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Biodiesel: País em busca de uma opção de combustível

A produção de plantas oleaginosas poderá ganhar uma importância inédita no País, com a implantação do Programa Nacional de Biodiesel. A proposta federal prevê a adição crescente de óleos de origem vegetal ao diesel, até chegar à proporção de 5% em 2012. A mistura reduzirá o consumo de combustível fóssil, contribuindo para a auto-suficiência brasileira no setor de petróleo e para a diminuição dos danos ambientais causados pela queima do produto de origem mineral. A UNESP reúne várias pesquisas voltadas para alternativas de biodiesel, que vão de testes com tratores a estudos sobre o potencial de uso e melhoria das culturas de nabo-forrageiro, mamona, girassol e nabiça.
Portal Unesp - Universidade Estadual Paulista - Julio Zanella 11 min de leitura
A produção de plantas oleaginosas poderá ganhar uma importância inédita no País, com a implantação do Programa Nacional de Biodiesel. A proposta federal prevê a adição crescente de óleos de origem vegetal ao diesel, até chegar à proporção de 5% em 2012. A mistura reduzirá o consumo de combustível fóssil, contribuindo para a auto-suficiência brasileira no setor de petróleo e para a diminuição dos danos ambientais causados pela queima do produto de origem mineral. A UNESP reúne várias pesquisas voltadas para alternativas de biodiesel, que vão de testes com tratores a estudos sobre o potencial de uso e melhoria das culturas de nabo-forrageiro, mamona, girassol e nabiça.

No caso dos tratores, uma equipe do campus de Jaboticabal está analisando o desempenho de veículos movidos a biodiesel, numa parceria com o Ladetel (Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas), da USP de Ribeirão Preto. Os primeiros resultados indicam que a adição dos produtos de origem vegetal ao diesel em até 50% não produz alterações significativas no funcionamento dos tratores. “Isso confirma a viabilidade econômica da utilização desse combustível no campo”, anuncia o engenheiro agrícola Afonso Lopes, docente da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) e coordenador da pesquisa na UNESP. “Além disso, a mistura diminui em mais de 60% a emissão de poluentes na atmosfera.”

No trabalho, foram analisados itens como velocidade, potência, rotação do motor e tração em um trator da marca Valtra. Para o coordenador do Ladetel, Miguel Dabdoub, os resultados obtidos na UNESP são fundamentais para a avaliação do uso do biocombustível no âmbito rural. Outro aspecto significativo dessa iniciativa é que os dados colhidos serão utilizados na validação do uso de biodiesel em tratores pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).

Mais recursos

No Ladetel, são testados óleos de plantas como nabo-forrageiro, girassol e mamona. Por enquanto, segundo Dabdoub, os resultados menos expressivos, em termos de desempenho do veículo, foram apresentados pela mamona, por causa de sua alta viscosidade, que faz com que o funcionamento do motor fique abaixo do padrão desejável. “Quanto menor a viscosidade do óleo, maior a rotação do motor”, explica.

A próxima etapa envolve testes com óleo de sementes de soja e nabo-forrageiro, com recursos de R$ 500 mil advindos de um acordo firmado em maio entre UNESP, USP e as empresas Valtra, Delphi, Coopercitrus, Usina de Catanduva e Texaco. O objetivo é o lançamento de um trator com motor que utiliza até 20% de óleo vegetal misturado ao diesel.

As análises serão feitas em dois veículos, que vão rodar 4 mil horas no período de um ano. “Vamos avaliar o impacto do novo produto para o funcionamento e longevidade do motor”, informa Lopes, professor do Departamento de Engenharia Rural da FCAV. Ele enfatiza que as investigações nessa área devem ter como preocupação básica a obtenção de um biocombustível de qualidade. “O sucesso do programa governamental vai depender da pureza do produto”, adverte.

Rogério Zanotto, coordenador de Marketing da Valtra – pioneira em uso de biodiesel em tratores no Brasil –, revela que o grande interesse dos clientes sobre esse tipo de combustível motivou o investimento na tecnologia. “Acreditamos no crescimento desse produto como uma alternativa menos poluente”, comenta.

Estudo do nabo-forrageiro

Um relatório da Agência Norte-americana para o Biodiesel divulgado este ano coloca o Brasil como a nação com o maior potencial de produção dessa substância. Das 50 plantas associadas à extração de óleo, 40 são cultivadas no País. Entre elas, o órgão destaca a palma, a mamona, o coco-da-baía, o girassol, a soja e o nabo-forrageiro. O desafio, segundo os especialistas, é aumentar a produtividade e diversificar as culturas, de acordo com as condições climáticas e de solo das diferentes regiões.

Desde 2002, pesquisadores da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), campus de Botucatu, realizam pesquisas com nabo-forrageiro, num trabalho conjunto com técnicos do Centro de Testes do DSMM/Cati (Departamento de Sementes, Mudas e Matrizes da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral), da SAA (Secretaria de Agricultura e Abastecimento) do Estado de São Paulo.

Segundo o engenheiro agrônomo Mauricio Zanotto, a planta, tradicionalmente usada para alimentação animal, adapta-se ao plantio de entressafra da soja. Essa associação seria possível por causa do ciclo médio de 130 dias apresentado pelo nabo-forrageiro, entre a semeadura e a colheita – menor do que o de outras espécies alternativas para fabricação do biocombustível. “No futuro, as sementes poderão ser colhidas e o óleo, destinado à produção de biodiesel”, prevê.

De acordo com Rogério de Sá, o nabo-forrageiro não requer muito preparo do solo. “Além de ser resistente a doenças e pragas, ele se adapta bem ao clima frio”, argumenta. Sob a orientação de Zanotto, Sá realizou uma dissertação de mestrado identificando as variações genéticas da cultura e buscando, por meio do melhoramento genético, as melhores plantas para produção de biodiesel. Ele também enfatiza que a altura média das plantas – pouco abaixo de 1 metro – é adequada para a mecanização da colheita. Embora o teor de óleo extraído registre uma média de 35% em relação ao peso da semente, inferior ao de outras culturas, esse vegetal ganha pontos por sua baixa viscosidade, que garante melhor desempenho do motor.

As pesquisas também concluíram que o nabo-forrageiro pode atingir produtividade próxima à de outras plantas utilizadas como óleo combustível. Hoje, o rendimento médio é de 500 quilos de grãos por hectare. Com melhoramento genético – a próxima fase do estudo de Sá –, é possível que esse volume seja triplicado.

Mamona melhorada

A equipe coordenada por Zanotto também desenvolve estudos com a mamona. “A grande vantagem dessa oleaginosa é a possibilidade de ser plantada em praticamente todo o País, enquanto o nabo-forrageiro, por exemplo, é indicado mais para o clima frio e úmido da Região Sul”, diz o engenheiro agrônomo.

Outra característica destacada pelo docente é a produtividade da planta. Em condições como as do Estado de São Paulo, a mamona rende em média entre 1 e 2 toneladas de grãos por hectare, produção cinco vezes maior que a média do nabo-forrageiro, por exemplo. “Essa cultura está sendo valorizada também por causa da questão social, já que 90% da produção está no Nordeste”, esclarece. “Além disso, o teor de óleo é elevado, representando quase metade do peso da semente.”

A pesquisa da FCA dá ênfase à obtenção de variedades – naturais e híbridas – com ciclo de produção de 130 dias e alto teor de óleo, além de plantas com porte baixo, um aspecto importante para a mecanização da colheita. Zanotto reconhece o problema representado pela alta viscosidade do óleo desse vegetal, mas ressalva que aperfeiçoamentos tecnológicos poderão alterar tal característica.

Novidade: a nabiça

Investigações feitas por outra equipe da FCA de Botucatu introduziram uma nova opção de biocombustível no “cardápio” brasileiro: a nabiça, utilizada como adubo natural em plantações de milho durante o inverno. “O objetivo inicial do nosso trabalho era estudar a viabilidade da planta como cobertura vegetal nas regiões de inverno seco, mas, observando a extração do óleo, passamos a estudar os parâmetros para a sua aplicação no biodiesel”, explica o engenheiro agrônomo Sérgio Hugo Benez, coordenador da pesquisa, ao lado de Carlos Gamero – ambos docentes do Departamento de Engenharia Rural.

O grupo constatou que cerca de 35% do peso da semente da nabiça é formado de óleo, podendo chegar a 41%, segundo a variedade. Foram analisados, ainda, itens como quantidade de semente por metro quadrado, época de semeadura, separação de linhagens e produtividade por área, com resultados muito semelhantes aos do nabo-forrageiro. “Uma característica importante dessa cultura é a fácil adaptação a diferentes solos”, diz Benez, que, além de docente em Botucatu, coordena a Unidade Diferenciada de Registro.

Já o girassol, há cerca de 20 anos, é o objeto dos estudos do professor Rubens Sader, no Departamento de Produção Vegetal do campus de Jaboticabal. “Desde que haja um forte incentivo, o País possui conhecimento tecnológico para produzir a planta em larga escala para biodiesel”, comenta.

Papel das universidades

Entre as vantagens do girassol, Sader destaca o baixo ciclo de reprodução, entre 100 a 130 dias, o processo mecanizado de plantio e colheita, a alta qualidade e a porcentagem do óleo extraído. Em seu trabalho de doutorado na FCAV, a agrônoma Gisele Bonacin constatou que as sementes apresentavam alto teor de óleo, de 34,6%, em média, podendo chegar a 50%.

No Brasil, as safras dessa cultura aumentam a cada ano. No entanto, segundo Gisele, a produtividade ainda é baixa. Com o desenvolvimento de novas variedades, híbridos mais produtivos e resistentes e melhora da adubação – estudos promovidos pela equipe coordenada por Sader –, a expectativa é que a produção média nacional, de 1 tonelada de grãos por hectare, cresça cerca de 80%. “A maior parte do território brasileiro é apta para o cultivo do girassol, como opção na rotação e sucessão de culturas”, acrescenta Gisele.

Secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério de Ciência e Tecnologia, Francelino de Miranda Grando enfatiza que o governo federal busca incentivar a pesquisa das diversas oleaginosas nas várias regiões do Brasil. Ele ressalta a contribuição das universidades públicas nesse processo: “Um ótimo exemplo disso é a presença recente da UNESP em Registro”, afirma. “Sem a sua existência, não seria possível o estudo e a produção de alternativas energéticas no Vale do Ribeira.”

Programa suscita elogios e críticas

Para cumprir as metas do Programa Nacional do Biodiesel, o País terá que produzir anualmente entre 1,4 bilhão e 2 bilhões de litros de óleo para esse fim – se for levado em conta o consumo atual de cerca de 37 bilhões de litros de diesel por ano. “Hoje, produzimos apenas 30 milhões de litros, muito abaixo do que será necessário daqui a alguns anos”, alerta Palimésio Guerrero, docente da Unidade Diferenciada de Registro. “Por isso, é fundamental buscarmos novas fontes para esse produto.”

A avaliação dos especialistas é que, se o novo modelo se consolidar, aproveitando as características de cada região, poderá revolucionar o setor energético. No entanto, eles apontam problemas, como a indefinição sobre como será garantida a infra-estrutura para transformação do óleo extraído em biocombustível. “Também não estão estabelecidas as incumbências dos órgãos responsáveis pelos diferentes segmentos da cadeia produtiva do biodiesel”, assinala Miguel Dabdoub, coordenador do Ladetel da USP.

Afonso Lopes, do campus da UNESP de Jaboticabal, acentua o aspecto social do programa. “A adoção do biodiesel aumentará a área plantada e, conseqüentemente, os postos de trabalho no País”, diz. Embora considere válida a ênfase dada à agricultura familiar, Lopes acrescenta que é preciso também atrair os grandes produtores. “Apenas com as pequenas propriedades, o programa não se sustenta”, alerta.

Francelino de Miranda Grando, do Ministério de Ciência e Tecnologia, argumenta que a prioridade do programa não é a obtenção de um grande volume de biodiesel, num período relativamente curto. “O motivador inicial das ações está na geração de emprego e renda e na inclusão social advinda da produção de combustíveis alternativos”, afirma. No entanto, Grando ressalta que, conforme o volume de culturas para biodiesel aumentar, o governo estabelecerá mecanismos para garantir a mistura do combustível, controle de qualidade e distribuição do produto.

Iniciativas em Registro

A Unidade Diferenciada de Registro já começa a desenvolver atividades voltadas para o setor de biocombustíveis. Em parceria com a Associação Comercial do município, Palimésio Guerrero, docente da UD, coordena um projeto para transformar em biodiesel as sobras de óleo de soja e girassol dos restaurantes da cidade, que hoje são jogadas nos rios. “Os atuais sistemas de tratamento de esgoto não conseguem tratar esse resíduo”, esclarece. O material será recolhido por um caminhão e levado para o Ladetel, em Ribeirão Preto.

Em junho, na cidade vizinha de Jacupiranga, a UD organizou um seminário sobre as potencialidades do biodiesel no Vale do Ribeira, numa parceria com o governo federal. Com a presença de vários técnicos dos Ministérios de Minas e Energia, Ciência e Tecnologia e da Casa Civil, além da Embrapa e da Cati/SAA, foram debatidas as perspectivas da implantação de um pólo de produção desse tipo de combustível na região. “Além de obtermos mais informações sobre o Programa Nacional do Biodiesel, conhecemos as culturas potenciais que mais se adaptam às condições climáticas da região”, comenta Sérgio Hugo Benez, coordenador executivo da UD.

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