...gordura é mais barato do que soja, mas custa mais caro processá-la. A gordura animal...
Milhões de americanos tentam evitar a gordura, mas não Jason Christensen. Ele procura por ela todos os dias – seja gordura de porco, de vaca, frango ou mesmo de batata frita.
Comerciante de uma empresa chamada Agri-Trading, cerca de 100 quilômetros a oeste de Minneapolis, no Estado de Minnesota, Christensen quer muita gordura – 1 milhão de libras, na verdade (3,7 toneladas).
A alta dos preços do milho para ração, abastecida pela crescente produção de etanol, está fazendo os produtores de matérias-primas suplementarem a dieta de suas criações com gordura. Gordura e sebo também podem ser usados para fazer biodiesel, o que pode ser mais barato do que fabricar o combustível com óleo de soja. “Quando você atrela comida e combustível, cria inflação e afeta diferentes segmentos da economia que as pessoas nunca imaginaram”, diz Christensen.
Pelo menos duas usinas em Iowa começaram a fabricar biodiesel de gordura animal, ao lado de pelo menos outras cinco indústrias em outros estados, de acordo com a National Biodiesel Board (NBB). Uma dúzia usam sebo ou óleo de cozinha reciclado. Outras 65 em todo o país têm potencial para usar gordura ou sebo, apesar de não se saber quantas realmente o fazem.
Quanta gordura é necessária para fazer biodiesel?
É preciso de 7,5 a 8 libras (2, 7 a 2,9 quilos) de gordura para fazer um galão (3,8 litros) de biodiesel 100%.
Ração mais gordura resulta em comida mais gordurosa?
Provavelmente não, de acordo como John Lawrence, professor de economia
da Iowa State University. A gordura animal é usada principalmente em
rações para porcos e aves e o aumento de gordura na ração é marginal,
de 1 a 2%. Isso teria pouco efeito no produto final, a carne, diz ele.
“O preço do óleo e dos biocombustíveis, o preço do milho, da soja, todas essas coisas estão relacionadas”, diz David Meeker, vice-presidente da National Renderers Association, que reúne empresas de processamento de gordura. "Estamos animados por ter outro Mercado. O futuro parece brilhante para a nossa indústria.”
No último ano, o preço da gordura animal – também chamada de sebo amarelo – quase dobrou. Um exemplo é a gordura de carne bovina, que foi de 15 centavos de dólar para 30 centavos a libra (370 g) por causa do aumento da demanda.
Quando Christensen entrou no negócio há oito anos, ele vendeu um caminhão com 46 mil libras de gordura de porco (1,7 tonelada) por US$ 2.300. Hoje, isso vale US$ 11.500. “É bastante dramático”, diz John Lawrence, professor de economia da Iowa State University sobre o crescimento.
Em Iowa, as fazendas de porco, as instalações para embalagem de carne e as usinas de biodiesel fazem o Estado ser ao mesmo tempo fornecedor e consumidor de gordura animal. Christensen diz que os donos das fábricas processadoras de gordura de Iowa vão notar a pressão da demanda sobre o preço em seus balanços. “Para eles, isso é definitivamente um aspecto positivo porque o valor do subproduto potencialmente terá dobrado ou triplicado,” diz ele.
Efeito nos preços da carne
A Darling International, a maior empresa processadora de gordura do país, viu suas vendas atingirem US$ 300 milhões nos seis primeiros meses de 2007, quase o dobro do primeiro semestre do ano passado. A empresa baseada no Texas comprou a National By-Products, outra empresa do ramo em 2006.A Darling tem 44 instalações em todo o país, incluindo quatro plantas em Iowa, das quais três produzem gordura animal. “Você pode atribuir parte do crescimento ao biodiesel e parte ao preço da ração”, diz o porta-voz da Darling Ross Hamilton. "É só uma combinação de fatores.” O preço borbulhante da banha animal também pode ser uma pequena maneira de sitiantes, criadores de porcos e de aves beneficiarem-se dos biocombustíveis.
John Lawrence, professor de economia da Iowa State University, diz acreditar que o preço mais alto da gordura “é uma demanda que chegou para ficar”. Mas encontrar um fornecimento estável continua a ser um desafio para aqueles que a utilizam.
O aumento da demanda por gordura no mundo todo – incluindo a produção crescente de biodiesel na Europa – resultou em escassez dessa matéria-prima. “Temos mais demanda do que oferta”, diz Meeker.
Números
Empresas processadoras de gordura produzem 11 bilhões de libras (3,7
milhões de toneladas) de gordura por ano. Isso é suficiente para encher
16.600 piscinas olímpicas.
Essa gordura animal vem de 54 bilhões de libras (22,2 milhões de
toneladas) de matéria-prima animal, o que inclui couro, ossos, pêlo,
restos e qualquer coisa que não vai para a carne vendida no
supermercado.
O número de indústrias de processamento de gordura caiu de 823 in 1921 para 273 em 2006.
De acordo com o U.S. Census Bureau, a California é o Estado com o maior
número de indústrias de processamento de gordura. Há 23 produtores no
Estado.
Fazendeiros não engordarão porcos e frigoríficos não abaterão mais bois só para ter mais gordura, dizem os especialistas. Christensen diz já ter observado que os consumidores tradicionais de gordura, de indústrias químicas a criadores de animais, estão apertando as rédeas em uma já magra commodity. Então, as usinas de biodiesel não deveriam esperar que sua demanda encontrará fornecimento, mesmo que os preços subam, ele acrescenta.
Derek Winkel, gerente geral da Central Iowa Energy, diz que a empresa começou a fazer biodiesel com gordura animal em junho. Segundo ele, a empresa precisa ser flexível – usando gordura, óleo de soja e outras matérias-primas à medida em que elas estejam disponíveis – por causa da variação dos preços.
Processadores de gordura que construíram suas plantas de combustível, ou formaram parcerias nas quais controlam a produção de gordura e combustível, provavelmente vão se dar melhor porque eles podem gerenciar a oferta e a qualidade, diz Christensen.
A Griffin Industries, uma processadora perto de Cincinnati, construiu a própria usina de biodiesel em 1997 como uma forma de criar um novo mercado para sua gordura e sebo, diz Rick Geise, diretor de marketing. A usina produz 7,8 milhões de litros de biodiesel anualmente, o que ajuda a empresa a diversificar suas operações. A Griffin não expande sua produção por causa da incerteza do Mercado, diz ele. “A maior parte das operações de biodiesel estão operando, na melhor das hipóteses, no break-even" diz Geise. "Não é bem o caso de se ficar animado."
Em uma escala maior, a Tyson, empresa de processamento de carne, recentemente firmou sociedades com a petrolífera ConocoPhillips, a Syntroleum, e Tulsa, Okla., empresa de tecnologia de combustíveis, para produzir juntas 950 milhões de litros de biodiesel por ano. Uma vez atingida sua capacidade máxima, a Tyson poderia encaminhar metade de sua gordura para o projeto de biodiesel com a ConocoPhillips. A Tyson vai usar gordura e outras fontes variadas, incluindo matérias-primas de fora da empresa, para o projeto com a Syntroleum.
O diesel renovável é similar ao biodiesel, mas é feito por meio de diferentes processos. A National Biodiesel Board tem criticado esse combustível, dizendo que ele não beneficia o meio ambiente e a economia como o biodiesel.
Fazendeiros lucram, o ar fica mais limpo
A Tyson vai usar de 50 a 60% de sua gordura em combustíveis renováveis, e ainda vender gordura para seis usinas de biodiesel, diz Bob Ames, diretor-sênior de comercialização. A empresa, sediada no Arkansas, tem dez endereços em Iowa, cinco dos quais fazem processamento de gordura.Ames diz que usar gordura animal no diesel renovável ajuda a limpar o ar enquanto gera lucro para os fazendeiros. À medida em que os animais crescem, eles “consomem carbono” do ar e, então, sua gordura é usada para fazer um combustível limpo, diz ele. “É uma espantosa história de reciclagem”, afirma.
Ames e outros dizem que usar gordura para fazer combustível, seja diesel renovável ou biodiesel, inclui os criadores de animais no boom dos biocombustíveis. Associações de criadores têm criticado o etanol porque combustíveis derivados de milho contribuíram para o aumento do preço da ração de milho.
Mas o preço mais alto da gordura aumenta a quantidade de dinheiro que os fazendeiros conseguem por seus animais, cerca de US$ 25 por um bezerro, de acordo com algumas estimativas. “Provavelmente isso não guiará o mercado da mesma forma que a demanda por carne faz, mas pode ajudar a manter os preços fortes em um momento em que estamos enfrentando altos custos de operação”, diz Joe Schuele, porta-voz da National Cattlemen's Beef Association (Associação Nacional de Produtores de Gado de Corte).
Ladrões de sebo
Ladrões de sebo estão agindo em algumas partes dos Estados Unidos. Pessoas que fazem biodiesel em casa à vezes roubam o sebo de restaurantes que têm contratos com empresas processadoras de gordura para coletar o produto. Notícias de roubos do tipo aumentaram depois que o sebo tornou-se valioso, dizem representantes da indústria.Pelo menos uma empresa processadora de gordura contratou detetives para combater os gatunos que roubam sebo de contêineres lacrados. Alguns caçadores de sebo chegam a usar caminhões tambores de 209 litros, diz Rick Geise, diretor de marketing da Griffin Industries. “Esses bandoleiros do sebo cortam os cadeados”, acusa Geise. “Há dano à propriedade, roubo de produto e isso cria uma grande frustração em empresas como a nossa.”
Às vezes, cidadãos pegam o sebo sem saber que estão roubando. Eles podem, por exemplo, pedir a um funcionário do turno da noite que não sabe da existência do contrato com a empresa processadora para deixá-los levar um ou dois baldes.
David Meeker, vice-presidente da National Renderers Association, diz que se irrita com pessoas que acham ser uma grande idéia pegar o sebo usado para fabricar o próprio biodiesel. “Eles na verdade estão roubando o sebo dos membros da associação”, afirma.
Enchendo o tanque com sebo
Gordura é mais barato do que soja, mas custa mais caro processá-la. A gordura animal e o sebo têm mais dos chamados ácidos graxos livres, que precisam ser removidos para fazer biodiesel de boa qualidade.Um galão de biodiesel (3,8 litros) requer cerca de US$ 3 de óleo de soja, contra US$ 1,70 de sebo vindo de um restaurante ou gordura de frango, ou US$ 2,40 de gordura de porco ou carne bovina.
Transformar óleos vegetais em gordura custa de 39 a 59 centavos de dólar por galão, comparado a 61 a 81 centavos por galão de gordura e sebo (preços do final de setembro), diz Alan Weber, consultor de tecnologia da National Biodiesel Board.
Usinas que utilizam gordura animal conseguem o mesmo US$ 1 por galão de desconto em impostos que aquelas que usam óleo de soja. O sebo vindo de restaurantes recebe 50 centavos de dólar por galão de subsídio.
De velas a lápis de cera
Apesar de muita gente associar processamento de gordura com odores desagradáveis, a indústria da gordura animal tem um lugar importante na história. O sebo era uma commodity valiosa nos anos 1700 e 1800 por pioneiros que o usavam para fazer velas, antes da descoberta da eletricidade.Há quem use a gordura para fazer sabão, o que é hoje feito com detergentes, óleos de plantas e ingredientes sintéticos. A Turquia e a Rússia ainda compram gordura dos Estados Unidos para fabricar sabonetes.
A banha já foi muito usada na cozinha. Agora, essa gordura que entope as artérias entra na composição de loções e cosméticos. A gordura animal também é usada em ração para criações e bichos de estimação, borracha, lápis de cera e em produtos químicos.
Nos anos 90, o mercado de rações foi atingido por preocupações por causa do Mal da Vaca Louca, também chamada de encefalopatia espongiforme bovina. Depois disso, leis federais limitaram a quantidade de partes de animais processadas que podiam entrar na composição de rações. Muitos países, incluindo a União Européia, baniram importações de derivados de proteína animal dos Estados Unidos, incluindo a gordura.
A União Européia acabou com a proibição no ano passado à luz da crescente demanda por biodiesel. Hoje, cerca de 30% do sebo não comestível, ou gordura de carne bovina, é exportado, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, e o aumento da demanda global está gerando escassez de gordura.
Paula Lavigne
DesMoinesRegister.com
Tradução: Raquel Marçal - BiodieselBR.com