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Biocombustíveis: "Mercado não pode assumir o controle"

Especialista diz que biocombustíveis são a saída para sociedade inclusiva.
O Globo 3 min de leitura
Especialista diz que biocombustíveis são a saída para sociedade inclusiva

Foram anos de pregação ambientalista que não levaram a nada.  Bastou o preço do petróleo subir para novas alternativas energéticas surgirem.  Já se fala até numa Opep do etanol.  O ecossocioeconomista Ignacy Sachs, de passagem pelo Brasil para lançar seu 12ºlivro, acha cedo.  Polonês de nascimento e francês naturalizado, ele é diretor do Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo na École de Sciences Sociales, de Paris.

O Brasil teve uma trajetória de crescimento rápida.  Só que o modelo adotado foi socialmente excludente e ambientalmente insustentável.  O sr.  Acredita que o País pode recuperar o tempo perdido?
 
IGNACY SACHS: Os biocombustíveis são uma janela de oportunidades.  Só que o mercado não pode assumir a liderança desse processo. Precisamos de uma política explícita com critérios claros, que não são apenas a definição de um custo mínimo.  É necessário parâmetros de eficiência energética e critérios ambientais e sociais.  Precisamos usar a expansão dos biocombustíveis para iniciar um novo ciclo de desenvolvimento rural.

Problemas socioambientais, como péssimas condições de trabalho de um lado e denúncias sobre devastação de outro, são os calcanhares de Aquiles das usinas de açúcar e álcool no Brasil.  O sr.  Acredita que as exportações brasileiras podem vir a ser afetadas por isso? 
SACHS: Isso deve ser usado sim como uma barreira comercial.  Não há razão para a expansão das bioenergias se traduzir numa devastação ainda maior das florestas, além de ser inadmissível um país de bóias-frias.  A possibilidade de serem levantadas barreiras comerciais é grande, até porque os países industrializados pregam o livre comércio mas praticam o protecionismo.

Alguns analistas já calculam o tempo de sobrevida do petróleo.  O sr.  Acredita que as bioenergias vieram para substituir definitivamente os combustíveis fósseis? 
SACHS: Vamos conviver ainda por muitas décadas com vários tipos de energia.  O problema não é o esgotamento do petróleo, embora essa questão seja real.  O problema é ambiental.  Felizmente que o preço do petróleo subiu porque assim passaram a levar a sério uma opção energética que já defendemos desde os anos 70.


Já se fala na criação de uma Opep do etanol.  O que o sr.  Acha disso? 
SACHS: É precipitado.  Países como o Brasil deveriam estar preocupados com a cooperação Sul-Sul.  O país tem todas as condições de assumir a liderança internacional, sobretudo porque detém tecnologia que interessa aos países africanos.  O próximo encontro da Unctad, em Gana, será uma ótima oportunidade para discutir formas de organizar os mercados mundiais do etanol e do biodiesel.

É inegável que a consciência socioambiental vem crescendo, mas, esse processo vem ocorrendo acompanhado de medidas práticas? 
SACHS: As idéias andaram para frente e o mundo, para trás.  Há uma corrente de opinião que defende inclusive que temos que abandonar os conceitos porque a situação não melhorou.  Não é quebrando um termômetro que se cura uma febre.  O problema é que houve um desencontro histórico nos últimos anos.  O desenvolvimento includente e sustentável requer um estado anti-neoliberal.

Liana Melo
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