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Mais uma vez: biocombustíveis x alimentos

Estamos acostumados a ouvir, ler e ver quase todos os dias notícias em jornais, internet e televisão, umas verdadeiras, outras nem tanto. E de tanto ouvir inverdades passamos a acreditar nelas como verdadeiras.
Univaldo Vedana 5 min de leitura
Estamos acostumados a ouvir, ler e ver quase todos os dias notícias em jornais, internet e televisão, umas verdadeiras, outras nem tanto. E de tanto ouvir inverdades passamos a acreditar nelas como verdadeiras. Estou me referindo a responsabilidade dos biocombustíveis no aumento de preço dos alimentos.

O aumento dos alimentos nos últimos 20 meses é real, está aí e pode ser sentido por qualquer consumidor ao redor do planeta, não é uma invenção brasileira. Agora, eleger os biocombustíveis como a principal causa desses aumentos é não entender da conjuntura agrícola, econômica e energética mundial.

Vejamos: o pai dos biocombustíveis é o preço do petróleo. Atacar os biocombustíveis é atacar o efeito e não a causa. A produção de biocombustível só se tornou viável porque o petróleo ficou caro. Exemplo clássico: a produção de álcool carburante brasileiro patinou durante 30 anos e só começou a deslanchar a partir do final do ano de 2004, exatamente quando o petróleo começou a subir (e claro, os motores flex).

Abaixo alguns fatores que contribuíram para o aumento do preço dos alimentos:
1 – O petróleo passou 15 anos, de 1986 até 1999 com um preço médio de U$ 20 o barril, de 2000 até o final de 2003 seu preço médio ficou em torno de U$ 30 o barril, em 2004 bateu os U$ 40, em 2005 passou dos U$ 60, em 2006 passou dos U$ 70. Em 2007 alcançou os U$ 90 e agora em 2008 já bateu U$ 110 o barril. Em oito anos o petróleo quintuplicou de preço. A produção de alimentos tem uso intensivo de derivados de petróleo e se ela não repassar esses custos fica inviabilizada parando a produção, aí sim ocorre uma elevação de preços pela falta de produção. O preço do petróleo influi na formação do preço final do produto, pois desde o plantio da semente até a mesa do consumidor, tudo é feito queimando petróleo.

2 – O aumento da demanda mundial com a entrada de centenas de milhões de pessoas no mercado consumidor, principalmente asiáticos num curto espaço de tempo, sem que a produção agrícola estivesse preparada para isto.

3 – Um número maior de secas e outras catástrofes em diversas partes do mundo diminuindo a oferta de grãos nos últimos dois anos.

4 – Fundos especulativos atuando fortemente no setor de commodities nas bolsas americanas. Com a crise imobiliária dos EUA, muitos fundos migraram para as commodities agrícolas, sobrevalorizando os preços.

5 – A utilização do milho americano para a produção de etanol. E em menor escala, mas deve ser considerada também a utilização de trigo, sorgo e outros grãos forrageiros para a produção de etanol na Europa.

O aumento do preço dos alimentos está mais ligado a uma série de fatos que aconteceram praticamente ao mesmo tempo do que exclusivamente da produção de biocombustíveis.

Em sã consciência, não podemos responsabilizar somente os biocombustíveis, não podemos acreditar que as 50 milhões de toneladas de milho a mais que os americanos passaram a utilizar nos últimos dois anos para o etanol esteja causando todo esse aumento do preço dos alimentos. A alta mundial da inflação e a conseqüente alta dos alimentos estão mais ligadas ao aumento do petróleo do que a qualquer outra causa.

Sem fundamento também é responsabilizar a produção brasileira de cana, que ano após ano bate recordes de produção e ao mesmo tempo a produção de grãos também é maior. Neste ano ultrapassaremos 140 milhões de toneladas.

Porque não questionar os países produtores de petróleo que limitam a produção a um nível mínimo fazendo os preços subirem?

É mais fácil atacar os biocombustíveis, é um setor novo, com estrutura em formação, com poucas vozes fazendo sua defesa.

No biodiesel, o Brasil ainda não está fazendo a lição de casa. O governo criou o PNPB incentivando a agricultura familiar. As usinas e o mercado foram em outra direção. Buscaram a soja do agronegócio já consolidado e com toda a infra-estrutura, com matéria-prima em escala, mas o mercado deu o troco. Os preços foram nas alturas praticamente inviabilizando a produção. Cabe agora ao setor readequar suas bases de matérias-primas. O potencial agrícola de produção está pronto para atender a demanda por óleos vegetais que não de soja. Faltam projetos agrícolas de parcerias e integrações para produzir na safrinha ou no inverno a matéria-prima que o biodiesel precisa.

Os biocombustíveis poderão, apenas no futuro, ser responsabilizados pela alta do preço dos alimentos, mas poderemos evitar isso plantando a cultura certa, no local certo.

Univaldo Vedana é analista do setor de biodiesel e responsável pela primeira fábrica de biodiesel do país abrangendo todo o processo de produção.
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