


Esses dados claramente colocam em xeque a nossa suposta “autossuficiência” no setor de petróleo, tão comemorada pelo governo há alguns anos. Mesmo se conseguirmos explorar as reservas do pré-sal descobertas recentemente, as informações da Petrobras deixam claro que estamos a cada dia mais dependentes do mercado internacional de derivados de petróleo. Mais grave do que isso, a nossa velha história de exportar matéria-prima e importar bens industrializados mais uma vez irá se repetir. Ou seja, iremos continuar perdendo emprego e divisas para países industrializados, o que parece ser consequência única e exclusiva da falta de investimentos internos em infraestrutura de refino.
Na minha coluna anterior fiz um rápido exercício sobre a economia direta de divisas internacionais advinda do uso de 5% de biodiesel no diesel, que estimei para o nosso consumo atual em mais de US$ 1 bilhão anuais. Se levarmos em conta os outros setores onde os biocombustíveis estão substituindo derivados de petróleo no nosso mercado, tais como o álcool anidro misturado à gasolina em teores variáveis entre 20-25%, álcool hidratado usado diretamente em motores flex e carvão vegetal que substitui o coque nas siderúrgicas, essa conta certamente seria muito mais deficitária.
Por outro lado, não é apenas uma questão econômica relativa ao nosso comércio exterior. É fácil de imaginar que a produção desses biocombustíveis envolve um contingente enorme de assalariados em toda a cadeia produtiva, que vão desde os agricultores que cultivam a cana, o eucalipto ou a soja até os funcionários das usinas de álcool, carvoarias e usinas de biodiesel.
Voltando na história, devemos lembrar que a política de estado iniciada durante os anos 70, de substituição de derivados de petróleo por biocombustíveis produzidos no Brasil, foi motivada pela percepção de quão arriscada é a dependência externa no setor energético. À época, um ciclo de forte crescimento da nossa economia foi bruscamente encerrado por sucessivas crises de abastecimento de petróleo no mercado internacional, levando o nosso país a uma forte crise econômica que se alastrou por mais de uma década. Se levarmos em conta, ainda, os benefícios advindos da geração de emprego e renda na cadeia produtiva de biocombustíveis e da economia de divisas internacionais, é muito fácil concluir que a política estatal de uso de biocombustíveis não só deve ser mantida como deveria ser ampliada.