BiodieselBR
Publicidade

Fim do biodiesel ou mais uma opção?

A Comissão de Serviços de Infra-estrutura (CI) do Senado Federal aprovou o PLS 81/08, a qual prevê a comercialização e uso de óleo vegetal refinado como combustível para veículos e máquinas agrícolas, geradores de energia e veículos para transporte de passageiros e cargas.
BiodieselBR.com 4 min de leitura
A Comissão de Serviços de Infra-estrutura (CI) do Senado Federal aprovou o PLS 81/08, a qual prevê a comercialização e uso de óleo vegetal refinado como combustível para veículos e máquinas agrícolas, geradores de energia e veículos para transporte de passageiros e cargas. Essa aprovação foi em decisão terminativa, o que significa que o projeto não precisará ir para plenário e passará diretamente para a Câmara dos Deputados. A pergunta que provavelmente surge na cabeça de todos é se esse projeto de lei representa um possível fim para o biodiesel ou se é apenas mais uma opção de biocombustível.

Antes de tentar responder essa inquietante pergunta, vou tentar retomar um pouco da história. A idéia de usar óleos e gorduras diretamente em motores não é nem um pouco nova, e muito menos insensata. Não é insensata pelo simples fato de que elimina toda a etapa de transformação do óleo e gordura em biodiesel, e, portanto, diminui significativamente os custos do combustível. Não é nova pelo fato de já ter sido apontada como a melhor solução para o motor diesel pelo próprio Rudolph Diesel nos primeiros anos do século 20. Aliás, os óleos e gorduras só não se consagraram como combustíveis pelo fato de não conseguirem competir à época com o petróleo. Mas devese destacar que sempre que houve problemas com o abastecimento de petróleo na primeira metade do século passado, os óleos e gorduras foram usados diretamente nos motores. No Brasil, o primeiro programa governamental para uso de biocombustíveis foi em 1943, quando se proibiu a exportação de óleos e gorduras na tentativa de reduzir os preços no mercado interno e viabilizar o uso como combustível na rede ferroviária.

Seguindo ainda o relato histórico, devemos lembrar que o motor diesel sofreu diversas transformações ao longo da história, sendo hoje inviável o uso direto de óleos e gorduras. De fato, os resultados do uso direto de óleos e gorduras em motores convencionais são desastrosos: depósitos e coqueificação em sistemas de injeção e pistões comprometem o seu desempenho e a vida útil. No entanto, existem diversos estudos que demonstram ser viável o desenvolvimento de motores, ou mesmo de adaptações a motores convencionais, que permitam o uso direto. Mas devo destacar que não está claro, pelo menos para mim, se esses motores conseguem manter o mesmo desempenho que os motores diesel convencionais modernos.

Para usos específicos, como geração de energia elétrica ou uso em tratores e outros maquinários agrícolas, poderia-se muito bem utilizar motores modificados e adaptados para o uso direto de óleos vegetais. Por exemplo, pensando no gerador elétrico de uma comunidade isolada na Amazônia que possua alto potencial para produzir óleo de palmáceas ou nos tratores de uma fazenda de soja ou girassol, essa solução parece ser a mais sensata. No entanto, acredito que do ponto de vista técnico seja impensável, hoje, substituir a mistura de diesel/biodiesel por óleo vegetal na atual frota que utiliza motores diesel.

Em resumo, o que acredito, e que sempre defendi, é que existe espaço para o biodiesel, para os óleos vegetais, bem como para os hidrocarbonetos gerados a partir de diferentes biomassas e outras alternativas energéticas. A nossa sociedade, desde que entrou na era do uso de combustíveis fósseis (na ordem de aparecimento: carvão, petróleo e gás natural), acostumou-se ao uso de fontes únicas de combustível. Talvez essa situação, que é a mais cômoda possível, não mais seja viável no futuro. Como já aconteceu antes da revolução industrial, o ser humano deve fazer o aproveitamento de toda e qualquer fonte de energia que esteja disponível. E dentro desse caleidoscópio, acredito que haja espaço tanto para o biodiesel quanto para o uso direto dos óleos vegetais.

Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.
Compartilhar: