EUA

Alguns dos maiores vencedores iniciais dos esforços do governo Trump para exercer mais controle sobre a indústria de energia da Venezuela não são as empresas que produzem petróleo, mas aquelas que o transformam em gasolina, diesel e outros produtos.

Empresas de refino dos Estados Unidos como Valero Energy e Marathon Petroleum estão bem posicionadas para lucrar se mais petróleo venezuelano começar a fluir para os EUA. Isso porque essas companhias adaptaram suas instalações décadas atrás tendo em mente o petróleo daquele país.

Assim como existem diferentes tipos de maçãs, nem todo petróleo é igual. O principal tipo de petróleo bruto da Venezuela é especialmente difícil de processar — viscoso e semelhante a piche — e, por essa razão, em geral é mais barato do que as variedades encontradas no subsolo americano. Isso o torna atraente para refinarias, como as da região da Costa do Golfo dos EUA, que dispõem de equipamentos para processá-lo.

E, diferentemente de produtoras de petróleo como Exxon Mobil ou ConocoPhillips, que precisam avaliar se os riscos de operar na Venezuela compensam, essas refinarias têm pouco a perder, porque não precisam assumir compromissos de longo prazo nem enviar funcionários ao país.

Os investidores perceberam isso. As ações da PBF Energy, uma empresa de refino de porte médio, subiram 15% desde que forças dos EUA capturaram Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, superando o mercado mais amplo por ampla margem. Valero e Marathon, que são muito maiores, viram seus papéis avançarem cerca de 10% e 6%.

“Ter mais petróleo bruto venezuelano disponível é só vantagem para as refinarias dos EUA”, disse Rick Weyen, um executivo aposentado que costumava coordenar o envio de petróleo para uma refinaria no Texas.

Esse impulso ampliaria uma fase já lucrativa para as refinarias. Essas empresas tendem a se beneficiar de preços mais baixos do petróleo, desde que ainda haja demanda saudável pelos produtos que fabricam. Elas também ganharam muito dinheiro durante e logo após a pandemia de covid-19, à medida que a demanda por combustíveis se recuperou.

Ainda é cedo para dizer exatamente como os fluxos de petróleo vão mudar após a derrubada de Maduro. Mas, se o passado servir de guia, os Estados Unidos em breve importarão mais petróleo da Venezuela.

Em 2018, antes de o presidente Donald Trump impor algumas de suas sanções mais abrangentes à Venezuela durante seu primeiro mandato, os Estados Unidos importavam cerca de 506 mil barris de petróleo do país por dia, mostram dados federais. No outono passado, essas importações haviam caído cerca de 75%.

Na semana passada, o governo Trump esboçou um plano pelo qual os Estados Unidos controlariam a indústria petrolífera da Venezuela “por tempo indefinido”, começando com 30 milhões a 50 milhões de barris de petróleo, presumivelmente o que está armazenado no país ou em navios-tanque ancorados ao largo da costa.
O governo venezuelano não confirmou muitos dos detalhes, mas dois gigantes do comércio de commodities, Trafigura e Vitol, já estão ajudando a alinhar compradores para o petróleo.

Grande parte do petróleo armazenado provavelmente fluirá para os Estados Unidos. Além de o petróleo venezuelano ser adequado para refinarias americanas, a Costa do Golfo fica relativamente perto da Venezuela, reduzindo os custos de transporte.

“Estamos mais do que felizes à medida que essa oportunidade se expande para investir ainda mais em nossas refinarias e produzir mais”, disse Lane Riggs, CEO da Valero, na semana passada, durante uma reunião entre executivos do setor de petróleo e Trump na Casa Branca.

Riggs observou que sua empresa tinha refinarias “configuradas de forma única para processar petróleo venezuelano”.

A Valero, sediada em San Antonio, em geral tem sido uma das maiores compradoras de petróleo venezuelano nos EUA, segundo uma análise de dados federais feita pelo banco de investimentos TD Cowen. A Marathon, de Findlay, Ohio, afirmou que pretende disputar cargas de petróleo venezuelano.

Se mais petróleo barato chegar aos Estados Unidos, os consumidores americanos provavelmente se beneficiarão de combustíveis mais em conta, especialmente diesel e querosene de aviação.

Qualquer queda de preços pode ser modesta, porém, já que a Venezuela produz apenas cerca de 1% do petróleo mundial e um crescimento significativo levaria tempo.

Importar mais petróleo da Venezuela provavelmente prejudicaria produtores de petróleo no Canadá, que vêm fornecendo a maior parte do petróleo pesado usado pelos Estados Unidos.

Mas Doug Terreson, ex-analista de energia que hoje integra o conselho da refinaria Phillips 66, observou que mesmo 30 milhões a 50 milhões de barris não iriam muito longe. Os Estados Unidos refinam cerca de 17 milhões de barris de petróleo por dia.

“É uma quantidade relevante de petróleo? Não atrapalha, mas são dois dias de oferta”, disse Terreson.

No longo prazo, a grande questão para as refinarias dos EUA — e para a própria Venezuela — é se o país consegue aumentar de forma significativa sua produção de petróleo. E, em caso afirmativo, em que medida.

Outro fator é a preocupação com as mudanças climáticas. Trump rejeitou repetidamente a ciência por trás do aquecimento global, mas um governo futuro talvez não o faça.

Produzir e transportar o petróleo pesado da Venezuela gera muito mais emissões de gases de efeito estufa, tornando-o menos atraente para empresas e governos que desejam desacelerar as mudanças climáticas.

Rebecca F. Elliott – The New York Time

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