Nesse artigo para BiodieselBR.com, Décio Luiz Gazzoni analisa as previsão do 5º Relatório do IPCC sobre as mudanças climáticas.
Décio Luiz Gazzoni ··22 min de leitura
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Nesse artigo para BiodieselBR.com, Décio Luiz Gazzoni analisa as previsão do 5º Relatório do IPCC sobre as mudanças climáticas.
Em recente artigo para o BiodieselBR.com abordei as mudanças climáticas já ocorridas, conforme constam do Quinto Relatório do IPCC. Este artigo é uma continuação do anterior, agora com foco nas previsões dos cientistas do IPCC em relação ao futuro, no curto e longo prazo. O relatório original (em inglês) pode ser acessado clicando aqui. Posto que os cientistas enxergam o aumento do uso de energia renovável como a principal arma de que o mundo dispõe para mitigar e evitar as projeções mais severas das mudanças climáticas sobre a vida no planeta Terra, é de fundamental importância que todos tenhamos conhecimento do que nos espera, se medidas não forem tomadas para corrigir as causas e evitar as consequências que são antevistas.
Resumo Executivo As projeções de mudanças no sistema climático são feitas usando uma hierarquia de modelos simples a complexos, como os Modelos do Sistema da Terra [1]. Estes modelos simulam mudanças com base em um conjunto de cenários de forçantes antropogênicas. Um novo conjunto de cenários, denominado Representative Concentration Pathways (RCPs), foi utilizado para as simulações de modelos climáticos realizadas no âmbito do Programa Mundial de Pesquisa do Clima.
Em todas as simulações realizadas, as concentrações de CO2 na atmosfera são maiores em 2100, comparativamente à média verificada entre 1986-2005, devido ao aumento de emissões de CO2 para a atmosfera durante o século XXI. Com base na disponibilidade de um conjunto de dados de longo prazo, a variação de temperatura entre a média do período de 1850-1900 e do período de referência (1986-2005) é de 0,61ºC (amplitude de 0,55-0,67ºC).
Se, no futuro, forem mantidas as emissões de gases de efeito estufa próximas ao ritmo atual,haverá aquecimento aindamaior e mudanças palpáveis em todosos componentes do sistema climático. Para que seja imposta uma limitação nas alterações climáticas, serão necessáriasreduçõessubstanciais e sustentadasde emissões de gases de efeito estufa.
As projeções para as próximas décadas mostram padrões espaciais de mudanças climáticas semelhantes àsprojetadas para o final do século, embora com magnitude menor. A variabilidade interna vai continuara ter grande influência sobre o clima, particularmente no curto prazo e na escala regional. Para meados do século 21 as magnitudes das mudanças projetadas são substancialmente afetadas pelos cenários, contemplando emissões mais ou menos intensas.
Modelos e Cenários Para estudar o impacto das emissões antropogênicas sobre o clima, os cientistas do IPCC analisaram os resultados dos cenários definidos pelo sistema denominado de Representative Concentration Pathways (RCPs), relativamente às projeções de mudanças climáticas. Esses cenários exigem informações sobre emissões futuras ou concentrações de gases de efeito estufa, aerossóis e outras variáveis importantes para definição do clima. Os cenários elaborados são focados em emissões antropogênicas, e não incluem mudanças naturais como variações na energia solar, erupções vulcânicas ou emissõesnaturais de CO2, CH4 e N2O.
No âmbito do exposto acima, para efetuar as projeções reportadas no Quinto Relatório de Avaliação do IPCC, a comunidade científica definiu um conjunto de quatro cenários. Eles são identificados pelo seu forçamento radiativo total estimado para o ano de 2100, em relação a 1750. São eles: 2,6 Wm-² para RCP2.6; 4,5 Wm-² para RCP4.5; 6,0 Wm-² para RCP6.0; e 8,5 Wm-² para RCP8.5. Estes valores devem ser entendidos apenas como indicativos, pois o forçamento climático resultante varia internamente nos modelos, devido às características específicas de cada um, bem como de eventos que interferem nas condições climáticas, mas que são de curta duração.
Estes quatro cenários incluem um cenário de mitigação, levando a um nível de forçamento muito baixo (RCP2.6); dois cenários de estabilização (RCP4.5 e RCP6); e um cenário com emissões muito altas de gases de efeito estufa (RCP8.5). Os cenários representam uma gama de políticas climáticas possíveis durante o século XXI, permitindo comparação com a ausência de política de clima, que foi a técnica utilizada na elaboração do Terceiro e do Quarto Relatórios do IPCC.
Para os cenários RCP6.0 e RCP8.5, o forçamento radiativo não atinge um pico até 2100; no cenário RCP2.6 ocorre um pico e um declínio; e para o RCP4.5 ocorre uma estabilização em 2100. Cada cenário fornece conjuntos de mudanças climáticas, em resposta às emissões de poluentes atmosféricos por setor de atividade econômica, e especifica as concentrações de gases de efeito estufa e as emissões antrópicas anuais até 2100. Os cenários RCPs são baseados em uma integração de modelos de clima, de química atmosférica e de ciclo global do carbono.
As simulações foram realizadas com concentrações de CO2 atingindo 421 ppm (RCP2.6); 538 ppm (RCP4.5); 670 ppm (RCP6.0); e 936ppm (RCP 8,5) até o ano de 2100. Os modelos incluem também as concentrações de CH4 e N2O, em que as concentrações de CO2-equivalente atingem 475 ppm (RCP2.6); 630 ppm (RCP4.5); 800 ppm (RCP6.0); e 1.313 ppm (RCP8.5).
Para todos os RCPs, foram efetuados cálculos adicionais com dados de modelos da química atmosférica, usando as emissões dos gases quimicamente reativos (CH4, N2O, HFCs, NOx, CO, COVNM).Estas simulações permitem a investigação de incertezas relacionadas com feedbacks do ciclo de carbono equímica atmosférica.
Principais projeções As mudanças climáticas projetadas com base nos modelos RCPs são semelhantes ao descrito no relatório anterior (2007), considerando seus padrões e magnitude, após a contabilização das diferenças de cenário. As projeções de elevação do nível do mar sãomaiores do que aquelas descritas no relatório anterior, principalmente devido aoaprimoramento dos modelos que estudam as modificações nas terras permanentemente congeladas (permafrost).
A Figura 1 mostra a tendência de variação da temperatura média da superfície terrestre, em relação à média do período 1986-2005, utilizado como padrão nos estudos, e como média dos cenários.
A Figura 2 mostra a projeção da contração da camada de gelo do Ártico, nos extremos do inverno e do verão, no cenário de emissões mais intensas.
A Figura 3 mostra a tendência contínua de diminuição do pH dos oceanos, em função da acidificação provocada pela absorção parcial das emissões de CO2.
Finalmente a Figura 4 mostra a elevação do nível dos oceanos, considerando os dois cenários extremos utilizados pelos cientistas na modelagem das mudanças.
Temperatura da atmosfera A mudança de temperatura da superfície terrestre, prevista para o final do século XXI, provavelmente será superior a 1,5ºC, relativamente à média do período 1850-1900, para todos os cenários elaborados, exceção ao RPC2.6. Os autores do relatório estimam ser provável que ultrapasse 2ºC para dois dos cenários elaborados (RPC6.0 e 8.5) e que não exceda 2ºC para um dos cenários (RCP4.5). O aquecimento continuará após 2100, em todos os cenários RCP, menos em um deles (RCP2.6).O aquecimento vai continuar a exibir variabilidade entre anos ou décadas, e não será uniforme para todas as regiões. Os principais pontos ressaltados no relatório, com respeito a este tema, são: a. A média de variação de temperatura da superfície terrestre, para o período de 2016-2035, em relação a 1986-2005, deverá recair na amplitude de 0,3-0,7ºC. Esta avaliação baseia-se em múltiplas linhas de evidência e assume que não haverá grandes erupções vulcânicas ou alterações na radiação solar total. Em relação à variabilidade natural interna, aumenta a flutuação dastemperaturas médias anuais no curto e médio prazo. As variações devem ser maiores nos trópicos eem regiões subtropicais do que em latitudes médias; b. O aumento da temperatura média da superfície global para 2081-2100 em relação a 1986-2005 deve recair em amplitudes variáveis, de acordo com os cenários: entre 0,3-1,7ºC (cenário RCP2.6); 1,1-2,6ºC (RCP4.5); 1,4-3,1ºC(RCP6.0); e 2,6-4,8ºC (RCP8.5). A região do Ártico vai aquecer mais rapidamente do que a média mundiale o aquecimento da terra será maior do que dos oceanos; c. A mudança de temperatura da superfície do globo, aofinal do século XXI, relativamente à média do período 1850-1900, provavelmente será superior a 1,5ºC, para os cenários RCP4.5, RCP6.0 e RCP8.5. O aquecimento deverá ultrapassar 2ºC para os cenários RCP6.0 e RCP8.5, sendo provável que exceda 2ºC para o cenário RCP4.5, mas não deverá ultrapassar 2ºCpara o cenário RCP2.6. É improvável que o aquecimento exceda 4ºC para RCP2.6, RCP4.5 eRCP6.0, sendo indefinido se o cenárioRCP8.5 excederá 4ºC. d. É praticamente certo que haverá maior frequência de temperaturas extremas de calor, diminuindo os extremos de temperatura fria,na maioria das regiões,conforme aumentem as temperaturas médias do planeta. É muito provável que as ondas de calor ocorrerão com maior frequência e duração e frios extremos ocasionaisdurante o inverno continuarão a ocorrer, porém serão eventos mais raros.
Ciclo da água As mudanças no ciclo global da água, em decorrência do aquecimento ao longo do século XXI, não serãouniformes. O contraste do volume de precipitação entre as regiões úmidas e secas e entre as estações secas e chuvosas irá aumentar, embora possa haver exceções regionais. Os principais pontos elencados pelos cientistas são: a. As mudanças projetadas no ciclo da água, ao longo das próximas décadas, mostram semelhançacom os padrões gerais previstos para o final do século, porém serão de menor magnitude. As alterações de curto prazo, e na escala regional, serão fortemente influenciadas pela variabilidade natural e podem ser afetados pelas emissões de aerossóis antropogênicos; b. As altas latitudes e o Oceano Pacífico equatorial estão propensos a experimentar um aumento naprecipitação média anual, até o final deste século, no cenário RCP8.5. Em muitas latitudes médiase em regiões subtropicais secas, a precipitação média provavelmente vai diminuir, enquanto em muitas latitudes médiasde regiões úmidas, a precipitação média provavelmente vai aumentar até o final deste século, sob o cenário RCP8.5; c. Os eventos extremos de precipitação sobre a maior parte das massas de terra localizadas em latitudes médias, e sobre regiões tropicais úmidas, muito provavelmente tornar-se-ão mais intensos e mais frequentes até o final deste século, conformeaumentea temperatura média da superfície do planeta; d. É provável que a região abrangida por sistemas de monções irá aumentar ao longo doséculo XXI. Enquanto os ventos de monções são suscetíveis de enfraquecer ao longo do período, é provável quea precipitação se intensifique devido ao aumento da umidade atmosférica. As datas de início das monções são suscetíveis deantecipação, porém de pequena magnitude. As datas de final das monções provavelmente serãoatrasadas, o que resultaráno alongamento da temporada de monções em muitas regiões; e. Há grande confiança de que o El Niño - Oscilação Sul (ENOS) continuará a ser omodo dominante de variabilidade interanual no Pacífico tropical, com efeitos globais,durante oséculo XXI. Devido ao aumento na disponibilidade de umidade, a variabilidade da precipitação causada pelo ENOS provavelmente vai se intensificar, em escalas regionais. As variações naturais da amplitude e do padrão espacialdo ENOS são grandes e, portanto, a confiança em qualquer mudança projetada para o século 21 é relativamente baixa;
Qualidade do ar a. A amplitude das projeções de qualidade do ar (ozônio e PM2.5 [2]) no ar, perto da superfície, é influenciadaprincipalmente pelas emissões (incluindo CH4), ao invés de mudanças físicas no clima. Há grande probabilidade de que o aquecimento diminuaoozônio superficial. Altos níveis de CH4 (RCP8.5) podem compensar essa queda, podendo aumentar a concentração de ozônio em torno do ano 2100, em cerca de 8 ppb (25% dos níveis atuais) em relação a cenários com pequenas mudanças no teor de CH4 (RCP4.5, RCP6.0); b. Tanto evidências de observações quanto resultados de modelagem indicam que, ceteris paribus, temperaturas da superfície da terra, que sejam elevadas, e em regiões poluídas, desencadearão alterações químicas locais e regionais, bem como emissões locais que aumentarão os níveis de pico de ozônio e de PM2.5; c. No caso de PM2.5, alterações climáticas podem alterar as fontes naturais de aerossol, bem como a sua remoção por precipitação, mas não há segurança estatística para vincular o impacto global das mudanças climáticas sobre as distribuições de PM2.5.
Oceanos A água dos oceanos vai continuar a aquecer durante o século XXI. O calor irá penetrar a partir da superfície do oceano até as camadas mais profundas, e afetar a circulação oceânica em escala global. As principais conclusões dos cientistas são: a. O aquecimento mais forte é projetado para a superfície do oceano no Hemisfério Norte tropical e em regiões subtropicais. Em maiores profundidades, o aquecimento será mais pronunciado no Hemisfério Sul. As melhores estimativas de aquecimento dos oceanos nos cem metros superficiais, sãode cerca de 0,6ºC (RCP2.6) a 2,0ºC (RCP8.5); e entre 0,3ºC (RCP2.6) a 0,6ºC (RCP8.5), no primeiro quilômetro de profundidade, até o final do século XXI; b. É muito provável que a corrente oceânica conhecida como AMOC (Atlantic Meridional Overturning Circulation) irá enfraquecer-se ao longo do século XXI. As melhores estimativas de amplitude para a redução são de 11% (de 1 a 24%) emRCP2.6 e de 34 % (12 a 54%) em RCP8.5. É provável que haja alguma redução naAMOC por volta de 2050, mas pode haver aumento da AMOC em períodos anteriores, devido à grande variabilidade interna; c. É muito improvável que a AMOC sofra uma transição abrupta ou colapso no século XXI, para os cenários considerados. No entanto, um colapso no próximo século é factível, caso haja grande aquecimento das águas oceânicas.
Criosfera É muito provável que a cobertura de gelo do mar Ártico continuará a encolher e a tornar-se mais fina, e que a cobertura de neve na primavera do Hemisfério Norte vai diminuir durante o século XXI,conforme a temperatura média globalda superfície sobe. Igualmente, o volume global das geleiras vai diminuir ainda mais. As principais projeções do relatório são as seguintes: a. Reduções contínuas da extensão do gelo do mar Ártico são projetadas ao longo do século XXI. Estas reduções variam entre 43% para o cenário RCP2.6 a 94 % para o cenário RCP8.5, no mês de setembro; e de 8% para RCP2.6 e de 34% para RCP8.5 em fevereiro; b. Com base em uma avaliação do subconjunto de modelos que reproduzem mais de perto a climatologia média e a extensão do gelo do mar Ártico entre 1979 e 2012, projeta-se o Oceano Ártico quase livre de gelo em setembro, antes de meados do século, no cenário RCP8.5. A projeção de que o Ártico possa se tornar quase livre de geloem setembro, no século XXI, não pode ser feito com confiança estatística, para os outros cenários. Considera-se o Oceano Ártico como quase livre de gelo quando a extensão do gelo do mar se torna inferior a 106 km² durante, pelo menos, cinco anos consecutivos; c. Na Antártida, uma diminuição da extensão e do volume do gelo do mar é projetada parano final do século 21, conforme a temperatura média global da superfície terrestre sobe. Até o final do século 21, o volume global de geleiras, excluindo os glaciares na periferiada Antártida, deverá diminuir em 15-55% (RCP2.6), e em 35 a 85% (RCP8.5); d. A área de cobertura de neve da primavera, no Hemisfério Norte, está projetada para diminuir em 7% (RCP2.6), e até 25% (RCP8.5) até ao final do século XXI; e. É praticamente certo que a extensão da permafrost perto da superfície, em altas latitudes do Hemisfério Norte, será reduzida, conforme a temperatura média global da superfície aumenta. Até o final do século XXI, a área de permafrost perto da superfície (3,5 m superiores) é projetada para diminuir entre 37% (RCP2.6) e 81% (RCP8.5).
Nível do Mar O nível médio do mar global vai continuar a subir durante o século XXI. Em todosos cenários de RCP a taxa de aumento do nível do mar será, muito provavelmente, superior à observada durante o período 1971-2010,devido ao aumento do aquecimento dos oceanos e ao aumento da perda de massa das geleiras e camadas de gelo. As principais projeções são: a. O aumento médio do nível do mar, em escala global, estimado para 2081-2100, em relação a 1986-2005, será provavelmente no intervalo de 0,26-0,55m para RCP2.6; de 0,32-0,63m para RCP4.5; de 0,33-0,63 m para RCP6.0; e de 0,45 a 0,82m para RCP8.5. Especificamente para o ano de 2100, no cenário RCP8.5, o aumento é estimado na faixa de 0,52-0,98m, com uma taxa de aumento durante 2081 a 2100 de 8 a 16mm ano-1; b. Nas projeções dos modelos RCP, a expansão térmica representa de 30 a 55% da média global de elevação do nível do mar durante o século XXI, e o derretimento das geleiras deve contribuir com 15 a 35%; c. O aumento do derretimento da camada de gelo da Groenlândiadeverá excedera queda de neve, contribuindo para a elevação do nível do mar; d. Enquanto derretimento da superfície permanecerápequeno, um aumento na queda de neve sobre a Antártida deverá ocorrer, resultando em uma contribuição negativa para o aumento do nível do mar,quando se considera o balanço de massa de superfície; e. Com base no entendimento atual, apenas o início do colapso de setores de gelo de base marinha da Antártida, pode causar aumento do nível global médio do mar acima da faixa provávelestabelecida pelos modelos, durante o século XXI, assim mesmo sendo de pequena escala; f. A base para projeções de aumento maior da média global do nível do mar no século XXI foi analisada,concluindo-se que não se dispõe de resultados científicos suficientes para avaliara probabilidade de ocorrência de níveis específicos acima do intervalo provável avaliado. Muitos modelos semi-empíricos projetam elevação do nível do mar maiores do que aquelas baseada nos modelos usados pela equipe do IPCC (atécerca de duas vezes maior), mas não há consenso na comunidade científica sobre a suaconfiabilidade, havendo, portanto, baixa confiança nessas projeções; g. O aumento do nível do mar não será uniforme. Até o final do século XXI, é muito provável que cerca de 70% das zonas costeiras em todo o mundo sejam afetadas pela mudança do nível do mar.
Carbono e outros ciclos A mudança climática afetará os processos do ciclo de carbono de maneira a agravar o aumento de CO2 na atmosfera. A absorção de carbono atmosférico pelos oceanos vai aumentara sua acidificação. As principais projeções dos cientistas para este tema são: a. A captação de CO2 antropogênico pelos oceanosocorrerá em todos os quatro cenários, até 2100, commaior intensidade para aqueles de concentração mais elevada. A evolução futurada absorção de carbono pela superfície terrestre é menos segura. A maioria dos modelos projeta absorção contínua de carbono pelo solo,em todas as simulações, mas alguns modelos projetam uma perda de carbono terrestre, devido à combinaçãoentre o efeito das alterações climáticas e as mudanças no uso da terra; b. Com base em Modelos do Sistema da Terra, há grande confiança de que o feedback entre o clima e o ciclo de carbono é positivo, no século XXI, isto é, a mudança climática vai compensar parcialmente os aumentos de sumidouros de carbono na superfície terrestre e nos oceanos, devido ao aumento do CO2 atmosférico. Como consequência, a maior parte do CO2antropogênico emitido irá permanecer na atmosfera. Um feedback positivo entre oclima e o ciclo de carbono, em escalas de tempo de séculos ou milênios, é suportado por observações do paleoclima e pelos exercícios de modelagem; c. Os Modelos do Sistema da Terra projetam um aumento global da acidificação do oceano para todos os cenários RCP. A diminuição no pH da superfície do oceano até o final do século XXI situa-se na faixa de 0,06-0,07 para RCP2.6; 0,14-0,15 para RCP4.5; 0,20-0,21 para RCP6.0; e 0,30-0,32 para RCP8.5; d. As emissões acumuladas de CO2 durante o período de 2012-2100, calculadas por 15 modelos de sistemas da Terra, situam-se na faixa de 140-410 GtC (bilhões de toneladas de carbono) para RCP2.6; 595-1.005 GtC para RCP4.5; 840-1250 GtC para RCP6.0; e 1.415-1.910 GtC para RCP8.5; e. Em 2050, as emissões anuais de CO2 geradas pelos Modelos do Sistema Terra, válidas exclusivamente para o cenário RCP2.6 (cenário de mitigação) são 14% a 96% menores do que as registradas em 1990; f. A liberação de CO2 ou CH4 para a atmosfera, ao longo do Século XXI, originados no descongelamento dos estoques de carbono adsorvidos no permafrost é avaliada na faixa de 50 a 250 GtC para RCP8.5.
Estabilização do Clima As emissões cumulativas de CO2 em grande parte determinam o aquecimento global até o final doséculo XXI, e mesmo no próximo século. A maioria das alterações climáticas vai persistir por muitosséculos, mesmo se as emissões de CO2 não mais ocorressem. Isto representa uma alteração climática substancial, de prazo muito longo, decorrente das emissões passadas, e que pode ser agravada pelas emissões presentes e futuras de CO2. Os principais alertas dos cientistas são: a. Existe uma relação linear entre as emissões acumuladas totais de CO2 e a temperatura média da superfície terrestre. Qualquer nível de aquecimento está associado com uma série de emissões acumuladas de CO2 conforme exposto na Figura 5.
b. Limitar o aquecimento causado unicamente pelas emissões antropogênicas de CO2 a menos de 2oC em relação à média do período 1861-1880, com probabilidade superior a 33%, implica limitar as emissões ao máximo de 5.210 Gt CO2; para probabilidade> 50%, o limite de emissões deve ser de 4.428 GtCO2; e para probabilidade >66%, as emissões acumuladas não poderiam ultrapassar a 3.660 GtCO2; c. É importante lembrar que, até 2011, as emissões acumuladas somam 1.944 Gt CO2. Portanto, para uma alta probabilidade de que o aumento de temperatura não ultrapasse 2ºC, as emissões antropogênicas a partir de 2011 não poderiam ultrapassar a 1.716 GtCO2, ou seja, já emitimos mais da metade do que seria possível emitir; d. Como corolário do acima exposto, uma meta de aquecimento inferior a 2ºC, ou uma maior probabilidade de ficar abaixo desse valor implica em emissões de CO2 acumuladas muito inferiores aos cálculos acima; e. Uma grande fração da mudança climática antropogênica resultante das emissões de CO2 é irreversívelem uma escala de tempo de séculos ou milênios, exceto no caso de uma grande remoção de CO2da atmosfera durante um longo período, através de tecnologias de sequestro e imobilização do carbono já emitido; f. As temperaturas da superfície terrestre permanecerão aproximadamenteconstantes, em níveis elevados, durante muitos séculos após a cessação completa da antrópicas líquidasde CO2; g. Devido às longas escalas de tempo necessárias para a transferência de calor da superfície do mar para as grandes profundidades, o aquecimento dos oceanos também continuará durante séculos. Dependendo do cenário, cerca de 15 a 40% do CO2 emitido irá permanecer na atmosfera por mais de 1000 anos; h. De acordo com os resultados dos modelos, é praticamente certo que a média global de aumento do nível do mar vai continuar além de 2100, devido à expansão térmica que continuará por muitos séculos. Os resultados dos modelos disponíveis, que vão além de 2100, indicam que o aumento do nível médio do mar mundial, acima do nível pré-industrial, deverá ser inferior a 1 m em torno do ano 2300, para um forçamento radiativo que corresponde às concentrações de CO2 que atingem um pico, diminuem e permanecem abaixo de 500 ppm, tal como no cenário RCP2.6; i. Para um forçamento radiativoque corresponde a uma concentração de CO2 que entre 700 e 1500 ppm, tal como no cenário RCP8.5, o aumento projetado para 2300 varia entre 1m a mais de 3m. j. A perda de massa de camadas de gelo causaria maior aumento do nível do mar e, em alguns locais, aperda de massa pode ser irreversível. Há uma alta confiança de que o aquecimento continuado, superior a um determinado limite, levaria à perda quase completa da camada de gelo da Groenlândia, ao longo de um milênio ou mais, causando um aumento médio do mar de até 7m. As estimativas disponíveis indicam que o limite é maior do que 1ºC, mas inferior a cerca de 4ºC, em relação ao período pré-industrial; k. É provável que ocorra uma perda abrupta eirreversível de gelo, devido a uma possível instabilidade de formações de gelo antártico situadas sobre o mar,em resposta às alterações do clima, mas as evidênciasatuais sãoinsuficientes para fazer uma avaliação quantitativa deste processo; l. Métodos que visam alterar deliberadamente o sistema climático, para evitar as mudanças climáticas, estão agrupados no que se denomina geoengenharia, abrigando diversas propostas. As evidências limitadasde sua factibilidade impedem uma avaliação quantitativa abrangentedestas propostas para gestão da radiação solar (Solar Radiation Management - SRM) e para remoção do dióxido de carbono (Carbon Dioxide Removal - CDR) e de seu impacto sobre o sistema climático; m. Os métodos de CDR têm limitações biogeoquímicase tecnológicas para aplicação em escala global. Não há conhecimento suficientepara quantificar o quanto das emissões de CO2 poderiam ser parcialmente compensados pelo CDR em uma escala de tempo de séculos; n. A modelação indica que os métodos de SRM, se factíveis, têm o potencial para compensar substancialmente umaumento da temperatura global, mas eles também modificariam o ciclo global da água, e não reduziriam a acidificação dos oceanos.
Considerações finais Grande parte das mudanças climáticas do futuro mediato e do longo prazo já se tornou irreversível, pelas emissões passadas. Os métodos propostos para redução da concentração de CO2 e de outros gases de efeito estufa ainda são embrionários, com grande margem de dúvida sobre seu custo, aplicabilidade e probabilidade de sucesso. Como a margem de emissões futuras para atingimento de algumas metas, como limitar o aumento de temperatura a 2ºC, é muito estreita, comparativamente às emissões verificadas em períodos curtos, como os últimos 60 anos, o uso de tecnologias amigáveis, que possam reduzir consistentemente as emissões de gases de efeito estufa, comparativamente às tecnologias atuais, representa a grande arma de que dispõe a Humanidade para evitar o caos das Mudanças Climáticas em larga escala.
Quem enxergou uma substituição maciça de energia fóssil por energia renovável embutida no parágrafo acima, interpretou corretamente nosso entendimento.
Décio Luiz Gazzoni é engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja. Visite o site do autor.
NOTAS 1 Conhecidos pela sigla ESMF (Earth System Modeling Framework), os Modelos de Sistema da Terra são softwares criados para efetuar previsões de clima, em especial análise numérica do clima, e incluem interações com outros segmentos das Ciências da Terra. Estas aplicações normalmente rodam apenas em supercomputadores.
2 PM2.5 significa a quantidade de materiar particulado fino, com diâmetro inferior a 2,5 micra, em suspensão no ar.