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Biodiesel de algas: algumas considerações

As algas têm tudo para se transformar na principal matéria-prima que irá substituir o petróleo.
Edição de Dez 2010 4 min de leitura
Diversas vezes tenho escrito sobre a potencialidade do uso de microalgas para a produção de biodiesel, inclusive aqui nas minhas colunas da BiodieselBR. De fato, as algas têm tudo para se transformar na principal matéria-prima que irá substituir o petróleo, seja para a produção sustentável de biocombustíveis ou como fonte dos mais diversos insumos para a indústria química. Em tese, as vantagens das algas frente a outras oleaginosas são inúmeras, podendo ser citadas a alta produtividade (até 140 mil litros por hectare, o que é impensável para qualquer oleaginosa pluricelular), o pequeno tempo para colheita (inferior a uma semana) e o fato de não competir com a produção de alimentos. São principalmente esses fatores que fazem brilhar os olhos de qualquer pesquisador ou investidor do setor de biodiesel. Mas, afinal, onde está o óleo ou o biodiesel de microalgas?

No último mês, estive procurando fazer alguns testes no laboratório e me deparei com uma realidade bastante desconcertante: foi-me impossível conseguir óleo de microalga. Para ser mais específico, o único aceno positivo foi uma promessa de fornecimento de uma amostra de poucos litros que seriam produzidos em uma universidade do sul do país. Além disso, nada consegui.

Na realidade, muito do que se fala de microalgas é conhecido apenas em nível de laboratório, havendo ainda inúmeros desafios para que a produção possa se tornar comercialmente viável. Pelo que se escuta falar, ainda devem ser vencidas algumas questões específicas de produção em larga escala. Grande parte dos esforços de pesquisa em microalgas em todo o mundo está hoje focado no desenvolvimento de tecnologias economicamente viáveis para a colheita (isolamento das algas do meio de cultivo) e extração do óleo.

No entanto, pouco ainda se fala de um problema sério do uso de microalgas como fonte de biodiesel. Estou me referindo à qualidade do óleo obtido. Gostaria de deixar claro que todo o conhecimento que tenho e que relato a seguir vem de artigos científicos publicados, até pelo fato que relatei de não ter tido acesso a amostras de óleo para estudar. Chamam-me a atenção dois pontos bastantes críticos, os quais foram responsáveis pela minha procura de amostras para estudar e aos quais gostaria de me dedicar nesta coluna.

O primeiro ponto é o fato dos processos de colheita e extração serem bastante difíceis e levarem à hidrólise dos óleos, tendo como resultado um produto com alto índice de acidez. Algo semelhante ao que ocorre com o sebo bovino, mas em uma escala bem maior. Pelos relatos que li, as amostras apresentam acidez acima de 20 %, como o que ocorre com palmeiras selvagens como a macaúba. Este fato é bastante preocupante, pois a tecnologia industrial existente hoje, tanto para o refino do óleo quanto para a produção de biodiesel, não permite o uso de uma matéria-prima com esse teor de ácidos graxos livres.

Por outro lado, a composição química do óleo – pelo menos é o que tenho lido em artigos científicos – é bastante problemática para a produção de biodiesel. Os relatos indicam que os óleos obtidos por microalgas são ricos em cadeias poliinsaturadas, como o Omega 3. Essa composição, que faz com que as microalgas sejam excelentes suplementos alimentares, será certamente uma enorme dor de cabeça para os produtores e revendedores de biodiesel. Cadeias com duas ou mais insaturações, como é o caso do óleo de linhaça usado para verniz, são extremamente suscetíveis à oxidação, solidificando em contato como o ar por um processo de polimerização.

Justamente esses dois fatores foram os que me levaram a procurar amostras de óleo de microalga. Para o primeiro problema, gostaria de testar alguns processos combinados de hidrólise, esterificação e transesterificação que estamos testando em nosso grupo para óleos ácidos. Já para o segundo, a solução será bem mais complexa, sendo provavelmente necessárias algumas reações químicas que transformem o óleo de microalga, de forma que ele se torne mais estável. No entanto, essas soluções poderão inviabilizar o uso de microalgas como fonte de biodiesel, pois certamente aumentarão em muito o seu custo.

Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.
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