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Usinas estão contentes com o aumento, mas nem tanto

B7--Odacir-Dilma-ministrosEm qualquer outro segmento da economia, um aumento de 40% na demanda seria recebido com euforia – quase êxtase – pelos fabricantes. Não quando esse setor é o de biodiesel.
BiodieselBR.com 11 min de leitura
Em qualquer outro segmento da economia, um aumento de 40% na demanda seria recebido com euforia – quase êxtase – pelos fabricantes. Não quando esse setor é o de biodiesel. Para essa indústria, o anúncio feito pelo Palácio do Planalto na semana passada de que a mistura obrigatória de biodiesel ao diesel mineral será elevada dos atuais 5% para 7% até o final do ano – em 01 de julho passa a valer o B6 e, em novembro, entra o B7 – foi recebida com sorrisos meio amarelados.

Não é o que o setor não tenha ficado contente com a edição da MP 647 – que encerra uma espera de quase quatro anos desde a adoção do B5, em janeiro de 2010 – mas nas falas dos produtores ouvidas por BiodieselBR.com transparecem um sentimento anticlímax, como se, coletivamente, o setor ainda visse nuvens de tempestade se avolumando no horizonte.

Em qualquer outro segmento da economia, um aumento de 40% na demanda seria recebido com euforia – quase êxtase – pelos fabricantes. Não quando esse setor é o de biodiesel. Para essa indústria, o anúncio feito pelo Palácio do Planalto na semana passada de que a mistura obrigatória de biodiesel ao diesel mineral será elevada dos atuais 5% para 7% até o final do ano – em 01 de julho passa a valer o B6 e, em novembro, entra o B7 – foi recebida com sorrisos meio amarelados.

Não é o que o setor não tenha ficado contente com a edição da MP 647 – que encerra uma espera de quase quatro anos desde a adoção do B5, em janeiro de 2010 – mas nas falas dos produtores ouvidas por BiodieselBR.com transparecem um sentimento anticlímax, como se, coletivamente, o setor ainda visse nuvens de tempestade se avolumando no horizonte.

biodiesel evolucao no brasil

O resumo dessa ambivalência surge no contraste entre duas falas do diretor-executivo da Cesbra, Carlos Omar Polastri. “[Esse aumento] era o que estávamos esperando há mais de quatro anos”, dispara num primeiro momento para, em seguida, emendar que espera o setor encare essa “nova oportunidade com mais tranquilidade e sensatez”. “O que esperamos é que os produtores entendam que, mesmo com B7, o volume é limitado [...] cada um tem que conhecer seu mercado e lembrar dos problemas gerados pela voracidade descabida”, alerta.

Longo prazo
Essa mesma preocupação com o amanhã acompanha as declarações da maioria dos entrevistados para essa reportagem. Adilson Montanheiro é ex-executivo do setor e recorda que, com a atual capacidade instalada, já daria para atender um B15 ou “até um B20”. “Com certeza ainda precisaremos de um novo marco regulatório”, comenta resgatando a necessidade de um projeto de mais longo prazo.

Até entre aqueles que têm o dever de manter certo otimismo protocolar, a mensagem é que esse momento não é o objetivo final. “Minha opinião [sobre o aumento] é muito positiva. O setor recebe essa notícia com entusiasmo e esperança porque a melhor parte desse anúncio é que o biodiesel finalmente voltou à agenda do governo”, comemora presidente do conselho da Aprobio e diretor da BSBios, Erasmo Battistella. Contudo, ao ser questionado se o de 40% aumento bastaria para resolver os problemas do setor, ele se mostra bem menos efusivo. “O aumento de 40% do mercado [...] é o começo do que esperamos para nosso setor”, reconhece acrescentando que sempre defendeu a necessidade de políticas de longo prazo.

O presidente da Ubrabio, Odacir Klein, é mais um que – apesar do aumento – ainda sente a falta de um marco que garanta um olhar mais distante. “É lógico que o setor precisa do marco regulatório para resolver as perspectivas de investimento futuro”, pontua.

Investimentos?
Sem uma perspectiva de longo prazo, a maior parte dos entrevistados não acredita que o novo aumento poderá, por si só, tirar o setor do marasmo de investimentos no qual se encontra.“Qualquer empresa que tire projetos da gaveta no sentido de aumentar a capacidade instalada contando com esse aumento [anunciado agora] estaria cometendo um engano”, vaticina o diretor da Minerva, Marcelo Alcântara. Essa é também a opinião do diretor executivo da Bianchini, Antonio Bianchini, que não vê novos investimentos significativos a médio prazo. “Atualmente existe uma superpopulação de usinas com potencial de produção muito acima do de consumo”, reclama apontando que o setor só voltará a ser atraente num cenário pós-B10.

Há até quem torça para que novos investimentos produtivos não se materializem tão cedo. É a opinião do presidente da Amazonbio, Milton Steagall. “Espero que não [haja novos investimentos], pois a capacidade produtiva já é muito superior ao B7”, ressalta.

Veja o caso, por exemplo, da Grupal que, em dezembro passado, anunciou sua saída do mercado. “O tempo de espera pelo B7 causou um prejuízo acumulado grande que, não conseguimos absorver”, comenta o diretor da empresa, Antônio Alves, informando que, apesar do anúncio, não tem planos imediatos para retomar a produção.

A visão de Battistella é um pouco menos sombria. Embora admita que não vamos voltar a ouvir falar em novas usinas ou em expansões tão cedo, ele espera um pouco mais de estímulo em outros aspectos do negócio. “Precisamos investir na cadeia, mesmo sem [novas] fábricas. Investir na produção de matérias-primas, logística mais eficiente, melhorias na tecnologia de produção... ou seja, tem muitas coisas para investirmos”, analisa.

Preço
Outro ponto pacífico é que ainda não vai ser dessa vez que os preços do biodiesel nos leilões da ANP voltarão a apontar para cima imediatamente uma vez que ainda há muita concorrência. “O impacto [nos preços] será pequeno. A expectativa é que tenhamos um preço médio de venda mais alto, mas ainda insuficiente para melhorar a rentabilidade do setor”, avalia a Potencial por meio de comunicado enviado à BiodieselBR.com.

De qualquer forma, o percentual de biodiesel tem influência relativamente limitada nos preços do leilão. “Eventuais ajustes de preços do biodiesel tendem a seguir o mercado internacional dos derivados de soja, bem como variações cambiais que afetam os preços internos”, explica o economista da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Leonardo Zilio.

Opiniões
“Temos 40% a mais de demanda e uma nova oportunidade para agirmos com mais tranquilidade e sensatez em nossas decisões. Caso contrário, em janeiro de 2015, estaremos pedindo o B10. E tudo será ainda pior, pois a dimensão do problema será 40% maior”.
Carlos Omar Polastri, diretor executivo da Cesbra

“Antes tarde do que nunca. Mas as usinas já estão preparadas para misturas bem maiores, um B15 ou até um B20 (...) tomara que não fique só no B7. Com certeza, precisaremos também de um novo marco regulatório”.
Adilson Paschoal Montanheiro, ex-executivo do setor

“O setor recebe esta notícia com entusiasmo e esperança porque a melhor parte desse anúncio é que o biodiesel finalmente voltou à agenda do governo e se firma como uma grande opção energética para o País. De forma alguma esse aumento resolve o problema do setor. O aumento em 40% do mercado é o começo do que esperamos, mas precisamos de mais coisas para que o biodiesel possa entregar todo seu potencial. Particularmente, sempre defendi que precisamos de políticas de longo prazo. (...) Então, acredito que, com uma sinalização clara por parte do governo do que vai ocorrer na próxima década , o setor produtivo vai conseguir se organizar para fazer mais investimentos na cadeia.
Erasmo Carlos Battistella, diretor presidente da BSBios e presidente do conselho da Aprobio

“Essa é uma iniciativa positiva, mas que não chega nem perto de resolver o problema. (...) O tempo de espera pelo B7 causou um prejuízo acumulado grande que não conseguimos absorver porque tivemos que financiar estruturas produtivas ociosas na expectativa do aumento da mistura e, consequentemente, preços mais competitivos”.
Antônio Alves, diretor administrativo da Grupal

“O novo aumento é muito positivo. É o primeiro passo de muitos que o setor precisa dar. No momento, o Brasil tem potencial para produzir uma quantidade maior, tanto no que diz respeito à matéria-prima quanto à capacidade das unidades instaladas. Mas, além do aumento da mistura, a elaboração de um novo marco regulatório para o biodiesel, com um cronograma e regras definidas contemplando todas as atividades da cadeia produtiva, será importante para o desenvolvimento do setor.
Sílvio Roman, gerente comercial da Delta Energia

“O que penso sobre os investimentos do setor é que eles não podem vir por entusiasmo. Acontece um aumento de mistura, o setor eleva a capacidade produtiva, e por incrementar a capacidade produtiva, precisa de outro aumento mais para frente. Os investimentos têm que ser resultado de uma análise de um quadro real. Por isso, o que realmente poderia estimular ou não novos investimentos produtivos é um marco regulatório a longo prazo”.
Odacir Klein, presidente da Ubrabio

“Esse é um primeiro passo rumo ao retorno do equilíbrio setorial. (...) Num mercado cujo tamanho depende diretamente de políticas governamentais, não é justo que desequilíbrios acentuados entre oferta e demanda se prolonguem indefinidamente, causando uma sequência de quebras e desistências no lado das usinas produtoras, pois, certamente, logo esses efeitos se voltarão contra o próprio Programa”.
Antonio Bianchini, diretor da Bianchini

Dada a capacidade produtiva ser praticamente o dobro da demanda, isto [o aumento] com certeza ajuda, mas esperávamos mais. Por esse motivo, não creio que os aumentos possam destravar novos investimentos, pois a atual capacidade instalada já é muito superior ao B7 que entrará em vigor em novembro próximo.
Milton Steagall, presidente da Amazonbio

“Foi preciso praticamente todo um mandato para o governo se convencer dos benefícios da elevação da mistura. Antes tarde do que nunca. Uma pena que essa decisão tenha chegado muito tarde para diversas empresas que fecharam as portas nos últimos anos. Agora, a medida vai representar um oxigênio ao setor, que, ao longo desses últimos anos, foi reprimido, forçado a trabalhar com ociosidade. Foi a vitória da persistência. (...) Espero que a edição da MP venha acompanhada da divulgação de um marco regulatório para o biodiesel. O importante é saber se teremos só o aumento ou uma política para o setor. Esperamos que as duas coisas caminhem juntas.
Deputado federal Jerônimo Goergen, presidente da Frente Parlamentar do Biodiesel

Além de ser um percentual ainda muito modesto, outras medidas poderiam ser adotadas, para tornar o setor mais atraente: mudanças nas regras do Selo Social, redução do prazo de pagamento praticado pela Petrobras, repasse ao produtor do custo financeiro que ela cobra das distribuidoras.
Potencial

Esse é um aumento que a gente estava esperando, já faz uns dois ou três anos. Nesse meio de tempo, vieram outras unidades industriais contribuindo para o aumento da capacidade instalada. [O aumento] vai oxigenar o setor, mas não fará muito diferença [...] soa como um OK do governo para dar continuidade ao PNPB, nada mais que um reforço.
Marcelo Alcantara, diretor da Minerva

“Apenas um marco regulatório estabelecendo um cronograma de crescimento, por exemplo, entre 2014 e 2020, poderia destravar novos investimentos para o setor por já temos uma grande capacidade de produção de biodiesel”.
João Batista Cardoso, ex-executivo do setor

A gente começou a trabalhar por um novo marco que oferecesse previsibilidade para o setor desde o início da Aprobio, em 2010. [...] Demorou muito mais que se esperava e veio só o aumento, não o novo marco. De qualquer maneira, a parte importante é que o governo incluiu novamente o biodiesel na pauta e começou a escutar o que a gente vinha dizendo. Vamos continuar trabalhando para que a gente tenha definições mais claras para o futuro do biodiesel.
Julio Minelli, diretor-superintendente da Aprobio

O aumento do percentual de mistura previsto para o segundo semestre de 2014 é muito bem vindo não só pelo setor produtivo do biodiesel, mas também pelo complexo soja como um todo. A elevação para B6 e, posteriormente, para B7 proporcionará às usinas um melhor aproveitamento do parque industrial instalado, elevando a eficiência operacional e reduzindo a significativa ociosidade. Além disso, os benefícios do maior uso do biodiesel poderão ser mais amplamente usufruídos pela sociedade brasileira, com melhoria da qualidade do ar, redução das emissões de Gases do Efeito Estufa, criação de emprego e geração de PIB – principalmente no interior do país – e redução da necessidade de importação de diesel fóssil, que hoje representa um gargalo em termos logísticos e de resultado financeiro para a Petrobras.
Leonardo Zilio, assessor econômico da Abiove

Fábio Rodrigues - BiodieselBR.com
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