Mesmo depois do reajuste de 11,6% no litro do diesel nas refinarias da Petrobras, válido a partir de sábado (14), e da subvenção econômica anunciada para produto pelo governo na quinta-feira (12), o combustível seguia sendo vendido no Brasil abaixo do mercado internacional na sexta-feira (13). Dados de consultorias compilados pelo Valor indicavam que a defasagem ainda se situava em um intervalo entre 32% e 59% em relação à paridade internacional, dependendo do cálculo.
A consultoria StoneX estimou que o diesel da Petrobras estava, na sexta-feira (13), 48,5% abaixo do preço internacional mesmo após o aumento, ou R$ 1,77 por litro mais barato. Para o BTG Pactual, o novo preço do diesel ainda estava 32,3% abaixo da paridade de importação, ou R$ 1,74 por litro, ante 37% de defasagem antes do reajuste. Nas contas da Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom), após a alta, o diesel da Petrobras ficou 59% abaixo do importado, ou R$ 2,14 por litro.
A Petrobras, embora não divulgue os cálculos da empresa sobre defasagem, trabalha com uma lógica diferente das consultorias, que olham para a paridade com o preço de importação. A estatal considera, além do preço do Brent e do câmbio, uma fórmula que busca refletir o preço e o custo para entrega ao cliente.
Com as medidas anunciadas – aumento de R$ 0,38 por litro, ou 11,6%, e subvenção de R$ 0,32 por litro –, a Petrobras teve um ganho de R$ 0,70 por litro nas vendas de diesel às distribuidoras. Isso representaria, nas contas de pessoas ligadas à empresa, uma redução de 21% na defasagem. Mas mesmo assim ainda haveria espaço para reajustar os preços em mais de 30% considerando o preço do barril do petróleo acima de US$ 100. Na sexta, o barril do Brent subiu 2,67%, a US$ 103,14.
Fontes próximas da Petrobras disseram que a política anunciada para amortecer as altas do petróleo vai no sentido correto. Mas há riscos embutidos. “As medidas foram tomadas com a aposta implícita de que a guerra dure pouco.”
Se o conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã se prolongar, pode ocorrer que os R$ 10 bilhões da subvenção econômica, disponibilizados até o fim do ano, sejam insuficientes. Isso pressionaria a Petrobras a fazer outras altas no diesel para compensar a perda da subvenção, os R$ 0,32 por litro.
Também há um risco, avaliam as fontes, de o Tesouro não fazer as liquidações da subvenção dentro do prazo e fiquem restos a pagar em favor da Petrobras. Neste cenário, a empresa começaria 2027 com valores a receber da União em um cenário ainda incerto de manutenção da atual gestão da companhia, uma vez que haverá eleições presidenciais em 2026.
Na visão das fontes, a Petrobras vai precisar fazer análises de prazo mais curto para avaliar a evolução do cenário internacional. Uma reavaliação semanal ou quinzenal poderia levar a reajustes com periodicidade menor. Também há uma preocupação de que as importações de diesel feitas pela empresa não sejam incorporadas com prejuízo ao sistema Petrobras, mas os volumes sejam vendidos em leilões a preços de mercado.
Na sexta, após o anúncio do aumento no diesel, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, disse que a companhia está satisfeita com a política de preços de combustíveis: “Nosso foco continua em não passar um nervosismo desnecessário para a sociedade.” Segundo a executiva, ainda era necessário que as medidas de subvenção fossem regulamentadas pela Agência Nacional de Petróleo (ANP) para se chegar ao número real de ganho da empresa.
Considerando a mistura do diesel A, vendido pela Petrobras para as distribuidoras, ao biodiesel, o aumento nas bombas deve ser menor que R$ 0,06, segundo estimou a companhia.
No caso do imposto de 12% sobre a exportação de petróleo, outra medida anunciada pelo governo no pacote dos combustíveis, Chambriard disse que a taxação será compensada pela alta da cotação do petróleo.
“O aumento da cotação do petróleo mais do que compensa o imposto sobre a exportação”, disse. “O aumento do petróleo é bom para os dividendos. Antes tínhamos um Brent a US$ 60, agora estamos em US$ 100.”
Kariny Leal e Francisco Góes – Valor Econômico