Não basta só vontade para ingressar no ramo de biolubrificantes. É preciso muita pesquisa, profissionais de ponta, aporte financeiro e conhecimento de mercado
Edição de Dez 2012 / Jan 2013 ··9 min de leitura
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Não basta só vontade para ingressar no ramo de biolubrificantes. É preciso muita pesquisa, profissionais de ponta, aporte financeiro e conhecimento de mercado
Não basta só vontade para ingressar no ramo de biolubrificantes. É preciso muita pesquisa, profissionais de ponta, aporte financeiro e conhecimento de mercado
Cátia Franco, de São Paulo
Nos últimos anos, diversos países vêm esboçando marcos regulatórios objetivando uma maior aderência aos princípios da sustentabilidade. É nesse favorável contexto que muitas das chamadas “tecnologias limpas e verdes” estão encontrando espaço para prosperar no mercado globalizado, à medida que empresas de diferentes calibres procuram se adequar às novas exigências legais e atrelam suas atuações ao mote da responsabilidade socioambiental. O próprio setor de biocombustíveis deve seu crescimento recente a essa onda, na qual a vedete da vez são os biolubrificantes.
A função de um biolubrificante é exatamente a mesma dos produtos convencionais: proteger peças de máquinas e motores, reduzindo o atrito e, consequentemente, o desgaste. Só que, como o próprio termo implica, eles são feitos a partir de matérias-primas renováveis, e não a partir do petróleo, como a imensa maioria dos óleos e graxas tradicionais.
Muito do entusiasmo em torno desse produto se deve à sua longa lista de atrativos, principalmente no que se refere ao apelo ambiental. São biodegradáveis, menos tóxicos, renováveis, possuem alto poder de lubricidade, maiores índices de viscosidade e menor inf lamabilidade. Pesam contra eles o fato de não serem recicláveis (eles se degradam); serem menos estáveis à oxidação, e a baixa tolerância a temperaturas reduzidas. “Mas hoje já temos disponíveis no mercado aditivos que trabalham muito bem essas questões”, assegura Gustavo Lucchesi Rodrigues, diretor da Notox, empresa de biolubrificantes há três anos em atuação.
Outros aspectos tornam esses produtos uma promessa bastante atraente de investimento. O Brasil é, reconhecidamente, um grande celeiro de oleaginosas. Os biolubrificantes seriam, portanto, uma forma natural e interessante de agregar valor a essa produção.
Rodrigues destaca o que seria ainda outra vantagem dos biolubrificantes: o custo de produção. “Se compararmos quanto se investe para obter um litro de petróleo e um litro de óleo vegetal, o segundo sai bem mais em conta”, pontua o diretor da Notox, lembrando que, no caso do petróleo, além dos custos relacionados à extração, há os gastos envolvendo o refino para fabricação das bases lubrificantes. “Existem diversos tipos de óleos vegetais com alta performance de lubrificação que podem ser usados logo após a prensa a frio”, ressalta.
Duelo de óleos
Cada uma das fabricantes de biolubrificantes entrevistadas para esta reportagem –Notox e VGBio – elegeu uma oleaginosa distinta como matéria-prima para suas linhas de produtos. Mas o segmento parece ter certa predileção pelo óleo de mamona. Desde 2004, a Petrobras, por meio de sua subsidiária Lubnor, investe em pesquisas para avaliar o uso do óleo de mamona na produção de biolubrificantes. Segundo a empresa, a escolha por essa matéria-prima está relacionada principalmente à viscosidade e ao baixo ponto de fluidez da mamona – duas propriedades que conferem características de qualidade bastante interessantes para a fabricação de lubrificantes.
Iniciado em 2004, o projeto ainda se encontra em escala piloto, mas, segundo a Petrobras, apresenta boas perspectivas. “Os dados preliminares sinalizam a qualidade de biolubrificantes à base de óleo de mamona”, afirma a Petrobras em nota oficial encaminhada à reportagem de BiodieselBR pela assessoria de imprensa da estatal.
A Notox, por exemplo, é outra partidária do óleo de mamona. “É um óleo muito nobre. Tem boa rentabilidade, bom desempenho em temperaturas frias ou quentes”, salienta Rodrigues.
Já a VGBio prefere ir por outra via. A empresa iniciou a produzir e fornecer biolubrificantes em janeiro deste ano e trabalha com uma gama mais diversificada de óleos vegetais, entre os quais soja, linhaça, girassol, nabo forrageiro e (também) mamona. “Mas 70% dos nossos produtos levam óleo de soja”, informa Roberto Uyvari Jr., CEO da empresa. Segundo ele, o óleo de soja atende aos requisitos básicos da tribologia – ramo que estuda, entre outras coisas, questões relacionadas a atrito e lubrificação.
Uyvari contemporiza a questão, alegando que cada oleaginosa agrega um diferencial para o produto. “A mamona tem uma performance boa no que se refere a baixas temperaturas. Já o nabo forrageiro possui alto poder de lubricidade, ideal em processos que dependem de alta lubrificação.”
Mercado especializado
E não é só por conta da incipiência dos estudos que os lubrificantes derivados de óleo vegetal demandam cautela por parte dos que pensam em se aventurar no ramo. Trata-se de um mercado que ainda se encontra em fase de formação e restrito a nichos muito especializados, como destaca o CEO da VGBio. “Hoje, não temos como competir com os lubrificantes à base de óleo mineral. Não vou ficar concorrendo com lubrificantes usados em motores de trator, por exemplo. O que a VGBio tem feito é explorar um nicho novo do mercado, oferecendo um produto eficiente em sua atuação e, ao mesmo tempo, interessante para empresas que precisam mitigar riscos de contaminação e demais passivos ambientais”, explica Uyvari.
Rodrigues, da Notox, compartilha da mesma percepção. “A nossa clientela é composta de empresas mais exigentes quanto às prerrogativas sustentáveis dos produtos que adquirem. Em geral, já possuem departamento de segurança ambiental estruturado e estão buscando certificações como o ISO 14000, ou têm contratos com governo.”
Entre exemplos de empresas que rezam por essa cartilha estão grandes madeireiras e mineradoras. Para estas últimas, por exemplo, o uso de um lubrificante à base de fontes renováveis, biodegradável e, o melhor de tudo, de baixa toxidade num processo de investigação geológica significa evitar a possibilidade de multas pesadas por contaminação do solo e geração de passivos ambientais.
Raciocínio semelhante aplica- se a empresas que desenvolvem atividades marítimas. Num caso de vazamento, o óleo mineral polui as águas e ataca a vida marinha, porque não degrada. Dentro de uma estratégia quebusca atenuar possíveis passivos ambientais, o uso de um produto biodegradável é muito mais conveniente, além de poder oferecer uma resposta em termos de desempenho igual ou até melhor que um lubrificante à base de óleo mineral.
Novo negócio
Inserir-se num mercado novo, ainda não regulamentado, não constitui o único desafio de quem está pensando em explorar esse nicho. Ter no currículo alguma experiência e know-how no ramo das tecnologias verdes, como é o caso do biodiesel, pode ser um bom ponto de partida. Mas, por si só, não é suficiente para garantir o êxito na empreitada. É preciso ter em mente que se está ingressando em outro tipo de negócio – e não simplesmente diversificando a atuação, como alerta o CEO da VGBio. “Uma usina de biodiesel tem parte dos equipamentos necessários à produção de biolubrificantes, até a fase do reator. Mas há necessidade de investimentos em outros maquinários e, principalmente, em profissionais e consultores especializados, além de muita pesquisa”, pondera Uyvari.
O CEO da VGBio salienta que as diferenças não se limitam aos aspectos inerentes à produção, abarcando também os que envolvem a comercialização. “No caso das usinas, entra óleo e sai biodiesel, que vai para os contêineres e cujo consumidor final é conhecido. Em relação ao biolubrificante, é uma logística de produção e de mercado completamente distinta: entra óleo, sai uma variação de biolubrificantes, com aplicações diversas, que requerem diferentes tipos e portes de embalagens, que possuem vários graus de viscosidade e cujo mercado consumidor é específico e bastante exigente.”
Uyvari lembra ainda que os biolubrificantes também têm todo um processo burocrático a cumprir. “São os certificados internacionais, de atoxicidade, o registro da ANP”, enumera. Fora o tempo dispensado com testes em laboratórios para assegurar, por exemplo, que o óleo usado nos biolubrificantes não tenha efeitos adversos inesperados, como atacar a borracha dos anéis de vedação de um caríssimo equipamento de perfuração. Afinal, o consumidor quer ter a certeza de que, além de atender questões ambientais, o produto não irá danificar o equipamento no qual é aplicado.
Larga escala
Aos poucos, a ideia de que tecnologias limpas e verdes custam mais caro começa a se dissipar, valorizando a premissa da obtenção da melhor relação custo-benefício.
Num mercado tão exigente e específico como o de biolubrificantes, essa questão adquire contornos relevantes. Trata-se de uma inovação que tem uma pegada sustentável irresistível, que a qualifica como “produto do futuro”. Abriga a possibilidade de infinitas aplicações, conta com oferta de matéria- -prima e um mercado com potencial de crescimento. Mas esbarra no desafio da escala de produção. “É preciso fomentar uma indústria de matérias-primas voltada aos biolubrificantes, visando a uma produção em larga escala”, defende Rodrigues, da Notox.
Contudo, para se alcançar esse patamar, é preciso que se criem incentivos, por meio de legislação prevendo isenção de impostos. Nos últimos tempos o governo tem remado na direção contrária, estimulando a agricultura familiar, que até o momento não tem apresentado resultados muito animadores. A mamona talvez seja o melhor exemplo da ineficácia dessa política.
Nesse aspecto, a lógica do mercado é clara: com boa oferta de matéria-prima, torna-se possível cogitar a produção em larga escala que, consequentemente, irá resultar na redução do custo de fabricação. Assim, os preços ficam mais competitivos e o nível de consumo começa a equiparar- -se, ampliando a possibilidade de consolidação do produto entre consumidores. Simples assim? Na prática, nem tanto. Empresas precursoras como a Notox e a VGBio confessam que já tiveram seus tropeços e escoriações. Nada que inviabilizasse a empreitada. Apenas resultados de um aprendizado de quem está se arriscando a fazer algo inédito.
“Perdemos e ganhamos clientes. Apanhamos, mas também aprendemos muito. Típico de quem ainda não tem o traquejo do negócio. Em compensação, hoje dispomos de uma linha de produtos madura, todos testados e homologados”, diz o diretor da Notox. Produzir e comercializar biolubrificantes também exige um bom aporte financeiro. Numa estimativa aproximada, o CEO da VGBio diz que, para entrar no negócio, foram investidos entre 5 e 6 milhões de reais em maquinários e mais cerca de R$ 15 milhões em pesquisas, normatização e profissionais gabaritados. “A mão de obra para atuação nesse setor é bastante cara”, adianta Uyvari.
Como se vê, para estrear neste segmento é preciso estar bem municiado de recursos financeiros, profissionais capacitados, equipamentos adequados... Só com a cara e a coragem, não dá. Decididamente, este não é um mercado para amadores.