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Presidente da petrobrás prevê óleo caro nos próximos anos

Para presidente da Petrobras, petróleo aumenta com demanda maior e limite da capacidade de refino. O economista José Sérgio Gabrielli, 55, presidente da Petrobras, avalia que os preços do petróleo vão se manter em patamares elevados pelos próximos três ou quatro anos.
Folha de S. Paulo 6 min de leitura
O economista José Sérgio Gabrielli, 55, presidente da Petrobras, avalia que os preços do petróleo vão se manter em patamares elevados pelos próximos três ou quatro anos.

Em entrevista à Folha, ele avaliou que o movimento de alta de preços atual não pode ser classificado como um "choque" do petróleo semelhante aos que aconteceram no início e no final dos anos 70. Ele informou que a Petrobras terá que reajustar seus preços, mas ainda continua aguardando a estabilização da cotação internacional do petróleo. Gabrielli explicou que o primeiro choque de petróleo, em 1973, foi provocado por uma redução na oferta feita pelos países-membros da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Hoje, segundo ele, a crise é na outra ponta, da demanda, que cresceu muito com a expansão de economias como China e Índia.

O problema, disse, está muito mais localizado na capacidade de refino do que na falta de matéria-prima. O prazo de três a quatro anos para que os preços possam começar a cair é o tempo que levaria para investimentos que estão sendo feitos hoje em exploração e refino começarem a ter efeito no aumento da oferta.

Folha - O mundo vive hoje um choque de petróleo, como os que aconteceram na década de 70?
José Sérgio Gabrielli - Nos choques do petróleo, houve contração da oferta. Os países da Opep contraíram a oferta e os preços se elevaram rapidamente. Depois, houve um ajuste de demanda que ocorreu por um longo tempo. Naquela altura, a Opep era determinante na fixação dos preços do petróleo no mercado internacional. Hoje, a Opep não tem mais esse poder, ela deve ter entre 35% e 40% da produção mundial.

Folha - O que causa então a alta de preços atual?
Gabrielli - O que está havendo é uma escassez decorrente do crescimento da demanda. Nos Estados Unidos, o aumento do preço dos derivados do petróleo, em dólar, tem um impacto menor no ajuste do consumo dos americanos. Como conseqüência disso, os americanos conseguem suportar e manter o nível de renda e o nível de consumo mesmo com preços de petróleo crescentes. A desvalorização do dólar também minimiza os efeitos da alta do petróleo no consumo na Europa.

Folha - Então o consumo aumenta mesmo com preços altos?
Gabrielli - Sim. E hoje também há uma fonte de demanda provocada pelo crescimento das economias chinesa e indiana. Esse crescimento tende a permanecer em razão de grandes investimentos que ocorrem na infra-estrutura.

Folha - Mas a alta de preços também não estimula novos investimentos para aumentar a oferta?
Gabrielli - Tradicionalmente, os investimentos em exploração ocorriam pouco tempo depois de haver preços elevados do petróleo. Nós estamos vivendo agora, depois de dois anos de preços altos, uma aceleração dos investimentos. Estamos tendo uma certa defasagem dos investimentos. Outro elemento de limite da oferta, também importante, é a modificação que ocorre na área de refino. A última refinaria construída no maior mercado mundial, que é os Estados Unidos, foi em 1980. Folha - Há uma crise de refino?
Gabrielli - O mercado americano está funcionando a quase plena capacidade das refinarias. Isso significa, portanto, que nós temos um problema de limitação de capacidade do refino nos próximos dois, três ou quatro anos.

Folha - Por quanto tempo os preços vão permanecer altos?
Gabrielli - Os ajustes de demanda, que são a substituição do petróleo por fontes alternativas, são de longo prazo. Os investimentos em exploração e produção vão ter efeito sobre a produção em três ou quatro anos. Vão produzir mais petróleo com custos mais altos. Então a expectativa que temos é que vamos viver dois ou três anos, ou talvez um pouco mais, de preços relativamente altos, com alta volatilidade, e com declínio desses preços a partir daí.

Folha - Mas preços altos com alta volatilidade é o cenário de hoje ou os preços atuais estão exagerados até para esse cenário?
Gabrielli - Hoje, eu diria que temos um crescimento muito acelerado. Provavelmente não continuaremos nesse ritmo. Tenderemos a ter preços em patamares relativamente estáveis.

Folha - Os preços devem descer um pouco da casa dos US$ 60 a US$ 70 por barril?
Gabrielli - Não estou falando em termos absolutos. Esse crescimento [do preço] tenderá a perder força, mas não vai cair. Significa, portanto, que vamos estabelecer um determinado patamar de preços que vão se manter durante um certo tempo. Posteriormente, daqui a três anos, mais ou menos, vamos ter um declínio de patamar.

Folha - E como a alta de preços afeta o Brasil?
Gabrielli - Tem grandes diferenças [em relação aos choque da década de 70]. A partir de 2006 nós seremos auto-suficientes na produção de petróleo. Esse é um elemento importantíssimo, porque faz com que a produção nacional tenha certa autonomia das flutuações do mercado internacional.

Folha - Mas nós temos que importar diesel.
Gabrielli - Temos que importar diesel por limitação de refino. Até 2010, 90% da nossa matéria-prima deve ser petróleo brasileiro e, além disso, estamos aumentando as exportações. Na medida em que crescem nossas exportações, vamos criar uma situação em que os preços altos aumentam a rentabilidade da Petrobras sem afetar fortemente a economia.

Folha - E os preços internos? A Petrobras não deveria ter reajustado?
Gabrielli - A Petrobras está acompanhando o preço no mercado internacional e no momento em que acharmos que está caracterizado um patamar relativamente estável será feito o ajuste.

Folha -Quando chega esse patamar? A impressão que dá é que a Petrobras não está reajustando porque, se tivesse que fazer um reajuste, seria muito alto.
Gabrielli - A Petrobras vai fazer um ajuste que for adequado para o mercado dela. Não podemos manter o preço doméstico complemente descolado do preço internacional. Mas temos que ter cuidado, temos que ter uma calibragem nesse ajuste interno em razão de objetivos empresariais.

Folha - Ou seja, vai haver ajuste, a Petrobras só está aguardando o momento.
Gabrielli - Nós estamos observando os preços, que estão com muita volatilidade ainda. À medida que acharmos que podemos caracterizar um certo nível, temos que ajustar [o preço]. Eu não tenho dúvidas disso.
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