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[BiodieselBR 2013] As “novas” tecnologias para o setor

BiodieselBR2013 MarceloCantale_071113As novas tecnologias para o setor de biodiesel foram o tema da palestra de Marcelo Cantele, fundador da Transfertech, na Conferência BiodieselBR.
BiodieselBR.com 7 min de leitura
As novas tecnologias para o setor de biodiesel foram o tema da palestra de Marcelo Cantele, fundador da Transfertech, na Conferência BiodieselBR.

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“As tecnologias para o mercado de biodiesel nem são tão novas assim, porque estão no mercado há bastante tempo. O que quero é dar uma noção diferente sobre elas”, disparou Marcelo Cantele, em tom de brincadeira, durante a apresentação que realizou no primeiro dia da Conferência BiodieselBR 2013. Além de sócio na fabricante de equipamentos industriais Intecnial, Cantele é o fundador da Transfertech, empresa criada justamente para servir como uma espécie de celeiro de inovações voltadas a diversos setores industriais, entre os quais, o de biodiesel.

Respondendo a uma provocação feita pouco antes por Erasmo Battistella, o empresário ressaltou que ele acha que ainda há espaço para novos investidores interessados na atividade de produção de biodiesel. “Sempre tem espaço para mais um”, provocou lembrando que algumas áreas do território brasileiro, como a Região Norte, ainda não foram adequadamente exploradas pelos fabricantes. “A cadeia toda vai precisar se rearranjar”, acredita.

Falando sobre o trabalho desenvolvido à frente da Transfertech, Cantele recordou que ela surgiu como um “filhote” da Intecnial. “Lá por 2006 e 2007, tivemos uma transformação da empresa. Como a área de pesquisa é uma coisa que muita gente não gosta, resolvemos segregá-la para transformá-la numa empresa”, explicou. O resultado é uma empresa de gestão de inovação que desenvolve pesquisa, engenharia e investimentos. O golpe pode ter sido certeiro. “Muitas das coisas que vemos hoje acontecendo como tendência de mercado começamos a estudar no começo dos anos 2000”, disse animado.

O palestrante conta que a ideia de trabalhar com inovações tecnológicas surgiu ainda nos primeiros tempos do programa de biodiesel, quando a Intecnial ainda tateava um pouco na tentativa de compreender adequadamente esse novo negócio. “Lá atrás começamos a se perguntar qual seria o próximo passo. A melhor resposta era que seria o enzimático e, portanto, precisaria desenvolver as enzimas. Até chegamos a tentar desenvolver uma enzima 100% nossa”, contou. Embora essa primeira tentativa não tenha dado assim tão certo, Cantele diz que “ficou o cacoete de não se contentar com o mercado, mas forçar a ruptura”.

A área de biotecnologia abriga muitas dessas “coisas que estão acontecendo”, com promessas de um futuro onde versões hi-tech enzimas, fungos, bactérias irão formar os fundamentos de um novo setor industrial emergente. “Acreditamos que tem uma revolução iminente que já está acontecendo outras indústrias e o setor de biodiesel, eu acho, está perto”, vaticinou.

Fronteira tecnológica
Atualmente a Transfertech vem apostando em diversos processos tecnológicos que poderão ter um impacto profundo na forma como a indústria de biodiesel opera. “Nossas patentes e pesquisas estão relacionadas a cinco áreas: processos enzimáticos, fluídos pressurizados, ultrassom, fluídos supercríticos e separação por membranas. São algumas áreas de fronteira onde percebemos que as oportunidades de negócios vão chegar”, assegurou.

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Segundo ele, uma das apostas que hoje estão quase rendendo os primeiros dividendos é na área de processos enzimáticos. “Pelo fato de que já estarmos trabalhando com isso há bastante tempo, conseguimos pular na frente e já temos várias patentes na área”, afirmou. Ainda que aquela primeira experiência não tenha resultado numa enzima viável, o palestrante revelou que a equipe da Transfertech aprendeu algo quase tão interessante quanto: como fazer as enzimas renderem mais. “Patenteamos um sistema com o qual consigo reduzir em até 100% o uso delas [as enzimas]. Considerando que hoje a maior barreira é o alto custo da enzima, conseguimos dar uma viabilidade para o processo”, evidenciou.

Custos
Cantele considera que o paradigma atual do mercado brasileiro parece apontar muito mais para uma acomodação do mercado que para uma corrida de investimentos tecnológicos. “O grande driver para fazer esses investimentos seria a redução dos custos. Vemos que existem limitações nesse sentido e o principal fator para a redução dos custos é a matéria-prima”, elaborou.

Ele apontou que, cada vez mais, a diferença entre o custo das matérias-primas e do biodiesel acabado está menor e isso cria incentivos para que as usinas busquem aumentar a verticalização e procurem óleos mais baratos. Não se trata de tentar reinventar a roda ou, no caso da indústria do biodiesel, tentar substituir o óleo de soja. Cantele é o primeiro a reconhecer que essa matéria-prima é imprescindível para a indústria e vai manter seu status ainda por muito tempo. Mas acredita que há espaço para a introdução de tecnologias acessórias que poderão trabalhar junto com os processos produtivos mais convencionais.

Ele olha principalmente para as matérias-primas que, de tão minoritárias, acabam relegadas à vala de “outros materiais graxos” nas estatísticas da ANP e que, este ano, responderam por 5,6% do mercado. “Na minha visão particular, a tecnologia tem que aumentar o uso de matérias-primas não convencionais. Não que isso vá arranhar muito o mix de matérias-primas atuais, mas acho que temos espaço para aumentar isso”, considera.

“Quando falamos de resíduos como, por exemplo, o óleo de fritura usado, ele não está tão longe do mercado consumidor. Isso me permitiria apostar em outros paradigmas com plantas menores e tecnologias diferentes”, observou.

Segundo ele, o principal potencial da tecnologia de enzimas seria o aproveitamento de matérias-primas altamente ácidas. “Sabemos que essas matérias-primas ácidas estão disponíveis no mercado a um custo razoável, mas tem um empecilho de usá-las. Estamos fazendo uma grande aposta nessa rota”, adiantou.

Outra vantagem do processo é que a qualidade da glicerina já sai com 97% de glicerol, que é um grau técnico. “A sustentação desse modelo se dá justamente no valor da glicerina”, observou.

Tecnologias
Segundo o palestrante, a troca dos catalisadores químicos pelos enzimáticos é a ruptura mais iminente e já está ao alcance a médio prazo. Ele conta que já há enzimas que poderiam viabilizar o processo às portas do mercado. A dinamarquesa Novozymes, por exemplo, recentemente apresentou uma nova enzima a algumas empresas parceiras que estão trabalhando no aprimoramento de processos industriais baseados nessa novidade. “A Novozymes entra como fornecedora de enzimas, e não com o processo industrial. Isso é o que estamos desenvolvendo nesse momento”, contou.

A segunda tecnologia de ruptura em estudo é a produção de biodiesel pelo processo supercrítico, que usa temperaturas e pressões elevadas para promover a quebra das moléculas dos óleos e gorduras gerando, assim, biodiesel. Esse segundo processo permitiria, inclusive, o uso de tipos de matérias-primas diferentes dos óleos e gorduras. A fabricante de papel e celulose Fibria já tem projetos que preveem o uso de uma rota tecnológica similar para produzir biocombustíveis a partir de madeira.

“Pode parecer loucura nesse ponto, mas isso é algo que está começando a ganhar corpo na Europa, especialmente agora que os europeus estão falando em limitar a produção de biocombustíveis a partir de fontes que competem com usos alimentares”, analisou acrescentando que muita gente está estudando o potencial de usar resíduos urbanos para a fabricação de energia renovável. “Os resíduos urbanos são um material altamente energético que hoje enterramos, mas esses processos estão aí para comprovar que podemos usá-los para produzir combustíveis”, prosseguiu.

O desafio, em ambos os casos, é como sair da escala laboratorial para chegar em processos com capacidade industrial. No caso dos processos enzimáticos, a empresa de Cantele está desenvolvendo protótipos que permitirão fabricar 10 milhões de litros e, com isso, comprovar os resultados que já foram obtidos em bancada. “Esperamos trazer um resultado muito mais consistente quando fizermos esse scale up.”

Essas novas tecnologias poderiam servir na produção de energia de forma descentralizada com a criação de usinas bem menores que as atuais, mas instaladas muito mais perto do mercado consumidor. “Eu não imagino plantas com escalas de 100 ou 200 milhões de litros. Estamos falando aqui, no caso de uma grande planta, em 50 milhões de litros, porque o referencial é de uma matéria-prima muito pulverizada”, finalizou.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
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