Biodiesel começa a provocar reversão do êxodo rural no sertão do Piauí
Entre as pessoas que trabalham na colheita da mamona na fazenda Santa Clara, em Canto do Buriti (cerca de 450 km ao sul de Teresina), já é possível perceber um dos efeitos planejados pelo governo federal no projeto do biodiesel. A fazenda é associada ao projeto da empresa Brasil Ecodiesel na região, e deve ser visitada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta quinta-feira. Trabalhadores que antes não tinham alternativa econômica na região e migravam para o Centro-Sul do país estão voltando para a região com a perspectiva gerada pela produção e beneficiamento da mamona.
"A capacidade de um pequeno agricultor no semi-árido produzir renda monetária é muito limitada. A possibilidade de ter uma renda na propriedade pode sim mudar a decisão de migrar. Faz a diferença entre sair e não sair. Temos a possibilidade concreta de diminuir o êxodo rural no Nordeste", afirma Arnoldo de Campos, coordenador de Geração de Renda e Agregação de Valor no Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Ele conta que também tem ouvido relatos sobre a reversão do êxodo. "Tem casos de pessoas chamando parentes, amigos." Ricardo Alonso, gerente de produção da Brasil Ecodiesel, responsável pelo projeto no Piauí, diz que a empresa também contava com esse efeito ao realizar o investimento na região.
Ideziano Ribeiro da Silva, 22, voltou de São Paulo há três meses para Eliseu Martins, cidade vizinha à fazenda Santa Clara, onde a Brasil Ecodiesel apóia a produção de mamona por mais de 600 famílias. Ele conseguiu emprego na empresa e ajuda no beneficiamento do produto. Ganha R$ 300, com carteira assinada.
Em São Paulo, onde ficou 1 ano e 8 meses, recebia R$ 800 mensais como montador de móveis, mas diz que gastava R$ 400 só com o aluguel. "Se sobrasse R$ 50 pra mim era muito. Fui pra lá caçar coisa melhor pra mim. Achar, achei, mas, em compensação, deixei aqui a mulher buchuda", conta ele. Agora, Ideziano mora com a mulher e o filho em Eliseu Martins. "Se continuar a ter emprego por aqui, fico aqui pra sempre. Aqui é um lugar quieto, calmo, sem violência. Em São Paulo, eu saía de manhã e não sabia se voltava à noite. Você não veve. Aquilo lá é só pra temporada."
O gerente da Brasil Ecodiesel Ricardo Ramos também é um exemplo. Ele se formou em Agronomia em Lavras (MG) e, antes de juntar-se ao projeto, residia até 2003 em Teresina, mas conta que a situação profissional não era fácil. "Não é fácil achar um emprego gratificante na minha área aqui no Piauí. Hoje, temos trabalhando aqui técnicos agrícolas piauienses que antes estavam em São Paulo"
Antes de se integrar ao projeto da Brasil Ecodiesel, a área da Fazenda Santa Clara era ocupada pelo projeto Cajunorte. Nos anos 90, a área, já abandonada, tinha sido invadida por 400 famílias de agricultores sem-terra, ligados ao MST (Movimento dos Sem-Terra), conforme conta a agricultora Maria Delmonde da Costa e Silva, 53, hoje também integrada ao projeto de produção de mamona para o biodiesel. Ele lembra que, além da falta de água e da dificuldade de gerar renda na terra ocupada, o grupo ainda enfrentava a incompreensão do poder público. "Nós chegamos a ser expulsos pela polícia. A coisa agora mudou muito. Esse pessoal do projeto, eu chamo de anjo. Dois filhos meus voltaram de São Paulo e estão trabalhando aqui. Se continuar assim, eles ficam. Isso aqui tem que dar certo, não falo nem por mim, falo pelas crianças", diz ela.


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