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Biodiesel acima do obrigatório: um novo mercado?


BiodieselBR.com - 29 jun 2010 - 07:30 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:15
André Amorim, de Curitiba

Quando se fala em futuro, os produtores brasileiros de biodiesel sabem o que querem encontrar: um mercado menos limitado, de preferência livre e sem a interferência constante da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Hoje a indústria tem visto a demanda pelo combustível crescer no país, mas ainda se sente restrita pelas limitações impostas pelo sistema de leilões, apesar dos últimos preços máximos definidos pela agência terem sido extremamente favoráveis. Por outro lado, há quem diga – principalmente entre os integrantes de órgãos governamentais – que o setor ainda é jovem e imaturo, e que não está pronto para se ver livre das amarras burocráticas.

Quem sonha com a liberdade também sabe que é pouco provável que o fim das amarras chegue logo. Como se sabe, governos são pouco afeitos a decisões repentinas. Há muita coisa em jogo e qualquer alteração no programa é precedida de muita análise e debate. Mas, e se houvesse uma forma de testar o livre mercado de biodiesel sem arriscar o que o país já conquistou nem alterar as atuais regras de restrição?

Pois bem, esse mercado quase livre existe. São vários projetos que, com a autorização da ANP, antecipam o B20 Metropolitano e outras misturas maiores de biodiesel no diesel em frotas cativas de ônibus e caminhões em todo país. A dinâmica desse mercado é complexa, mas ao mesmo tempo simples: com autorização oficial, o consumidor final faz parcerias com montadoras de veículos, distribuidoras de combustíveis e usinas e coloca parte da frota para rodar com mais biodiesel do que o B5 encontrado nas bombas de combustíveis hoje. Nos últimos cinco anos, o órgão regulador autorizou dez projetos dessa natureza, o que movimentou, segundo a agência, 1.228.968 litros de biodiesel comprados diretamente dos produtores ao longo de quatro anos.

Se esse número mostra-se pouco significativo perante o volume de operações no setor, que chegou a 1,6 bilhão de litros em 2009, e a média de apenas dois projetos por ano parece tímida, a sinergia criada por essas ações merece destaque. Nos bastidores de cada uma dessas iniciativas há uma grande variedade de parceiros, que vai dos fabricantes das peças automotivas aos distribuidores do biodiesel, passando por instituições de pesquisa e empresas de transporte. Seja pela preocupação ambiental, pelo aspecto econômico (uma vez que estas ações podem ser revertidas em créditos de carbono) ou pelo incremento da imagem institucional dos envolvidos, o uso dos biocombustíveis mostra-se objeto de interesse de vários segmentos distintos de mercado.

Dados da ANP revelam que a maioria dessas iniciativas concentra- se nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Um dos projetos autorizados pela agência para o uso de B20 em solo paulista é desenvolvido pela transportadora norte-americana Martin Brower, responsável pela logística das lanchonetes da rede McDonald´s. Nessa iniciativa, ainda em fase de testes, é usado como matéria-prima do biocombustível o óleo de fritura proveniente de 18 restaurantes da rede localizados na zona leste de São Paulo e de outras duas unidades em Atibaia e Bertioga, no litoral paulista. Esse material alimenta quatro caminhões da empresa com o B20 e outros dois com biodiesel puro, B100, além de servir de combustível para alimentar os geradores que tocam os freezers instalados nesses veículos.

Segundo o diretor de contas nacionais e internacionais da empresa, Augusto dos Santos, a idéia é que o biodiesel utilizado nesta experiência tenha custo igual ou menor que o diesel de praça. Ele não prevê impactos econômicos negativos com o uso do biocombustível no projeto, uma vez que ele é produzido a partir de resíduos, e não de matérias-primas nobres (e mais caras), como oleaginosas, que competem no mercado de alimentos.

O óleo de fritura descartado, que antigamente era encaminhado a cooperativas e ONGs para a produção de sabão, agora é recolhido pela empresa e encaminhado para uma usina em Sumaré, interior de São Paulo, que realiza a transformação desse material em biodiesel. Cada 100 litros de óleo rendem cerca de 75 litros de B100, que por sua vez é misturado ao diesel mineral dentro dos centros de distribuição da própria empresa. Segundo Santos, hoje a oferta de matéria-prima disponível nas lanchonetes atendidas poderia abastecer 40% da frota com B100, ou 100% da frota com B40. Para aumentar esse porcentual, existe a possibilidade de usar também os resíduos gerados pelos fornecedores da cadeia do McDonald´s, expandindo assim a rede de parcerias do projeto.

Isso tudo, é claro, somente será definido após a empresa colher os resultados dos testes em curso atualmente, o que deverá ocorrer somente em setembro. “Ainda tem muita coisa para ver. A questão do rendimento da gordura, da logística. Será que vale a pena trazer gordura do norte do país para São Paulo?”, questiona Santos.