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Portas abertas para a energia do agronegócio

O biodiesel é quem deve ser o protagonista do período de transição entre a era do petróleo e a próxima , especialmente por apresentar a possibilidade de adaptação aos motores hoje vigentes. Ainda assim, a cana volta a aparecer como forte beneficiada, pois na produção de qualquer biodiesel é necessária a mistura de 10% de etanol ao óleo vegetal utilizado. Há o risco de até mesmo o Brasil não conseguir aproveitar todo o mercado que se abrirá.
Revista Agrinova – Ano 5 – Nº 50 – Agosto 2005 - Tatiana Freitas 10 min de leitura
Nos últimos meses, um movimento de substituição de terras de pastagens por lavouras de cana-de-açúcar ganhou força em São Paulo. Grupos que tinham a pecuária como carro-chefe de seus negócios no Estado estão transportado o gado para regiões mais afastadas, liberando áreas no Sudeste para ampliação de seus negócios em açúcar e álcool. Esse é o caso da CFM Agropecuária, que está aumentando a área de plantio de cana no município de Guaraci, onde construiu uma usina. A CFM também tem planos para a expansão da área de cana na fazenda de Pontes Gestal, cidade próxima a Votuporanga, onde deve duplicar a produção, atualmente em 1,7 milhão de toneladas, no período de cinco anos. “Somos fornecedores há 30 anos. Agora queremos sair do setor primário para o industrial”, afirma o coordenador de agricultura do grupo, Geraldo Martins.

A queda no preço do boi gordo tem contribuído para o aumento da área plantada de cana em São Paulo, mas não é só isso o que leva as empresas a substituir pasto por cana-de-açúcar. A estratégia é de longo prazo. Segundo Martins, a CFM traçou essa linha de investimento no setor há cerca de cinco anos, após a assinatura do Protocolo de Quioto. “A alta do petróleo só fortalece a nossa visão de que o agronegócio não produz só alimentos, mas também energia”, afirma. E é com foco na produção de energia que outros 25 projetos de construção de usinas foram iniciados na região de Presidente Prudente e Araçatuba, onde ainda há o espaço para o crescimento da área plantada. Para os produtores, o novo patamar do preço do petróleo abre portas para o álcool.

Poucos analistas prevêem o retorno do preço do barril para uma cotação inferior a US$ 50, depois do recorde de US$ 61,28 alcançado em julho. Há o temor de que a produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) não será suficiente para atender as projeções de demanda para os próximos dez a 15 anos. Considerando os preços de hoje, para responder ao aumento da procura seria preciso aumentar a produção mundial em 50 milhões de barris por dia até 2020, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o que seria praticamente impossível. Segundo a Arábia Saudita, existe uma lacuna de 4,5 milhões de barris por dia entre a demanda projetada e o que o país calcula que terá capacidade de oferecer. As projeções para o preço do barril são muito divergentes, mas já há quem aposte em uma cotação entre US$ 90 e US$ 100.

Enquanto ganham força as projeções pessimistas para o mercado de óleo cru, cresce a busca por fontes alternativas de energia. Com a perspectiva de escassez de matéria-prima, procura-se uma nova commodity para o século XXI. “Estamos terminando a era do petróleo como imperador da humanidade. Ainda não sabemos qual será a nova célula de energia. Pode ser o hidrogênio, mas isso demora muito para ser implementado. É preciso criar uma ponte entre uma e a outra era”, afirma o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Roberto Rodrigues.

Em um primeiro momento, o álcool aparece como válvula de escape. No Brasil, os veículos “flex fuel” já são mais da metade do total comercializado, podendo chegar a 80% dos automóveis zero quilometro no início do segundo semestre de 2006. O potencial de crescimento é enorme. Hoje, o álcool tem participação de apenas 3,5% no mercado de combustíveis veiculares no Brasil, ante 57,7% de óleo diesel e 36,6% da gasolina. Segundo Eduardo Carvalho, presidente da União das Industrias Canavieiras (Única), a produção brasileira deve passar dos atuais 16 bilhões de litros para 27 bilhões de litros em cinco anos, o que deve elevar a participação do etanol na matriz de combustíveis brasileira. A previsão para as exportações é de 5,5 bilhões de litros no mesmo período, ante os 2,4 bilhões exportados atualmente.

Mas o biodiesel é quem deve ser o protagonista do período de transição entre a era do petróleo e a próxima , especialmente por apresentar a possibilidade de adaptação aos motores hoje vigentes. Ainda assim, a cana volta a aparecer como forte beneficiada, pois na produção de qualquer biodiesel é necessária a mistura de 10% de etanol ao óleo vegetal utilizado. Há o risco de até mesmo o Brasil não conseguir aproveitar todo o mercado que se abrirá. Segundo Luiz Guilherme Zancaner, presidente das Usinas e Destilarias do Oeste Paulista (UDOP), os novos projetos ainda não serão suficientes para responder à demanda do biodiesel. “Essas novas unidades são voltadas para o mercado interno”, afirma. O foco, por enquanto, está no consumidor local. “Se conseguimos manter o preço do álcool competitivo, continuaremos voltados ao mercado interno. A demanda pr etanol no mundo vai se expandir mais para frente”, acredita o presidente da Única.

Para os produtores de cana, a produção de biodiesel será alavancada somente quando mistura de biodiesel ao diesel for determinada por lei. No Brasil, a obrigatoriedade da mistura em 2% começa a partir de 2008, o que representa um mercado de 1 bilhão de litros por ano, segundo cálculo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). A partir de 2013, o nível mínimo estipulado para a mistura será de 5% (2,4 bilhões de litros por ano) e, em 2020, ela chegará a 20%. Na União Européia, neste ano, 2% dos combustíveis consumidos precisam ser renováveis e, em 2010, a participação deverá ser de 5,75%. Assim, a região lidera a produção mundial de biodiesel, com mais de 1,9 milhão de toneladas no ano passado. Mas os países que compõem o bloco apresentam escassez de terras para aumentar a produção de óleos vegetais, o que abre uma janela de oportunidades para o Brasil. De acordo com a Abiove, somos o único país no mundo com grande capacidade de expandir sua produção de oleaginosas, com 90 milhões de hectares disponíveis na região do cerrado.

Segundo o presidente da Comissão de Biodiesel da associação, Juan Diego Ferres, a soja deve ser o primeiro beneficiado desse movimento. Para ele, a única forma de alavancar o programa de biodiesel é começar pelo óleo de soja, devido aos ganhos de escala que a cultura apresenta em relação a outras oleaginosas. “O Brasil já tem um excedente de óleo de soja sendo produzido, que poderia ser direcionado para a produção de biodiesel”, ressalta. O rendimento energético da soja, no entanto, é o menor entre outras oleaginosas que podem ser utilizadas na fabricação de biodiesel. Enquanto a soja produz, em média, 500 litros de óleo por hectare, a mamona produz mil litros de óleo para a mesma área e a palma africana (dendê), 6 mil litros. “Mas todas as culturas, com exceção da soja, são diminutas em termos de escala produtiva”, afirma.

O coordenador do Projeto Biodiesel Brasil, da Universidade de São Paulo, Miguel Dabdoub, também aponta as culturas de ciclo curto como a soja e o girassol, como as primeiras beneficiadas pela troca do petróleo pelo biodiesel. “A palma demora quatro anos para começar a produzir o fruto de seis anos para atingir rentabilidade”, afirma. No longo prazo, no entanto, a aposta de Dabdoub é no dendê. “Com cinco milhões de hectares de palma, não precisaríamos colocar uma gota de diesel nos nossos veículos”, diz. Hoje, a área plantada com palmeiras no território brasileiro é de 60 mil hectares, com potencial de crescimento nas regiões norte e nordeste. Segundo Dabdoub, alem do maior rendimento energético, o dendê apresenta o menor custo de produção. Ferrés, por sua vez, aponta uma desvantagem na palma: ela se adapta a poucas regiões do país, apresentando alta sensibilidade ao frio.

A produção de palma se concentra na Bahia e no Pará, onde já há interesse pela produção de biodiesel. A Agropalma, que possui 32 mil hectares de palmeiras no Norte do país, começa a olhar o óleo como uma fonte energética, não apenas como matéria-prima para a produção de alguns alimentos. Em abril, a empresa inaugurou uma usina que produzirá três milhões de litros de combustível a partir dos resíduos do refino do óleo de palma, que substituirão o diesel convencional utilizado pela companhia. O excedente será comercializado no exterior.

Segundo o diretor comercial da empresa, Marcelo Britto, o empenho na produção de biodiesel só não é maior pela falta de incentivos. A principal dificuldade estaria na comercialização. “Você vê os produtores se movimentando, mas não vê nenhum movimento pelo lado do comprador. De todas as distribuidoras de combustíveis presentes no Brasil, apenas a BR Distribuidora e a Ale Petróleo se interessaram pela distribuição de biodiesel da Agropalma. Além disso, o preço pago pelo biodiesel no mercado interno é o mesmo pago pelo diesel. Por isso damos preferência ao mercado externo, que oferece rentabilidade maior”, afirma.

Mas não é somente pela mudança no mercado dos combustíveis que o agronegócio deve ganhar com o fim da era do petróleo. Para a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), o encarecimento das fibras sintéticas pode elevar a demanda por fibras naturais. Segundo o diretor-executivo da Associação Brasileira de Produtores de Fibras Artificiais e Sintéticas (Abrafas), José Eduardo Cintra, o petróleo é responsável por, no mínimo, 50% dos custos de produção da fibra sintética, ou seja, qualquer variação mais brusca no preço da commodity afeta em cheio o preço de venda, o que influencia diretamente o nível de consumo. “O algodão já está com um preço baixo. Qualquer incremento de preços que ocorra nas fibras químicas beneficia ainda mais a fibra natural”, afirma. Ele ressalta, no entanto, que as fibras sintéticas já teriam um espaço cativo na indústria têxtil, por oferecer componentes que estão associados ao prazer pessoal e à moda, como texturas e cores diferenciadas. “ Vemos a incorporação da tecnologia da tecnologia na industria têxtil, o que não nos desanima”, diz.

Mas o mercado de algodão também pode ser beneficiado por outro movimento. Com a escassez do petróleo e a necessidade de aumentar a produção de combustíveis alternativos, os Estados Unidos podem substituir áreas plantadas de algodão por milho, para a produção de álcool. Segundo projeção da Agroconsult, a área plantada de milho deve crescer 1,5% ao ano no território norte-americano, durante os próximos dez anos. Considerando que o país praticamente não possui áreas agrícolas inexploradas, deve haver substituição de cultura. E o algodão seria um dos escolhidos para dar lugar ao grão, o que pode contribuir para o aumento das exportações da pluma brasileira.
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