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PBio: o desafio de vender suas usinas

A Petrobras pode incluir a PBio em seu plano de desinvestimento. As participações da subsidiária no biodiesel somam 903 milhões de litros em capacidade.
BiodieselBR.com 11 min de leitura
Se forem ouvidos os rumores, é bem possível que a Petrobras esteja planejando se desfazer da Petrobras Biocombustível (PBio). Estamos falando de quase 903 milhões de litros em capacidade instalada anual de produção de biodiesel – contando as três usinas próprias e mais sua participação de 50% na BSBios. A empresa tem ainda participações em 9 usinas de etanol que somam 29,8 milhões de toneladas em capacidade de moagem.

PBioVenda 220915Se forem ouvidos os rumores, é bem possível que a Petrobras esteja planejando se desfazer da Petrobras Biocombustível (PBio). Estamos falando de quase 903 milhões de litros em capacidade instalada anual de produção de biodiesel – contando as três usinas próprias e mais sua participação de 50% na BSBios. A empresa tem ainda participações em 9 usinas de etanol que somam 29,8 milhões de toneladas em capacidade de moagem. 


Negócio nada modesto, portanto.

É notório que a Petrobras atravessa um dos períodos mais turbulentos em seus mais de 60 anos de história. Abalroada pelos reflexos da Operação Lava Jato que revelou um esquema bilionário de desvio de verbas em seus altos escalões, pela disparada do dólar que fez sua dívida subir a níveis assustadores e pelo derretimento nas cotações do barril de petróleo que coloca em dúvida até a viabilidade do pré-sal, o inferno astral da petroleira parece não que não tem mais fim.

No ano passado, a companhia registrou um prejuízo líquido de R$ 26,6 bilhões em função da contabilização de perdas com a corrupção. Embora ela tenha voltado a ficar lucrativa nos dois primeiros trimestres do ano, o 3º trimestre contabilizou prejuízo de R$ 3,6 bilhões. Para estancar essa sangria, a diretoria da petroleira cortou mais de US$ 90 bilhões em investimentos de seu Plano de Gestão e Negócios (PGN) e anunciou vendas de ativos no valor de US$ 15,1 bilhões que incluiriam uma possível abertura de capital da BR Distribuidora e a venda de negócios na área de gás natural.

Não demorou muito para que o nome da PBio aparecesse. Num relatório distribuído entre investidores datado de 13 de abril, por exemplo, o Credit Suisse incluía a divisão num relatório no qual listava de 11 subsidiárias e joint ventures das quais a Petrobras poderia vir a se desfazer [veja tabela] por um valor combinado de US$ 22,2 bilhões. Desse montante, a PBio representaria US$ 905 milhões.

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Outras fontes já indicaram a BiodieselBR.com que o grupo teria interesse em vender todo o negócio de biocombustíveis. A organização do negócio para a venda seria um dos grandes objetivos do novo presidente da Pbio.

Prejuízos recorrentes

O fato da Petrobras jamais ter conseguido transformar a produção de biocombustíveis num negócio rentável alimenta por si só já justificaria a saída do mercado. Este ano, só até o 3º trimestre a petroleira já perdeu mais de R$ 463 milhões com essa atividade. O prejuízo acumulado desde sua fundação está perto de R$ 1,5 bilhão [veja gráfico]. Em anos anteriores, quando o balanço estava solidamente no azul, essas perdas eram um incomodo tolerável, mas, dentro da nova realidade da companhia, eles podem ter ultrapassado o limite.

Vender a PBio, portanto, seria uma forma de cortar despesas e, ao mesmo tempo, fazer caixa. Duas coisas que a empresa precisa.

Maior que a soma das partes

Um empreendimento industrial é uma daquelas coisas que pode valer bem mais do que a soma de suas partes. Um eventual comprador concordará em pagar tanto mais quanto melhores forem as perspectivas de fazer dinheiro a partir do novo.

Ascensão e queda da Brasil Ecodiesel

A Brasil Ecodiesel foi a primeira grande potência do setor de biodiesel no Brasil. Fundada em julho de 2003, a empresa chegou a contar com seis usinas de biodiesel: Floriano (PI), Cratéus (CE), Iraquara (BA), Porto Nacional (TO), Rosário do Sul (RS) e Itaqui (MA) que somavam 723 milhões de litros em capacidade produtiva. Isso num tempo em que as empresas do segmento tinham um porte bem mais modesto.

Contudo, o plano de negócios que deveria dar sustentação ao crescimento da companhia acabou fazendo água quando a aposta na produção de oleaginosas alternativas oriundas da agricultura familiar se provou equivocada. Para completar, a empresa adotou uma estratégia desastrosa ao partir para o tudo ou nada e vender seu produto por R$ 1.867 o m³ nos Leilões 6 e 7 em novembro de 2007 – leilão que arrematou o biodiesel necessário para o lançamento da mistura obrigatória em janeiro de 2008.

O tamanho do erro de cálculo fica claro quando se observa que de novembro de 2007, quando a venda foi feita, e junho de 2008 o preço do óleo de soja saltou de US$ 993 para US$ 1.399 na Bolsa de Chicago. Vale lembrar que, nessa época, os leilões eram semestrais

Foi mais do que a empresa podia suportar. E ela entrou numa crise aguda que se estendeu por anos e depois de várias medidas acabou mudando de nome para Vanguarda Agro e desistindo da produção de biodiesel.

Em outubro de 2011, a empresa vendeu a usina de biodiesel de Rosário do Sul e, dois meses mais tarde, anunciou também as vendas de Iraquara e Porto Nacional.

Hoje, a empresa não tem mais nenhuma usina autorizada a operar. Foi embora sem deixar saudades.

“Você não vende apenas um equipamento, você vende todo um negócio”, resume o engenheiro químico Expedito Parente Jr. que, em meados de 2011, se tornou um dos responsáveis por encontrar novos donos para as plantas que, um dia, faziam parte do império de biodiesel que a Brasil Ecodiesel sonhava construir no país [leia box]. Com isso, ele quer dizer que, na hora de ser vendida.

É o que confirma Agnaldo Benvenho sócio de uma empresa – a BP Avaliações e Perícias – especializada justamente na avaliação de ativos industriais. “A primeira coisa que qualquer comprador olha é a capacidade de gerar renda, seja uma usina de biodiesel ou uma siderúrgica”, afirma. Especialmente qual o nível de retorno sobre o investimento. “Se eu quiser um retorno de 15% sobre um investimento de R$ 100 milhões, vou precisar que o ativo renda R$ 15 milhões por ano”, explica.

Para chegar nessa conta, qualquer comprador sério vai mergulhar nos números tanto do segmento quanto do ativo que será adquirido. “[O possível comprador] vai buscar as informações contábeis para ver qual o lucro possível”, diz Benvenho. Sobre isso, o comprador qualquer investidor minimamente sério vai computar seu risco – ou seja, tudo aquilo que pode sair errado. “É o que vai determinar o nível mínimo de rentabilidade para o negócio. Assim você se resguarda”, esclarece Benvenho acrescentando que é pior em setores muito regulados. “[Muita regulamentação] diminui a margem de manobra”, completa.

Chute direcionado

Nesse ponto, a ciência leva só até determinado ponto. No final, o empresário precisa confiar em seu taco. “É um ‘chute direcionado’ porque você pega as informações e projeta o esperado para o futuro. Só que, é claro, ninguém sabe o futuro”, admite.

Em grande parte, é um jogo de percepções. Se as perspectivas de futuro parecerem boas, os investires podem se animar. Caso contrário, o mercado pode se retrair. “Olhar para as perspectivas de crescimento do percentual [de biodiesel no diesel] é fundamental na precificação de um ativo de biodiesel. Se e quando vai acontecer um novo aumento da mistura. Esse vai ser o principal ponto a ser olhado porque é o que vai definir a demanda e preço do biodiesel que são os principais drivers para o faturamento”, explica.

O que nos traz para a conclusão que esse pode ser um ótimo momento para colocar esse tipo de ativos no mercado. Afinal, o Senado acaba de aprovar um projeto de lei que – PLS 613/2015 – que não só cria um cronograma para a implantação do B10 como, ainda por cima, abre uma janela para o avanço da mistura até 15%. Fora isso, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) passou uma resolução que flexibiliza o uso autorizativo por grandes consumidores.

Ou seja, depois de anos de espera, o setor pode ter finalmente um novo horizonte de crescimento.

Num contexto como esse comprar uma indústria pronta, ao invés de uma nova em folha, pode encurtar o caminho até o mercado. “Quando você constrói uma indústria do zero você tem que maturar o negócio com o tempo de construção formação da equipe e ajuste operacional. Você só vai conseguir entrar numa marcha certa depois de uns quatro anos”, elabora. Isso vale tanto para novatos quanto para veteranos. “Normalmente ativos industriais são negociados entre empresas do mesmo ramo. Entre 60% e 70% dos casos são empresas que querem expandir comprando concorrentes”, prossegue.

Negócio rentável

Segundo Parente, se tudo for bem planejado e executado, os novos donos não teriam sequer que ter o trabalho de virar a chave. Seu novo ativo vai chegar em suas mãos funcionando. “Tem uma forma de colocar uma indústria, seja de que segmento for no mercado, com suas licenças, Selo Social e com o relacionamento com clientes e fornecedores. Você consegue transferir a titularidade sem nenhuma interrupção no processo de operação”, completa.

Mas para tanto, ele salienta é fundamental que a usina seja – ou possa se tornar – rentável. Caso contrário, a coisa muda de figura e o valor da venda passa a ser limitado pelo valor dos equipamentos contidos naquele ativo. “[Vender] como equipamento é muito mais difícil porque é você tem mais facilidade em comprar um equipamento novo do que comprar um usado para realocar em outro lugar”, comenta Parente.

Comprar uma usina por suas partes faz sentido apenas em situações onde o mercado esteja tão aquecido que os fornecedores de tecnologias máquinas e equipamentos não estejam dando conta de atender à demanda por novos projetos. “No boom do setor sucroalcooleiro você ia orçar uma usina e o prazo de entrega era de cinco anos. Nesses casos pode valer a pena comprar uma unidade para realocar”, diz Benvenho.

Mas isso não é o que se vê agora.

Para um ativo do ramo de biodiesel, o fator mais importante para determinar sua viabilidade é a logística de matérias-primas. “Esse é o principal atributo”, destaca o engenheiro químico. Outros fatores relevantes são a integridade do Selo Social, os incentivos tributários concedidos pela unidade da federação onde a usina estiver instalada e se ela é verticalizada. Sintomaticamente, a escala e a tecnologia da planta em si foram os últimos fatores listados pelo entrevistado.

Logística

No que diz respeito à logística, duas das usinas da PBio – a de Quixadá (CE) e a de Montes Claros (MG) – estão mal colocadas. “As plantas de Quixadá e de Montes Claros tem um inconveniente sério de que elas não estão no corredor de exportação de soja. (...) Isso faz com e a matéria-prima custe mais para elas do que para outras usinas e é uma das razões dos prejuízos consistentes”, diz Parente. Não quer dizer que ele acredite que essas duas plantas estejam, necessariamente, fora do jogo. “Temos que entender se esses prejuízos são realmente estruturais ou se tem outra origem. Na Ecodiesel, por exemplo, as usinas tinham resultado positivo, mas os lucros acabam consumidos porque tínhamos uma estrutura corporativa muito grande”, analisa especulando se coisa parecida não estaria acontecendo com a PBio pelo fato dela tentar transplantar um modelo de gestão do setor de petróleo caro demais para o setor de biocombustíveis, analisa.

Outro fator que pode estar inflando as perdas, na opinião de Parente, são compromissos assumidos para fomentar a agricultura familiar. “Quem vier a adquirir essas unidades não teria esses compromissos”, completa. Mesmo assim, Parente se diz “cético” sobre as possibilidades dessas duas usinas atraírem interessados. “O risco é elas terminem sem condições de operarem e sem atrair o interesse de um comprador”, arrisca.

Benvenho destaca que uma das coisas que vinham atrapalhando a vida das usinas era o controle de preços que a Petrobras vinha exercendo no mercado de derivados para segurar a inflação. Com as dificuldades da petroleira, essa política vem sendo descontinuada.

A coisa muda de figura para a usina de Candeias (BA) que, na leitura de Expedito Parente, está melhor posicionada na cadeia recebimento de oleaginosa e está relativamente próxima da esmagadora Bioóleo na qual a PBio tem participação de 50%. Isso a deixa bem mais perto de um modelo de negócios verticalizado. Ela seria o filet mignon de uma eventual venda de ativos da PBio.

No fim, a conta vai depender muito de como o setor estiver. “Tudo vai depender do setor. Se o setor estiver aquecido é o vendedor que dita o preço, se estiver recessivo é o comprador”, finaliza Benvenho.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com

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