como as dos próximos anos. Esse dado certamente ajuda a entrada do biodiesel brasileiro no mercado externo”, avalia o consultor técnico da Ubrabio, Donato Aranda.
Estudo minucioso
A pegada de carbono de um produto é obtida a partir da contabilização das emissões de gases do efeito estufa associadas ao seu ciclo de vida. Para chegar aos números do biodiesel, o consórcio de entidades representativas contratou a DeltaCO2 Sustentabilidade Ambiental, empresa de consultoria especializada nesse tipo de serviço, para avaliar as emissões ao longo de toda a cadeia produtiva. Foram inclusos o cultivo da soja em grão, seu transporte, a extração do óleo bruto, a transformação em biodiesel e sua distribuição até o ponto final da cadeia.
Na etapa agrícola, foram considerados os dados de produção de soja de 114 fazendas localizadas no estado do Mato Grosso, acompanhadas durante as safras 2007/08, 2008/09 e 2009/10. As emissões de GEEs dessa fase foram estimadas a partir da utilização de combustíveis, fertilizantes, calcário, defensivos agrícolas, sementes, energia elétrica e decomposição de restos da colheita.
Também foram avaliadas plantas industriais de esmagamento e produção de biodiesel, tanto integradas quanto não integradas, no período de junho de 2008 a julho de 2009. A pesquisa ainda levou em conta diferentes rotas de distribuição do biocombustível: até a Refinaria de Paulínia (SP), o Porto de Paranaguá (PR), o Porto de Santos (SP) e, por fim, até o Porto de Rotterdam, na Holanda.
Todo esse levantamento é um processo demorado. “A aquisição dos dados depende do nível de organização dos elementos históricos necessários para completar o inventário. Essa é a etapa mais crítica do estudo. Uma vez obtidas as informações, os cálculos e a confecção do relatório podem ser finalizados em um prazo de dois a quatro meses”, explica a gerente de Cindy Silva Moreira.
Segundo a gerente, o cálculo dos números finais baseou-se em metodologias reconhecidas internacionalmente, desenvolvidas precisamente para orientar estudos de Análise de Ciclo de Vida e contabilização de emissões de GEEs. Além disso, todos os cálculos seguiram as diretrizes elaboradas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas. “As informações que recebemos das entidades envolvidas passaram por uma rigorosa verificação de qualidade pelos nossos consultores. O resultado é um estudo em conformidade com os princípios-padrão de contabilização de GEEs”, garante Cindy.
A DeltaCO2 adianta ainda que já possui os cálculos da pegada de carbono da etapa agrícola de produção do óleo de palma e que tem interesse em realizar o estudo completo do biodiesel feito a partir dessa matéria-prima. No entanto, o projeto ainda está em processo de avaliação.
Por melhores que sejam os resultados até o momento, os estudos também indicam que ainda existe espaço para que a indústria melhore sua performance ambiental. Segundo Daniel Furlan, da Abiove, os resultados obtidos podem ser considerados praticamente o piso da indústria. Seria possível reduzir ainda mais a pegada de carbono do biodiesel nacional se a indústria evoluísse do ineficaz transporte rodoviário para a opção ferroviária.
Critérios de avaliação
Para medir quanto gás carbônico é emitido durante o processo de fabricação do biodiesel, os técnicos da DeltaCO2 contabilizaram as emissões em cada um dos elos da cadeia produtiva de forma individualizada: 1 - Fase agrícola: avaliação da produção de soja no campo, incluindo todos os insumos utilizados durante o plantio e os combustíveis consumidos pelo maquinário agrícola;
2 - Processamento do óleo de soja: incluiu o transporte rodoviário da soja em grão, seu armazenamento em silos e processamento para a obtenção do óleo de soja bruto;
3 - Produção do biodiesel de soja: incluiu o transporte de óleo de soja bruto até as fábricas, seu refino e a transformação dessa matéria-prima em biodiesel;
4 - Transporte e distribuição do biodiesel: esta etapa tratou somente do transporte e distribuição do produto final para diferentes destinos. Foram elaborados dois cenários de escoamento: a) transporte rodoviário do biodiesel das unidades industriais até o Porto de Santos, o Porto de Paranaguá ou a Refinaria de Paulínia; b) transporte rodoviário do biodiesel até o Porto de Santos e transporte marítimo até um porto na União Europeia (distância de 5.500 milhas náuticas).
Resultados
No cenário de distribuição do biodiesel em uma das rotas nacionais (Refinaria de Paulínia), a participação da fase agrícola na pegada de carbono ficou entre 31% e 35%; a de processamento do óleo apresentou uma variação de 16% a 35%; a de produção de biodiesel, entre 20% e 43%; e a de transporte e distribuição do produto final até a refinaria, em 10%.
Já no cenário avaliado de exportação para a Europa, a participação relativa da etapa agrícola ficou entre 27% e 30%; a de processamento, entre 14% e 31%; a de produção de biodiesel, entre 17% e 38% e a de transporte e distribuição do produto final até a Holanda entre 21% e 22%.