Distribuidoras receiam mais problemas por conta do aumento de mistura
O aumento da mistura terá impactos significativos sobre a distribuição e varejo de combustíveis. Conheça um pouco mais das opiniões desses elos da cadeia.
BiodieselBR.com ··6 min de leitura
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Durante o tempo em que perdurou o impasse sobre o aumento de mistura, produtores e distribuidoras quase sempre se colocaram em cantos opostos – enquanto os primeiros, evidentemente, queriam novos aumentos, os segundos já se mostravam mais arredios sempre apontando os problemas em potencial.
Agora que uma maior adição de biodiesel ao diesel já pode ser considerada fato consumado, o setor de distribuição adotou um discurso mais simpático em relação ao aumento.
Durante o tempo em que perdurou o impasse sobre o aumento de mistura, produtores e distribuidoras quase sempre se colocaram em cantos opostos – enquanto os primeiros, evidentemente, queriam novos aumentos, os segundos já se mostravam mais arredios sempre apontando os problemas em potencial. Agora que uma maior adição de biodiesel ao diesel já pode ser considerada fato consumado, o setor de distribuição adotou um discurso mais simpático em relação ao aumento.
Uma das principais preocupações das distribuidoras está relacionada ao incremento da demanda por transporte rodoviário. “Isso pode gerar, sim, certo estresse na cadeia em determinados momentos do ano, quando a demanda por esse tipo de transporte está aquecida”, avalia Ricardo Gullo Chernicharo, supervisor de trading da Alesat.
O presidente do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), Alísio Vaz, tranquiliza, alegando que o aumento de mistura é “compatível com as possibilidades do sistema de distribuição” e que as distribuidoras já vinham se preparando para enfrentar as demandas. “Apesar da maior pressão sobre a logística, não deverão ocorrer maiores disfunções”, assegura.
Insegurança Contudo, a adequação não se restringe a ter mais caminhões para transportar o biocombustível. Implica também em ter a capacidade de armazenagem e tancagem ampliadas e sistemas injetores ajustados para atender ao novo padrão. E, em relação a essas exigências, as distribuidoras já não se mostram tão seguras de si.
“O setor não está preparado para este aumento de mistura”, diz, taxativa, Elaine Martins, supervisora comercial da Dislub Equador.
Ao mensurar os possíveis impactos do aumento da mistura para a distribuição, o presidente do Sindicom diz que sistemas injetores que operam no limite de sua precisão – ou seja, foram dimensionados para atender uma mistura de até 5% de biodiesel ao diesel – “ficam mais sujeitos a desvios”.
Chernicharo, da Alesat, cogita a possibilidade de alguns terminais da empresa enfrentarem contratempos em relação à armazenagem do biodiesel. “Estamos fazendo o nosso dever de casa desde o final do ano passado, nos preparando para esses aumentos. Mas, em alguns terminais, ainda não foi possível elevarmos os espaços para movimentação do B100 e, com certeza, o desafio será maior com o B7”, prevê o supervisor.
Um executivo de uma importante distribuidora pontua ainda a questão do teor de água. O fato do setor de distribuição estar tendo dificuldades para manter o biodiesel com os 200 ppm até a adição com o diesel é uma das principais razões para a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) ter aberto um processo de consulta pública para rever a especificação para esse quesito.
“Hoje já possuímos problemas de qualidade, principalmente em relação ao teor de água no produto. Caso a mistura aumente para B6, o problema aumentaria na mesma proporção”, diz a fonte, que pediu para não ser identificada.
Para Wellington Maia, analista de Abastecimento e Distribuição da Terrana Distribuidora, o cronograma de aumentos estabelecido em medida provisória –B6 a partir de 01 de julho e B7 a partir de 01 de novembro – concede ao setor de distribuição tempo para adequações. “Poucas vezes, a cautela foi tão bem-vinda, pois, como o aumento vai ser gradual, os distribuidores terão um prazo maior para se preparar”, analisa.
Ponta final Assim como as distribuidoras, os postos também dizem reconhecer a importância do aumento de mistura. Contudo, a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis) mantém sua crítica – já bem conhecido – sobre os possíveis riscos de que os novos aumentos da mistura possam vir acompanhados de uma piora nos índices de não conformidade o que poderia ter efeitos negativos para os postos.
“A revenda de combustíveis mantém cautela em relação às características do biodiesel, que causa a formação de borras nos tanques e filtros, gerando não conformidade do produto e autuações pela ANP”, afirma Paulo Miranda Soares, presidente da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis).
No posicionamento encaminhado à BiodieselBR.com, por meio de sua assessoria de imprensa, Miranda menciona as implicações jurídicas a que estão sujeitos os postos em função de eventuais problemas gerados em veículos de consumidores por conta do uso de biodiesel e argumenta que “da parte dos postos, os cuidados são tomados para evitar a formação de borras, com a limpeza dos tanques e manutenção frequentes”.
Preço Ao contrário de alguns produtores que acreditam que o aumento da mistura obrigatória não elevará os preços do biodiesel negociado nos leilões, as fontes do setor de distribuição ouvidas por essa reportagem são unânimes ao afirmar que haverá, sim, um incremento. “Não temos uma avaliação precisa sobre impacto nos preços, mas acreditamos ser possível uma elevação, uma vez que será aumentada a demanda em mais de 40%”, opina o presidente do Sindicom.
Rogério Cardoso, da Ruff Distribuidora, não só aposta em preços do biodiesel mais inflacionados nos certames como acredita que haverá repasse ao consumidor final. “Infelizmente, com o aumento da demanda gerada pela mudança da regra, o mais provável é que o preço ofertado seja maior, encarecendo também o custo final do produto comercializado”, diz.
Frases “Em se tratando de energia, não se pode alterar profundamente um insumo da cadeia de suprimentos sem a avaliação de todos os parâmetros envolvidos e o estabelecimento de metas claras, que permitam a estruturação e a capacitação de todos os stakeholders.” Alisio Vaz, presidente do Sindicom, justificando a preocupação das distribuidoras quanto aos impactos provocados pelo aumento de mistura
“[O aumento] era uma necessidade para o setor produtivo, que ficou com uma capacidade de produção ociosa nos últimos anos diante da entrada de produtores de grande porte, em um mercado que praticamente não teve aumento de demanda para acompanhar a oferta disponível.” Ricardo Gullo Chernicharo, da Alesat
“Vejo a medida de forma muito positiva, pois serve como incentivo ao setor de biodiesel. Acredito que com o aumento da participação do biodiesel no mercado de combustíveis vamos ter novos ‘players’ interessados na produção gerando mais ofertas e nos possibilitando mais oportunidades.” Wellington Maia, da Terrana
“[O aumento] faz parte da estratégia do governo desde o inicio do programa de biodiesel, sendo assim, não é considerado uma surpresa. (...) A visão que temos é que todos os ‘players’ estão preparados para atender as exigências impostas pelas regras governamentais.” Rogério Cardoso, da Ruff
“Minha opinião é que não seria o momento deste aumento. O mercado não está preparado para esse aumento.” Elaine Marins, da Dislub Equador
A Fecombustíveis tem ciência da relevância do aumento do teor do biodiesel no diesel para o país, porém a revenda mantém cautela em relação às características do biodiesel.” Paulo Miranda Soares, presidente da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis).