BTG projeta R$ 419 milhões em lucro bruto com etanol de milho e coprodutos em 2027, favorecidos pelo grão mais barato em Mato Grosso
O milho produzido em Mato Grosso pode se tornar um dos principais motores de crescimento da 3tentos nos próximos anos. Depois de iniciar a operação de sua usina de etanol no segundo trimestre de 2026, a companhia deve ampliar a contribuição do biocombustível para seus resultados, aproveitando a oferta regional de grãos e os preços mais baixos durante a colheita.
A operação de etanol de milho deve gerar R$ 419 milhões em lucro bruto em 2027, incluindo a contribuição dos coprodutos, segundo relatório do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da Exame) divulgado nesta quarta-feira, 28.
Para 2026, o banco projeta receita total de R$ 19 bilhões e lucro líquido de R$ 706 milhões para a 3tentos. Em 2027, os valores devem alcançar R$ 22,5 bilhões e R$ 962 milhões, respectivamente.
A expansão ocorre em um momento de margens pressionadas no processamento de soja, atividade que também integra os negócios da companhia. Segundo a Cogo Inteligência em Agronegócio, as margens para a soja devem ser as piores dos últimos vinte anos na safra 2026/27.
Uma combinação de fatores de cinco anos para cá levou a esse contexto, como a queda no preço das commodities e a alta na produção, enquanto os produtores fizeram grandes investimentos – mas o principal é o aumento dos custos, especialmente dos fertilizantes.
Como o Brasil importa cerca de 85% desses insumos, a valorização média do dólar nos últimos anos ampliou essa pressão.
Apesar das dificuldades recentes, o banco considera que os fatores de crescimento de longo prazo permanecem preservados.
“Embora a rentabilidade industrial continue pressionada, os fatores estruturais de crescimento da companhia permanecem praticamente inalterados”, afirmam os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla.
É nesse cenário que o etanol de milho ganha importância. Para o terceiro trimestre de deste ano, o banco estima que a nova operação contribua com R$ 87 milhões de lucro bruto. No ano seguinte, a projeção considera o processamento de 930 mil toneladas de milho, com utilização média de 95% da capacidade instalada ao longo de 350 dias de operação.
O resultado esperado equivale a R$ 1,02 de lucro bruto por litro de etanol produzido, considerando também as receitas dos coprodutos.
Uma das principais vantagens da operação está no custo de aquisição da matéria-prima. Segundo o BTG, o milho comercializado em Querência, em Mato Grosso, apresentou preço médio aproximadamente R$ 175 por tonelada inferior às referências da Bolsa de Chicago (CBOT) nos últimos três anos.
A diferença aumenta durante a colheita da segunda safra, quando a maior disponibilidade de grãos e as limitações da infraestrutura logística regional pressionam os preços locais. Com isso, nos meses de junho e julho, o desconto médio chegou a R$ 230 por tonelada no período analisado pelo banco.
A dinâmica favorece empresas que conseguem comprar e armazenar milho durante os meses de maior oferta. No caso da 3tentos, a estrutura de armazenagem e a rede de originação de grãos são apontadas pelo BTG como vantagens para aproveitar essas oportunidades.
“Dada a infraestrutura de armazenagem e a rede estabelecida de originação de grãos da 3tentos, a companhia parece bem posicionada para aproveitar esses descontos sazonais”, dizem os analistas.
O banco considera que suas projeções para o etanol ainda podem ser superadas, especialmente se a companhia conseguir adquirir matéria-prima a preços inferiores aos considerados no modelo financeiro.
A comercialização do combustível também entra nessa conta. Segundo o relatório, os preços do etanol nas regiões Norte e Nordeste costumam ficar acima das referências de São Paulo, em razão das diferenças regionais entre oferta, demanda e custos logísticos.
Nas estimativas do BTG, a 3tentos venderá parte da produção em mercados próximos à usina e enviará outra parcela para São Paulo, principal mercado consumidor do país. Uma participação maior das vendas em destinos próximos poderia elevar os preços efetivamente recebidos pela companhia em relação aos valores projetados pelo banco.
Margem da soja
O avanço do etanol ocorre enquanto a indústria de processamento de soja enfrenta um período de menor rentabilidade.
No segundo trimestre de 2026, a 3tentos registrou lucro bruto industrial ajustado de R$ 297 por tonelada, com margem bruta de 12,2%. O resultado foi pressionado pelas margens mais fracas do farelo de soja e do biodiesel, pelo aumento dos custos dos insumos e por ajustes em contratos anteriores de farelo e óleo de soja.
Desconsiderando os efeitos classificados como temporários, o BTG estima que o lucro bruto industrial tenha ficado próximo de R$ 320 por tonelada, patamar que também projeta para o terceiro trimestre.
Apesar da pressão recente, o banco avalia que as condições de rentabilidade da indústria começam a apresentar sinais de recuperação, impulsionadas pela melhora dos preços do farelo de soja e do biodiesel. “Acreditamos que o pior da compressão das margens pode ter ficado para trás”, afirmam os analistas do banco.
O relatório também aponta que o adiamento da elevação da mistura obrigatória de biodiesel no diesel para 16%, conhecida como B16, contribuiu para o excesso de capacidade produtiva e para a redução das margens do setor em 2026.
Uma eventual passagem direta da mistura atual de 15% para 17% em 2027, possibilidade considerada por alguns participantes do mercado, poderia favorecer a utilização das usinas e a rentabilidade industrial. A mudança, porém, depende de aprovação regulatória – e do governo.
César H. S. Rezende