BiodieselBR.com analisa a dinâmica de formação de preços nas ofertas das usinas do GO, MT e RS nos últimos 10 leilões de biodiesel
O biodiesel produzido pelas usinas está barato. O preço menor que o do diesel é um argumento a mais para o país ampliar seu uso. Mas para conseguir ganhar do diesel de petróleo, o setor teve que aprender algumas lições. Para entender melhor como o setor chegou a esse ponto, BiodieselBR.com analisou as ofertas das usinas dos estados de Goiás, Mato Grosso e Rio Grande do Sul nos últimos 10 leilões.
O biodiesel produzido pelas usinas está barato. O preço menor que o do diesel é um argumento a mais para o país ampliar seu uso. Mas para conseguir ganhar do diesel de petróleo, o setor teve que aprender algumas lições.
Hoje, as usinas buscam matérias-primas alternativas de menor custo com muito mais intensidade que faziam no começo do programa. E o uso dessas matérias-primas só é possível porque o processo industrial também foi aprimorado. Há um grande conhecimento que foi sendo acumulado ao longo da última década.
As mudanças nos leilões de biodiesel também influenciaram na redução de preço do biodiesel. Quando os leilões eram presenciais, as margens eram muito maiores. A migração para um formato eletrônico que uniu a venda do produto pelas usinas com a compra pelas distribuidoras, deu uma nova dinâmica à formação de preços.
Mas o preço não chegaria em patamares tão baixos se a oferta não estivesse bem acima da demanda. Desde a chegada do B10, a ocupação do setor tem ficado acima de 70%, quando considerado apenas as empresas que se habilitam para os leilões. Essa relação entre oferta e demanda coloca as usinas em uma competição que faz com que o preço do biodiesel seja ofertado nos leilões por um valor que alguns agentes do setor têm reclamado estar abaixo do custo.
Saudável para as usinas ou não, quanto menor o preço do biodiesel, melhor para o consumidor. Por isso fizemos uma análise das ofertas de biodiesel dos três maiores estados produtores do Brasil: Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Goiás.
Como foi feito
Para saber quais usinas estão colocando a pressão extra que faz o biodiesel ficar mais barato para o consumidor, analisamos as ofertas iniciais de cada uma das usinas com Selo Combustível Social de cada um dos estados nos últimos 10 leilões.
Foi calculado o preço médio ponderado com o volume de cada oferta 1, 2 e 3 de cada um dos leilões. De posse deste preço médio estadual, foi possível ver quais usinas apresentaram suas ofertas abaixo e quais ficaram acima da média.
Mato Grosso
As ofertas das usinas do Mato Grosso nos últimos 10 leilões representaram 20,5% do total ofertado e 21,2% do total comprado pelas distribuidoras.
Nesse período, 10 usinas participaram dos certames, mas não de todos eles. A ADM de Rondonópolis, Bio Óleo, Biocamp, Caibiense, Cofco, e Fiagril participaram de todos os certames. Biopar, Bunge e Caramuru de Sorriso participaram de 9 leilões com Selo Social. E a Biovida participou de 4 leilões.

A empresa com o maior número de ofertas abaixo da média foi a Biocamp. Sua oferta 1 ficou abaixo da média em 8 dos 10 leilões que participou; a oferta 2 e 3 em 9 de 10 leilões.
Nos 10 leilões, na média, suas ofertas 1 ficaram 2,11% abaixo do preço médio, a oferta 2 ficaram 3,9% abaixo da média e a oferta 3 ficou 4,73% abaixo.
Importante destacar que muitas usinas colocam um preço na oferta 3 bem acima dos valores das outras duas ofertas, o que faz com que a média de preço desta oferta em particular seja mais elevada que os das outras duas.
A segunda empresa com maior número de ofertas abaixo do preço médio é a Cofco. Sua oferta 1 ficou abaixo da média de preços em 7 dos 10 leilões, com um valor 1,58% menor. A oferta 2 ficou abaixo em 9 dos 10 leilões com um preço 2,6% menor. E a oferta 3 foi menor em 8 dos 10 leilões, com um valor 4,49% que média de ofertas.



Goiás
O número de fabricantes de biodiesel em Goiás é o menor dentre os três maiores estados produtores, são apenas 6 – contra 10 do Mato Grosso e 9 do Rio Grande do Sul.
A capacidade de ofertas dessas usinas correspondeu, nos últimos 10 leilões, a 14,8% da capacidade ofertada e as vendas ficaram em 14,2% do volume. Das usinas goianas, apenas a Minerva não participou de todos os leilões ficando de fora de uma disputa.

Dentre os ofertantes, a Binatural se destaca como a empresa que mais ofertou abaixo do preço médio. Suas ofertas 1 ficaram abaixo do preço médio em 80% das vezes. Nenhuma das outras quatro usinas ficou perto dessa marca.
Em sua oferta 2 a Binatural ofertou abaixo do preço médio em todas as ocasiões. Nessa oferta, as demais usinas tiveram se dividira: metade ofertou abaixo do preço médio, metade acima. A única exceção foi a Granol de Anápolis, que ofertou abaixo em apenas 20% das vezes.
Na oferta 3 de Goiás, acontece algo interessante. A Granol sempre coloca um volume grande por um preço bem mais alto que as demais usinas o que faz com que as outras usinas fiquem, quase sempre, com sua oferta 3 abaixo do preço médio.
Algo parecido acontece na oferta 2, mas com uma diferença menor no preço.



Rio Grande do Sul
Estado líder na produção, oferta e venda de biodiesel no Brasil. Isso torna também o estado com a maior disputa interna. O Rio Grande do Sul foi responsável por 27,9% do biodiesel ofertado nos últimos 10 leilões e vendeu 27% do volume total. Das 9 usinas em funcionamento no estado, apenas a Granol de Cachoeira do Sul e a Camera não participaram de todas as disputas com Selo.
Foram 8 participações da usina gaúcha da Granol e 3 da Camera.

A disputa por quem constantemente coloca o preço mais baixo no Rio Grande do Sul é mais acirrada. Mas a Olfar consegue uma certa vantagem. Ela só ficou acima da média uma vez na oferta 1 e uma na oferta 2. E nunca teve um preço acima da média na oferta 3. É a única usina do estado com esse feito.
A Biofuga tem a segunda posição com 80% das vezes ofertando abaixo do preço na oferta 1; 90% das vezes na oferta 2 e na oferta 3, em 7 das 8 vezes que colocou essa última oferta.
Já a terceira posição depende do critério. A 3Tentos tem uma melhor performance na oferta 2 que a Oleoplan, mas perde na oferta 3. Contudo a oferta 3 da 3Tentos não é colocada para vender. O preço é sempre tão alto que ela só seria vendida se praticamente não houvesse mais biodiesel para ser comprado.
Assim, das ofertas que ela quer vender, o preço fica mais baixo que a Oleoplan. Já se considerarmos todo o volume ofertado, a Oleoplan é mais agressiva.



Preços e futuro
Se do lado do consumidor quanto menor o preço melhor, do lado da usina acontece o oposto. Muitas delas têm reclamado das margens apertadas deste ano chegando a questionar a viabilidade do negócio. Mas essa é uma situação que vem se repetindo desde o começo do programa de biodiesel brasileiro e que deve continuar acontecendo no horizonte visível.
As margens normalmente sobem nos leilões onde há um aumento de mistura, ou quando a demanda real supera a demanda esperada. Em leilões normais, as margens serão sempre mais apertadas.
A previsão de novos aumentos de mistura trouxe um aumento considerável na capacidade de oferta de biodiesel. No L58 a capacidade de oferta foi de 1,176 bilhão de litros. Para o L68 será de 1,375 bilhão de litros – se anualizado temos um crescimento real de quase 1,2 bilhão de litros na oferta. O crescimento da demanda com B11 seria de “apenas” 600 milhões de litros em um ano.
Esse incremento que já tivemos seria é suficiente para atender a demanda extra do B12 sendo que, quando o B12 entrar em vigor, novos investimentos em capacidade produtiva já terão sido feitos.
Assim, mesmo com o aumento no uso de biodiesel previsto para os próximos anos, o preço do biodiesel não deverá apresentar uma trajetória de alta sustentada. O que se pode projetar são altas moderadas concentradas na sequência do aumento, seguidas de períodos mais longos nos quais as margens vão diminuindo gradualmente.
A disputa entre as usinas, causada pelo formato do leilão, é que serão as responsáveis por isso.
Miguel Angelo Vedana – BiodieselBR.com