Diversificação, Qualidade e Logística
Diversificação
Este não foi um bom ano para a diversificação de oleaginosas. Alvo de crítica de nove em cada dez estudos setoriais, a dependência da soja continua sem solução no curto prazo. Para piorar, ela só vem aumentando. Este ano, segundo a ANP, a participação da oleaginosa ficou numa média de 83%, contra 78% no ano passado e 69% em 2008. Beltrão, da Ubrabio, diz que falta a escala necessária de oleaginosas alternativas para abastecer as usinas. “A questão do óleo de soja não é uma escolha, é uma falta de escolha”, diz.O governo esperava uma diversificação mais rápida das matérias-primas, mas o desenvolvimento e fortalecimento de arranjos produtivos de oleaginosas se mostraram lentos e complexos. “Não há gargalo industrial. O grande gargalo é agrícola. Precisamos ter uma oferta diversificada de matéria-prima que garanta o abastecimento. Isso não significa reduzir a importância da soja, mas não depender somente dela”, diz Rodrigo Rodrigues, coordenador da Comissão Executiva Interministerial do Biodiesel da Casa Civil.
Rodrigues reconhece que faltou direcionamento da produção de oleaginosas e de biodiesel nas regiões Norte e Nordeste, que perderam espaço no mercado. Um avanço nesse assunto foi o lançamento do Programa de Produção Sustentável de Palma de Óleo, que tem como meta utilizar os 31,8 milhões de hectares de áreas degradadas e já zoneadas da floresta amazônica para o cultivo da palmácea. O cultivo, capitaneado por grandes empresas nacionais como Petrobras e Vale, será realizado pelas mãos da agricultura familiar, que contará com crédito, assistência técnica e garantia de compra. Outra oleaginosa promissora é a canola. A cultura apresentou bons resultados este ano, impulsionados principalmente pela atuação da BSBios no fomento da produção no Rio Grande do Sul e no Paraná. O resultado foi uma considerável expansão de quase 50% na área plantada este ano, que foi de 31 mil para 45,2 mil hectares.
A participação da agricultura familiar na cadeia também teve avanço, mas esteve sempre longe de acompanhar o crescimento da produção de biodiesel. O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) prevê que este ano os gastos com aquisições de matérias-primas da agricultura familiar fique em R$ 980 milhões, com uma participação de 109 mil famílias. O desempenho é metade da meta inicialmente projetada. A participação da soja tem a ver com esse resultado. Culturas de uso intensivo de mão-de-obra, como mamona e dendê, tiveram participação insignificante na produção do biodiesel. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) concluiu que o selo Combustível Social tem sido um mecanismo de estímulo para a indústria, mas não de suporte aos objetivos de inclusão do programa de biodiesel. Em 2010, o MDA puniu seis usinas com a perda do selo social por não comprovarem a compra mínima de matéria-prima da agricultura familiar. A lentidão do MDA ficou evidente, uma vez que essa retirada do selo se referia a problemas que aconteceram três anos antes.
Qualidade
O aumento da mistura de biodiesel no início do ano trouxe à tona um problema para o setor. A Federação Nacional do Comércio Varejista de Combustíveis (Fecombustíveis) denunciou a formação de borras e a proliferação de bactérias nos locais de armazenamento do diesel B, aumentando a freqüência de troca de filtros e bombas e de limpezas nos tanques. Além do aumento nos custos operacionais, os donos de postos se assustaram com a possibilidade de ter que arcar com indenizações a consumidores por danos no sistema de injeção e nos motores dos veículos. Diante disso, a ANP convocou todos os elos da cadeia para identificar onde está o problema e discutir possíveis soluções. A primeira providência adotada foi a publicação de um guia de procedimentos de manuseio e armazenagem do combustível. Também foi encaminhada uma solicitação para revisar a norma da ABNT que trata dos cuidados no transporte e armazenagem do biodiesel. Outra medida que a ANP está estudando é criar pontos de controle da especificação em todos os elos da cadeia: produtor de biodiesel e de diesel, distribuidora, revendedor retalhista e revendedor varejista.Logística
Em 2010 o caminho percorrido pelo biodiesel no Brasil ficou mais curto. Felizmente, a quantidade de remessas improváveis do combustível, muitas vezes saindo de usinas no Rio Grande do Sul e indo parar em Estados do Nordeste, reduziu significativamente, como mostraram os dados da ANP. Até julho, o Rio Grande do Sul não tinha importado nenhum metro cúbico de biodiesel, fato inédito até então.Mas é preciso ressaltar que ainda há muito o que se melhorar. Segundo o Sindicato Nacional das Distribuidoras (Sindicom), a distância média percorrida pelo biodiesel ainda é de 1.403 quilômetros. As remessas mais freqüentes do combustível vêm dos dois maiores Estados produtores de grãos e de biodiesel: Rio Grande do Sul e Mato Grosso. E se depender dos novos investimentos em usinas que estão a caminho, essa concentração ficará ainda maior nos próximos anos. O Estado que mais importa biodiesel é São Paulo, o que acaba concentrando o principal fluxo logístico nesses três Estados. Da região Sudeste para a Centro-Oeste, o tempo de entrega pode durar até cinco dias.