O conflito no Oriente Médio, que no fim de semana levou a morte do aiatolá Ali Khamenei, no Irã, faz os preços do petróleo disparar nesta segunda, com o contrato futuro mais líquido da commodity chegando a subir mais de 7% nesta manhã. Além disso, o dólar exibe valorização, em especial contra moedas de mercados desenvolvidos, enquanto os rendimentos dos Treasuries (títulos do Tesouro americano) exibem alta e os contratos futuros dos índices acionários de Wall Street despencam, com o Nasdaq futuro caindo 1,38%, e o S&P 500 recuando 0,98%
Na leitura do economista-chefe da WHG, Fernando Fenolio, o principal canal de transmissão do conflito nas economias se dará via preços de energia e indicadores de confiança. “Um pico do petróleo para US$ 80–85 por algumas semanas teria impacto macro limitado, sobretudo para os Estados Unidos. O efeito maior seria a inflação cheia e, consequentemente, para a questão do custo de vida”, diz em publicação feita nas redes sociais.
“O verdadeiro risco é um petróleo a US$ 100–120: um choque grande capaz de desancorar expectativas de inflação e, em cenários extremos, gerar restrições de oferta — especialmente se houver disrupção em rotas estratégicas. Qualquer interrupção relevante no gás do Catar seria particularmente sensível para a Europa”, acrescenta.
Fenolio também lembra que o movimento de um conflito geopolítico assim tem um efeito inicial conhecido nos mercados: petróleo e ouro para cima, juros para baixo. Mas ele aponta que “o status de porto seguro do dólar e da US Treasury hoje é menos automático do que no passado”. E de fato, o dólar recua frente a algumas moedas de mercados emergentes e divisas ligadas a preços de commodities, como é o caso do peso mexicano e dos dólares australiano e canadense. Assim, ainda que o movimento de aversão a risco possa abrir espaço para uma realização de lucros nos mercados brasileiros (após rali em janeiro e fevereiro), pressionando a bolsa e o câmbio brasileiro, a alta do petróleo também oferece suporte à divisa e a ações da Petrobras.
Além das questões geopolíticas, os agentes financeiros devem olhar para dados econômicos, em uma sessão com divulgação de indicadores da indústria americana. O relatório Focus, do Banco Central, será observado com bastante atenção hoje, após o IPCA-15 de fevereiro (a prévia da inflação oficial) vir bem acima do esperado na sexta-feira, o que levou a ajustes nas projeções dos economistas dos mercados para a inflação neste e nos próximos anos. Isso, em um ambiente de possível pressão inflacionária vindo por preços de petróleo em alta, pode gerar uma pressão altista nas taxas futuras ao longo do dia.
A repercussão da manifestação realizada pela oposição ao governo Lula em São Paulo ontem, com a presença do possível candidato à presidência Flávio Bolsonaro, também pode ser motivo para movimentações nos mercados hoje, mesmo que de forma marginal, já que o cenário global deve ser o principal ponto de atenção na sessão.
Arthur Cagliari – Valor Econômico