ENERGIA: Bons ventos
Com o desenvolvimento industrial atrelado à produção de energia, é natural concluir que mais possibilidades terão aqueles países que forem bem- sucedidos na obtenção de energia de fontes alternativas ao petróleo. Com o aumento da demanda por parte da China e a atual crise na produção de derivados de petróleo a cotação internacional do barril superou os US$ 65, o que inspira ainda mais importância e viabilidade aos projetos para a geração de energia alternativa. De acordo com o coordenador do programa de planejamento estratégico da Coordenação dos Programas de Pós- Graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luiz Pinguelli Rosa, de maneira geral o mundo já não é tão dependente dos derivados fósseis, "mas, certamente o petróleo terá seu efeito no estímulo de programas alternativos de geração de energia, porque a produção dá os primeiros sinais de declínio e há sempre a instabilidade política na principal região produtora, que é o Oriente Médio", ressaltou. Para ele, que também é secretário do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, a ampliação dos investimentos em projetos de energia alternativa também está relacionado a uma maior preocupação com a questão ambiental. " Danos causados pelo efeito estufa, compromissos de redução das emissões estabelecidos pelo Protocolo de Kyoto e a crescente pressão de ambientalistas levam a um interesse sempre maior em novas tecnologias para a geração de energia", afirmou.
O Brasil possui cerca de 43,9% da oferta interna de energia de origem em fontes renováveis (incluindo as grandes hidrelétricas) enquanto no mundo essa taxa é de 13,6% e nos países desenvolvidos não passa de 6%. Dessa característica peculiar do país resulta o grande progresso do parque gerador de energia hidrelétrica, iniciado na década de 50 e de políticas públicas adotadas após a primeira crise do petróleo, em 1973, visando à redução do consumo de combustíveis oriundos dessa fonte. O Programa de Produção de álcool combustível (Proálcool) deu ao Brasil posição de vanguarda no desenvolvimento do mercado de fontes alternativas e mostrou ao mundo sua vocação empreendedora. Além disso, suas características econômicas e sociais possibilitam que projetos nacionais produzam créditos de carbono que podem ser comercializados com países desenvolvidos.
Todo este perfil do país atraiu grandes e pequenos investidores. O grupo de origem canadense Brascan foi um dos primeiros grupos estrangeiros a entrar no setor de energia no Brasil. Em 1999 abriu uma empresa específica para atuar no setor elétrico brasileiro, a Brascan Energética. Hoje já são 12 pequenas centrais (PCHs) em operação, com uma capacidade total de 205 MW. Nos planos de negócios da empresa para os próximos 5 anos, além da construção de centrais hidrelétricas, também estão aquisições e parcerias em projetos de energia eólica e biomassa, que devem possibilitar à empresa ampliar sua geração para 500 MW até 2010.
O grupo espanhol Guascor, fabricante de motores e equipamentos de propulsão marinha e geração de energia e com mais recente atuação em tratamento de resíduos, resolveu investir no Brasil em PCHs. A empresa está em fase de conclusão da primeira usina, Furnas do Segredo, de 10 megawatts (MW). A construção de outros cinco empreendimentos, que totalizam 83 MW, deve ser iniciada ainda este ano.
No total, a empresa investiu R$ 270 milhões. De acordo com o presidente da subsidiária brasileira, Joaquim Sanches Pereira, a empresa já busca novos aproveitamentos hidrelétricos. "Queremos também entrar em biomassa, a partir de uma técnica desenvolvida por nós na Europa, de ciclo de gaseificação", afirmou. No entanto, ainda não existe prazos.
Grupos nacionais, como o Arbeit, também tem focado seus interesses em energia alternativa. Depois de investir R$ 45 milhões para adquirir 14 pequenas centrais hidrelétricas (- PCHs) que estavam desativadas desde os anos 70 (época da entrada em operação das grandes geradoras estatais), a empresa diversificou sua atuação e aplicou R$ 10 milhões na produção de 2,5 milhões de biodiesel por mês que devem ser exportados. "Já estamos avaliando novos projetos", afirmou o diretor, Oscar Müller.
Investidores indiretos também têm vez. A norte-americana Ecoenergy International Corporation, que fornece consultoria e serviços de engenharia para o setor elétrico, com especial foco na energia limpa, criou um fundo de investimento, com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), para investir ativos que apliquem tecnologias limpas na América Latina. O Clean Tech Fund, de capital total de US$ 45 milhões (dos quais US$ 20 milhões já foram captados) ainda não fechou nenhuma operação, mas a previsão é investir em pelo menos 15 projetos em até 5 anos, boa parte dos quais possivelmente no Brasil. De acordo com Luís Eduardo Lima, gerente da Ecoenergy Brasil, alguns projetos já estão em fase adiantada de negociação. "É possível que os desembolsos ocorram em menos de cinco anos", afirmou. A empresa, que também comercializa créditos de carbono, destaca que a venda dos CERs (Certificado de Redução de Emissões na sigla em inglês)possibilita ainda maior rentabilidade, em especial para pequenas centrais hidrelétricas (PCH) e térmicas a biomassa. "Os preços da eólica começam a ficar interessantes, mas a solar ainda não se viabiliza", disse.
Apesar do interesse natural de grupos privados, o governo federal mantém sua posição de indutor de investimentos por meio de programas de incentivo. Quase 20 anos depois do Próalcool, o governo definiu dois novos programas, um para a geração de eletricidade a partir de fontes alternativas e outro para a produção de biodiesel.
O Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa) criado em 2002, consiste na contratação, por meio da Eletrobrás, de 3,3 mil MW de energia provenientes de usinas eólicas, térmicas a biomassa, e PCHs durante um período de 20 anos, o que propiciou a participação de antigos e novos grupos, nacionais e estrangeiros. Atualmente, os 63 projetos selecionados estão em busca de financiamentos ou iniciando a construção. As usinas devem entrar em operação até o final de 2006. De acordo com as previsões do governo, os investimentos do setor privado no programa devem alcançar R$ 8,6 bilhões .
Já o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel, criado em 2004, prevê a produção de óleo a partir de mamona cultivada por pequenas propriedades rurais, principalmente do Nordeste, que recebem recursos governamentais. O combustível será adicionado, inicialmente na proporção de 2%, ao óleo diesel de petróleo. A expectativa governamental é substituir os 3,7 bilhões de litros que hoje são importados, o que faria com que os US$ 160 milhões gastos nas aquisições feitas no exterior sejam convertidos em renda para o mercado interno.
O programa é semelhante ao Proálcool, que continua rendendo bons negócios ainda hoje. Após um período de diminuição da produção de álcool, devido aos menores custos do petróleo e às melhores cotações do açúcar, a partir de 2003 as vendas do combustível voltaram a aumentar. Aliado à nova elevação no preço do petróleo e ao desenvolvimento da tecnologia flex, o interesse de outros países pelo combustível propiciaram o aumento da produção, que fechou 2004 totalizando 14,6 milhões de m3. Neste ano, a produção de álcool somente na região Centro-Sul do País alcançou, até julho, 6,4 milhões de m3, 31,4% superior ao registrado no mesmo período do ano passado, segundo informações da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica). A movimentação também tem acelerado os investimentos no setor sucroalcooleiro. Segundo a Procana Informações e Eventos, o setor deverá registrar investimentos anuais médios de R$ 2,5 bilhões nos próximos cinco anos, dos quais 52%, ou R$ 1,3 bilhão, serão destinados à construção de novas usinas. Além dos projetos em ampliação da produção, destaque para a aplicação de recursos em melhoria da logística para exportação. A Crystalserv, em parceria com os grupos Cosan e Nova América, investiu US$ 10 bilhões em um terminal para armazenamento de até 45 bilhões de litros de álcool em Santos (SP). Outro programa governamental, não diretamente relacionado ao incentivo à geração de energia, pode estimular o desenvolvimento de uma outra fonte de energia, a solar.
O programa Luz para Todos, que quer universalizar o acesso à energia elétrica, deve possibilitar a implantação de painéis fotovoltáicos em áreas distantes dos sistemas de transmissão. Embora o país possua um enorme potencial de geração de energia solar e uma grande reserva de silício (mineral utilizado nos painéis fotovoltáicos), a tecnologia hoje existente ainda é muito cara, especialmente se comparada com o da atual geração elétrica. "Até 2008, quando o governo pretende ter 100% das residências com energia elétrica, a ampliação dos painéis fotovoltáicos pode ser significativa", afirmou Hamilton Moss, professor do Centro de Pesquisa de Energia Elétrica( Cepel), sem querer mencionar números. A instalação de um painel para gerar um quilowatt (kW) pode custar até US$ 9 mil, enquanto a extensão de um quilômetro de rede de transmissão varia entre R$ 7 mil e R$ 12 mil. "Dependendo da distância e do número de pessoas a serem atendidas, pode valer a pena", sugeriu.
Ele alerta, entretanto, que não haverá uma grande difusão nacional da energia solar a curto prazo, a não ser para o aquecimento da água. "Ainda assim, as pessoas avaliam com cuidado o custo da instalação de um coletor (de cerca de R$ 3 mil) para atender ao consumo de quatro pessoas, em relação ao custo do chuveiro elétrico antes de fazer um investimento", disse.
Muitas outras alternativas têm sido pesquisadas e implementadas, ainda que em caráter experimental. Aterros sanitários que aproveitam o gás metano produzido pelo lixo urbano para a geração de eletricidade, célula a combustível, movimento das marés e correnteza dos rios para a geração de energia elétrica.
Links:
Ministério de Minas e Energia
Agência Nacional de Energia Elétrica
CEPEL
PROINFA


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