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O mercado mundial de óleos vegetais

O desvio de óleos vegetais do consumo alimentar para produção de biocombustíveis está provocando uma profunda modificação no mercado dessas matérias-primas. É difícil prever com exatidão como estará o mercado no futuro próximo, mas se pode ter a certeza de que será muito diferente.
Liv Soares Severino 4 min de leitura
O desvio de óleos vegetais do consumo alimentar para produção de biocombustíveis está provocando uma profunda modificação no mercado dessas matérias-primas. É difícil prever com exatidão como estará o mercado no futuro próximo, mas se pode ter a certeza de que será muito diferente.

O volume de óleos vegetais produzido no mundo é muito grande quando se considera apenas o consumo de alimentos, mas quando se compara com o consumo de petróleo, percebe-se que para atender ao mercado de biocombustíveis este volume é pouco expressivo. A produção mundial de óleos vegetais corresponde somente a 5% do consumo de petróleo, e ainda se deve considerar que grande parte desse óleo continuará sendo consumida como alimento de forma que apenas um pequeno excedente está disponível para o mercado energético. Os três principais óleos são soja, palma (dendê) e canola, os quais correspondem a mais de 2/3 do total produzido.

Até então, a definição dos preços dessas commodities era influenciada por fatores como área plantada e condições climáticas nos países produtores, expectativa de consumo mundial e estoques. Ao ingressar no mercado de biocombustíveis, a tendência é que os preços sejam vinculados às cotações do petróleo, pois esse enorme mercado pode teoricamente absorver qualquer quantidade de óleo que esteja em excesso (forçando os preços a se elevarem), assim como substituí-lo por outra fonte quando o preço estiver elevado. Na prática, o preço dos óleos deve oscilar em sintonia com a cotação do petróleo, o que provavelmente reduzirá a sua volatilidade e proporcionará maior estabilidade para planejamento e crescimento do setor.

Não existe um cálculo preciso para definir a partir de que preço do petróleo os óleos vegetais tornam-se viáveis como matéria-prima para biocombustíveis, mas estima-se que essa linha divisória esteja ao redor de US$ 60,00/barril. Recentemente, o preço do petróleo ultrapassou essa barreira e se manteve elevado por longo período para depois recuar um pouco, embora se mantenha alta a possibilidade de que volte a subir no futuro próximo.

A transição do mercado de alimento para biocombustível não é instantânea, pois depende de investimentos na implantação de indústrias e estruturação de todo o processo de produção, distribuição e consumo, assim como da segurança de que o preço do petróleo se manterá elevado para que os investimentos não sejam perdidos. De qualquer forma, as cotações do óleo de canola, principalmente, mas também do de soja e de palma, já mostram sinais de elevação. Esse efeito tem sido mais intenso com a canola, pois é a matéria-prima utilizada na Europa, onde a indústria já está instalada e o consumo de biodiesel vem sendo estimulado.
 
Essa rápida mudança no mercado de óleos tem conseqüências sobre outros produtos da cadeia produtiva. Por exemplo, a demanda por óleos provoca excessiva produção de farelos e tortas (proteína) cujos mercados não conseguem se adaptar em curto prazo para absorver a produção excedente, os quais podem ter os preços sensivelmente reduzidos e prejudicar a própria produção de óleo. O desenvolvimento tecnológico sempre caminhou no sentido de diminuir o teor de óleo das sementes em benefício do teor de proteínas (ou de fibras no caso do algodão), mas agora cogita-se seguir o caminho oposto, buscando cultivares com maior teor de óleo para se adaptar a essa nova demanda.

Para atender à demanda por óleos para biodiesel, serão mais valorizadas as culturas nas quais o óleo seja o principal produto. Espera-se que a área plantada com essas lavouras cresçam rapidamente no Brasil e em diversos países.

Liv Soares Severino, colunista BiodieselBR, engenheiro agrônomo pela Universidade Federal do Ceará, mestre em fitotecnia pela Universidade Federal de Viçosa, pesquisador em sistemas de produção na Embrapa.

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