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Energia

Agroenergia e geração de empregos


Agência Envolverde - 29 nov 1999 - 22:00 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

"Os biocombustíveis chegaram à sua maioridade", assegura Ignacy Sachs, co-diretor do Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS) da França.

No conferência "Da Civilização do Petróleo a uma Nova Civilização Verde: Biomassa, Nova Matriz Energética e Agricultura Familiar", no final de junho, o ecossocioeconomista (como ele prefere ser identificado) disse que a chegada dos biocombustíveis à vida adulta deve-se a três fatores: elevados preços do petróleo em razão da proximidade do pico da produção mundial nos próximos 10 a 20 anos e uma demanda em contínuo crescimento; dificuldades geopolíticas, com os custos cada vez maiores para os EUA e seus aliados manterem as linhas de abastecimento a partir do Oriente Médio, tornando-se mais vantajoso investir em alternativas do que continuar a administrar essa situação; e razões ambientais, pois "é evidente que o Protocolo de Kyoto ainda será altamente ineficiente para a redução das emissões de gases de efeito estufa, mesmo que seja realizado integralmente".

Esses três fatores fizeram com que Amory Lovins, um eminente especialista norte-americano em questões energéticas, publicasse recentemente o livro "Winning the Oil Endgame" (Vencendo a Partida Final do Petróleo), um relatório co-financiado pelo Pentágono. Sachs explicou que o argumento de Lovins é apoiado essencialmente no desenvolvimento de uma nova geração de automóveis ultraleves, que consumiriam menos da metade dos veículos atuais: "Metade dessa redução estaria relacionada com o menor peso dos automóveis, outros 25% viriam com o programa de biomassa e os 25% restantes a partir de um uso mais eficiente do gás e a utilização de seus excedentes para a produção de hidrogênio".

Outro estudo destacado por Sachs é um relatório publicado em conjunto pelos Departamentos de Agricultura e de Energia dos EUA. O documento diz ser possível para os EUA tornarem-se independentes da importação de petróleo em 25 anos, graças a um gigantesco programa de produção de biocombustíveis, que envolveria 1 bilhão de toneladas de biomassa por ano. Essa estratégia é baseada na produção do etanol celulósico a partir de todos os tipos de resíduos vegetais, procedimento "que o Brasil já conhece, mas não pratica", de acordo com Sachs.

PIONEIRISMO

Diante desse panorama internacional, o Brasil se destaca pelo pioneirismo dos 30 anos de uso do álcool como combustível. O interesse internacional no caso brasileiro é duplo, segundo Sachs: "Para entender melhor a experiência brasileira e pelo interesse dos países industrializados num eventual mercado internacional de etanol, transformado numa 'commodity' a ser comprada barato nos países do Sul para alimentar os veículos dos países do Norte".

No entanto, o pesquisador observou que não se deve reduzir a questão da saída da civilização do petróleo unicamente a desenvolvimentos tecnológicos como o incremento dos automóveis e a produção de um novo combustível. Para ele, o problema deve ser recolocado a partir da perspectiva de uma estratégia energética bem mais ampla, onde a variável principal é aquela energia menos ou não-poluente e muitas vezes a mais barata, ou seja, aquela energia que se deixa de consumir. "É preciso discutir estilos de vida, substituição do transporte individual pelo coletivo, a feição futura das cidades, entre muitas outras coisas."

Sachs não concorda também com a visão dos biocombustíveis como "commodities", produzidos por monoculturas voltadas essencialmente à eficiência econômica do processo: "Temos de situar os biocombustíveis dentro de uma quadro mais amplo, da civilização moderna da biomassa. Se estamos realmente começando a entrar na fase final da civilização do petróleo, podemos dizer que estamos saindo de um interlúdio de vários séculos, dominados primeiro pelo carvão e depois pelo petróleo, e estamos voltando, em certo sentido, para a energia solar captada pela biomassa. Nessa nova fase, as conquistas da ciência, em particular da biologia e da biotecnologia, devem ocupar um lugar cada vez mais importante. A civilização da biomassa permite produzir alimentos para o homem, forragem para os animais, materiais de construção, adubos verdes, biocombustíveis, matérias primas industriais, fibras, plásticos, fármacos e cosméticos".

ALIMENTOS E ENERGIA

As opiniões divergem quanto ao uso de solos cultiváveis: uma corrente de ambientalistas acredita que haverá falta de solos; já a FAO considera que, sobretudo na América Latina e na África, são utilizados apenas um quinto dos solos cultiváveis. Para Sachs, esse tema deve ser discutido não sob o ponto de vista de justaposição de monoculturas, mas sim tendo em vista um sistema integrado de produção de alimentos e energia. "Além disso, deve-se introduzir nesse debate aquilo que os agrônomos franceses chamam de revolução duplamente verde e o famoso agrônomo indiano Monkombu Sambasivan Swaminathan chama de 'ever-green revolution', a segunda geração da revolução verde, com uma cultura que busque rendimentos razoáveis mas em harmonia com o ambiente e preocupada com os pequenos agricultores."

Na opinião do pesquisador, a mudança para a civilização da biomassa permitirá atacar grandes problemas do século 21, entres os quais o maior e mais difícil problema social: a falta de trabalho decente para todos. "É totalmente absurdo pensar o futuro deste século sem pensar no problema do desenvolvimento rural. Os pequenos agricultores e suas famílias correspondem a 2,5 bilhões de pessoas. Não dá para jogar toda essa gente nas favelas. Se isso acontecer, vamos ter de lidar com uma tragédia de proporções inéditas."

"Se há um país onde a saída da civilização do petróleo é possível, num período de 20, 30 anos, para a construção de uma civilização moderna de biomassa, esse país é o Brasil". Sachs justificou essa opinião ao relacionar os componentes brasileiros favorecedores da mudança de civilização: a maior reserva de biodiversidade, enorme quantidade de terras cultiváveis, climas variados, dotação de recursos hídricos entre ótima e razoável na maioria das regiões, pesquisa agronômica e biológica de categoria internacional e indústria capaz de produzir equipamentos para a produção de etanol e biodiesel.

O fato de o país praticamente ter chegado à auto-suficiência em petróleo não significa que não deva avançar na substituição do petróleo sempre que possível. Trocado pelo álcool, que é mais barato, o petróleo pode ser vendido nos mercados mundiais, argumentou. "E como o Brasil tem essa inovação que é o flex motor, nada impede que se avance rapidamente na área do etanol."

BIODIESEL

Ele considera a situação mais complicada quando o assunto é o biodiesel: "Estão sendo analisados 13 ou 14 óleos diferentes. É evidente que o País precisará de estratégias diferenciadas por biomas, com um tipo de óleo no Trópico Úmido, outro no Semi-Árido e um terceiro no Cerrado. Certamente o óleo de dendê aparece como uma alternativa bastante interessante para o Trópico Úmido. Há até uma experiência estrangeira muito bem sucedida como parâmetro: a reforma agrária da Malaísia, baseada na produção de óleo de dendê".

Sach descreveu uma proposta de reforma agrária para regiões da Amazônia em estudo há alguns anos: numa cooperativa de 500 famílias, cada uma receberia 10 hectares para dendê e outros 10 hectares para atividades agroflorestais e pequenas lavouras de subsistência; cada vez que fossem atingidos 5 mil hectares de dendê, uma indústria nacional com toda a tecnologia necessária construiria uma usina de esmagamento, com as seguintes condições por parte da empresa: fornecimento das mudas, assistência técnica, exclusividade de compra e pagamento por um preço correspondente a um percentual do preço mundial do óleo. Estudos demonstraram que 10 hectares de dendê dão emprego a um homem para o ano todo. Os outros 10 hectares propiciam um ou dois empregos para outros membros da família. E um conjunto de 500 famílias possibilita o surgimento de uma vila agroindustrial com empregos industriais, comerciais, técnicos, sociais e no transporte.

No Semi-Árido as opções devem ser diferentes: "Em vários Estados do Nordeste é provável que a escolha recaia sobre a mamona, na qual o Brasil já tem experiência, pois durante muitos anos essa cultura esteve vinculada à produção industrial".