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[CBBR 2017] O biodiesel no mundo

Mudanças nos humores políticos colocam novos desafios no caminho da expansão global da indústria do biodiesel.
BiodieselBR.com 5 min de leitura
O mundo ficou mais complicado para os biocombustíveis. Se, até poucos anos atrás, eles eram celebrados como uma alternativa para a substituição dos combustíveis fósseis e a descarbonização da economia, agora eles já não gozam de uma imagem tão benevolente. Com o avanço da eletrificação, vários países já falam abertamente em aposentar o motor a combustão de uma vez por todas. Em meio à essa incerteza fundamental, mercados chave parecem prontos para se entrincheirarem atrás de barreiras comerciais.
O mundo ficou mais complicado para os biocombustíveis. Se, até poucos anos atrás, eles eram celebrados como uma alternativa para a substituição dos combustíveis fósseis e a descarbonização da economia, agora eles já não gozam de uma imagem tão benevolente. Com o avanço da eletrificação, vários países já falam abertamente em aposentar o motor a combustão de uma vez por todas. Em meio à essa incerteza fundamental, mercados chave parecem prontos para se entrincheirarem atrás de barreiras comerciais.

Tentar jogar um pouco de luz sobre essas mudanças foi uma das missões do Painel 03 da Conferência BiodieselBR 2017 que aconteceu em outubro na cidade de Guarulhos (SP). As palestras foram ministradas pelo presidente da Evonik Metilatos, Florian Lode, e pelo diretor executivo da Câmara de Pequenas e Médias Empresas Regionais Fabricantes de Biocombustíveis (Cepreb) da Argentina, Francisco Jáuregui.

Como executivo num dos maiores fornecedores de catalizadores para as usinas em nível global com presença nos quatro maiores mercados – União Europeia, Estados Unidos, Brasil e Argentina – em nível global, Florian, vem acompanhando o desenvolvimento do biodiesel a partir de uma posição estratégica. Para ele, o feito mais impressionante da indústria foi a velocidade com que ela se desenvolveu. “A América Latina, por exemplo, saiu de zero para um consumo de cerca de 5 milhões de toneladas anuais e apenas uma década. E tem mais para vir por aí”, elogia ressaltando o potencial dos avanços na mistura obrigatória no Brasil para fazer a demanda regional deslanchar.

Terceiro maior produtor mundial – atrás dos Estados Unidos e Brasil – a Argentina incorpora como nenhum outro país as agruras do mercado de biodiesel alternando anos muito bons com outros de crise aguda. Guinadas que têm sido determinadas pelas condições do mercado externo. “O mercado internacional vem sendo marcado por disputas comerciais e impactos da variação do preço do petróleo”, avalia Francisco Jáuregui, relatando que a indústria argentina.

Contra a corrente

Contudo, ele ressalta que, em outros mercados, a situação não é mais tão favorável. “Nos Estados Unidos as coisas andam bastante confusas”, alerta. Durante os anos Obama, a indústria norte-americana vivenciou seus melhores anos graças à adoção de volumes obrigatórios crescentes. Recentemente, no entanto, o setor tomou um susto quando a Agência de Proteção Ambiental (EPA) passou a sinalizar que pode vir a reduzir as metas.

Já na Europa, o escândalo em torno do chamado dieselgate – a descoberta que diversas montadoras adotavam medidas para fraudar os testes de emissões de seus carros diesel – está precipitando mudanças que já se anunciavam no horizonte. “Vários países estão dando sinais no sentido de proibir a venda de veículos de combustão interna, eles querem caminhar para a eletrificação do parque de transportes”, prossegue o executivo da Evonik. O escândalo vem contribuindo para fazer minguar o apoio político aos biocombustíveis na União Europeia que estuda limitar o espaço reservado aos combustíveis renováveis na revisão da Diretiva de Energias Renováveis (RED 2). “Essas são notícias ruins se você estiver interessado no mercado de biodiesel da Europa e já indicam que não devemos ver nenhum grande salto no consumo por lá”, complementa.

Fechamento

Em ambos esses mercados – UE e EUA – a Argentina sofreu reveses comerciais importantes. Em 2013 ela foi praticamente banida do mercado europeu depois da imposição de tarifas antidumping pela Comissão Europeia. Há poucas semanas, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos fez exatamente o mesmo.

Os dados ainda estão rolando. O fechamento do mercado norte-americano ainda não é definitivo e – graças a uma decisão da OMC – o mercado europeu pode voltar a se abrir às exportações. Mesmo assim, já aparecem reflexos na produção argentina.

Mercado interno

Embora esses tenham sido golpes de peso na indústria de biodiesel da Argentina, Francisco ressalta que os feitos foram relativamente limitados. Segundo ele, em seu país a produção está dividida em dois: as grandes usinas integradas que vivem da exportação enquanto as usinas pequenas e médias (P&M) são responsáveis pelo abastecimento do mercado interno. “O mercado interno tem se mostrado muito mais estável [do que o externo]”, diz com certo alívio acrescentando que as 26 usinas P&M operam dentro de um mercado muito regulado no qual têm demanda e preço garantidos.

“Dessa forma não temos demanda ociosa e nossos custos são cobertos com uma margem de rentabilidade”, explica. Como a demanda interna tem superado a capacidade de oferta das P&M usinas o que garante até mesmo uma pequena margem para que as plantas de maior porte numa convivência que o diretor do Cepreb descreve como “pacífica”. E não há sinais de reversão de curso. “O governo Macri tem se saído bem em termos de segurança jurídica. Estamos seguros de que a lei atual não será mudada”.

Para Florian, a situação volátil no mercado internacional mostra que o Brasil acertou ao adotar um modelo mais focado no mercado interno. “Isso garante autonomia para adotar políticas que permitem o crescimento da indústria”, encerra.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
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