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Demanda por biodiesel anima pequeno produtor

A demanda por oleaginosas que servem de matéria-prima ao biodiesel vem sendo engrossada tanto pelo capital privado quanto pela esfera pública.
Valor Econômico 5 min de leitura
Depois de fazer da fruticultura irrigada um dos maiores negócios do semi-árido nordestino, o Vale do Rio São Francisco começa a abrir novas perspectivas para a agricultura. Desta vez, a coqueluche é o biodiesel. Em apenas dois anos, a área dedicada ao cultivo de oleaginosas visando a produção do combustível verde saltou de 500 hectares para 1.800 hectares, segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Em 2006, dos 840 milhões de litros vendidos nos quatro leilões de biodiesel realizados pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), 319 milhões de litros vieram do Nordeste.

A demanda por oleaginosas que servem de matéria-prima ao biodiesel vem sendo engrossada tanto pelo capital privado quanto pela esfera pública. O destaque ainda é a mamona, mas outras culturas, como o pinhão-manso, começam a ganhar espaço. Independente da variedade, a corrida pelo biodiesel, segundo os investidores, tem tudo para gerar impactos positivos na agricultura familiar. Só a Petrobras está investindo R$ 227 milhões na construção de três usinas, o que deverá beneficiar, segundo cálculos da estatal, cerca de 70 mil famílias de pequenos produtores.

"O projeto da Petrobras terá impacto direto no Vale do São Francisco", acredita o diretor de infra-estrutura e irrigação da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), Clementino Coelho. "A Petrobras tem interesse em estimular a agricultura familiar na região e está atuando nesse sentido", garante o gerente executivo de desenvolvimento energético da Petrobras, Mozart Schmitt de Queiroz. Segundo ele, a estatal já assinou protocolo de cooperação com o governo do Estado da Bahia e com a Codevasf. "O objetivo é estimular a cadeia produtiva de oleaginosas para o suprimento das plantas de biodiesel", revela.

Os contratos para a construção das três plantas de biodiesel da Petrobras em Candeias (BA), Montes Claros (MG) e Quixadá (CE) foram assinados ao final de 2006. A Intecnial S.A, empresa vencedora da licitação para implantar as unidades, está em fase final de detalhamento do projeto. A previsão é de que as obras sejam iniciadas em fevereiro. O início da produção está previsto para o final de 2007. Cada unidade terá capacidade para produzir, em média, 50 mil toneladas de biocombustível por ano.

"Nossa proposta é contribuir para o fortalecimento dos agricultores e suas cooperativas, estimulando o aumento da produção e da produtividade de mamona, algodão e dendê, diz Queiroz. Futuramente, outras oleaginosas, como girassol, amendoim e pinhão-manso também serão incentivadas. Segundo ele, a empresa irá priorizar matéria-prima produzida pela agricultura familiar na quantidade necessária à obtenção do Selo Combustível Social, concedido pelo Programa Nacional do Biodiesel.

No momento, segundo Queiroz, a estatal está analisando diversas regiões para o desenvolvimento de oleaginosas, levando em conta as condições naturais e a logística adequada. A Codevasf, por sua vez, se comprometeu a montar uma unidade piloto de esmagamento em uma das regiões do Vale do São Francisco com potencial para a produção de mamona. O Banco do Brasil e o Banco do Nordeste do Brasil também firmaram termo de cooperação com a Petrobras garantindo o financiamento da cadeia produtiva. Já a Embrapa e outros órgãos de desenvolvimento, como a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) da Bahia, estão contribuindo com a tecnologia agrícola.

A iniciativa privada também começa a voltar sua atenção para as áreas irrigadas da região. A Biodiesel do Vale do São Francisco (Biovasf), sediada em Petrolina, está investindo R$ 90 milhões numa unidade que em dois anos terá capacidade para esmagar 300 mil toneladas, o que deverá gerar cerca de 100 milhões de litros de biodiesel por ano. Para garantir a matéria-prima, a empresa cultivará, numa primeira etapa, 30 mil hectares de soja. "O objetivo, porém, é substituir essa cultura pelo pinhão-manso, que apresenta ótimos resultados", diz o presidente da empresa, Marcos Nascimento.

Ligada ao grupo português HLC, que atua no ramo de biodiesel na Europa, a Biovasf pretende comercializar o produto no Brasil e no exterior. Segundo Nascimento, os primeiros contratos já estão sendo negociados com o mercado europeu.

Além de reservar uma área para cultivo próprio do pinhão- manso, a Biovasf planeja parcerias com pequenos produtores. "As perspectivas do agronegócio voltado para o biodiesel na região são excelentes", afirma Nascimento. "Temos clima, terra e água", completa. Mesmo assim, ele diz que o governo precisa investir mais em infra-estrutura. "Uma reivindicação antiga dos produtores é a implantação da hidrovia do São Francisco", pondera Nascimento.

Animados pela demanda, pequenos produtores enxergam no combustível verde a chance de melhorar de vida. "A região tem tudo para ser um pólo nacional de matéria-prima para biodiesel", diz o pesquisador da Embrapa Semi-Árido, Marcos Drumond. Segundo ele, o número de pequenos produtores que passaram a cultivar oleaginosas saltou de 20 para 60 nos últimos dois anos. Boa parte desse incremento foi motivado pelas parcerias estabelecidas com a Brasil Ecodiesel, líder na produção de biodiesel no Brasil e principal fornecedor do produto para a Petrobras. A empresa oferece as sementes de mamona, ferramentas, assistência técnica e garantia de preço de compra, que pode variar entre R$ 0,55 e R$ 0,70, dependendo da produtividade. "É um bom negócio, desde que o governo ofereça condições para manter o preço estabilizado", observa Drumond. "Mas se não houver um programa sério, o produtor corre o risco de não obter retorno", conclui.

Clayton Levy
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