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A improvável autossuficiência do Brasil em óleo diesel

Refinarias Petrobras_270214Apesar da Petrobras estar fazendo investimentos para tornar o país autossuficiente em derivados. Essa independência ainda é uma realidade distante.
BiodieselBR.com 7 min de leitura
Um dos argumentos que os representantes setor de biodiesel têm sempre no bolso do colete na hora de defender publicamente a necessidade de novos aumentos da mistura obrigatória é o da conta petróleo. No ano passado, as importações de óleo diesel do Brasil bateram em impressionantes 10,2 bilhões de litros e deixaram um rombo de US$ 8,3 bilhões nas contas externas brasileiras. Trocar parte desse diesel importado por biodiesel made in Brazil, portanto, parece uma medida do mais elementar bom-senso. O argumento contrário a essa tese é que a Petrobras está investindo pesado para tornar o país autossuficiente na produção de derivados e o biodiesel não traria ajuda significativa na balança comercial. 

Apesar da Petrobras não querer divulgar os dados corretos, BiodieselBR.com analisou estudos para mostrar que a independência do diesel importado é uma realidade ainda distante.

Refinarias Petrobras_270214
Um dos argumentos que os representantes setor de biodiesel têm sempre no bolso do colete na hora de defender publicamente a necessidade de novos aumentos da mistura obrigatória é o da conta petróleo. No ano passado, as importações de óleo diesel do Brasil bateram em impressionantes 10,2 bilhões de litros e deixaram um rombo de US$ 8,3 bilhões nas contas externas brasileiras. Trocar parte desse diesel importado por biodiesel made in Brazil, portanto, parece uma medida do mais elementar bom-senso. O argumento contrário a essa tese é que a Petrobras está investindo pesado para tornar o país autossuficiente na produção de derivados e o biodiesel não traria ajuda significativa na balança comercial. 

Apesar da Petrobras não querer divulgar os dados corretos, BiodieselBR.com analisou estudos para mostrar que a independência do diesel importado é uma realidade ainda distante.

Hoje
A gigante estatal brasileira do petróleo pretende acrescentar quatro novas unidades a seu parque de refino. Duas delas – a Refinaria Abreu e Lima (RNEST) e o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) – já se encontram em construção enquanto as outras duas – Premium I e Premium II – ainda estão em planejamento.

Atualmente, o país conta com 16 unidades de refino – 12 das quais são da Petrobras – que, em 2012, tinha uma capacidade produtiva nominal pouco maior que 2,1 milhões de barris por dia. Convertendo isso para metros cúbicos (um barril equivale a aproximadamente 159 litros), teremos uma capacidade de processamento perto de 121,9 milhões de m³ por ano.

Essa é uma capacidade que já está no limite. Segundo um release publicado pela Petrobras no começo do ano, o Fator de Utilização de seu parque de refino esteve 97,4% no ano passado. Isso indica que a companhia tem feito o possível para que seu maquinário produza tudo o que consegue – e, talvez, até um pouco mais. Em março do ano passado, a empresa anunciou que havia conseguido bater seu recorde ao processar 2,12 milhões de barris num único dia. O resultado é que, segundo a ANP, no ano passado a produção brasileira de derivados superou 123,9 milhões de m³. 

Claro que essa é a capacidade de processamento de petróleo como um todo e a capacidade de produção de óleo diesel é bem menor. De quanto ela é exatamente, é difícil determinar. Questionada pela reportagem de BiodieselBR.com, a própria ANP reconhece a dificuldade de determinar uma capacidade de produção fixa para cada derivado de petróleo. “O volume produzido de cada derivado depende de diversos fatores como o tipo de petróleo utilizado, a qualidade requerida dos derivados e as unidades instaladas”, disse a agência por meio de sua assessoria de imprensa.

Claro que isso não é um impedimento para que se façam estimativas. Na dissertação de mestrado para o curso de Planejamento Energético pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, o engenheiro químico Marco Henrique Perissinotto Bonfá, estimou que, em 2010, a capacidade de produção de diesel do parque de refino brasileiro estava em 133,7 mil m³ por dia. Multiplicado por 365, isso dá perto de 50 milhões m³ praticamente empatando com 49,5 milhões de m³ de diesel que, segundo a ANP, foram produzidos no Brasil no ano passado. Muito abaixo do que o país consumiu com diesel, que precisou ser importado. 

Por isso, a estatal resolveu colocar um fim a prolongadíssima entressafra em investimentos na área de refino – a última refinaria de porte construída no Brasil foi a Refinaria Henrique Lage (Revap) que foi inaugurada em março de 1980. Dos US$ 236,7 bilhões em investimentos previstos no Plano de Negócios e Gestão (PGN) para o período entre 2013 e 2017, US$ 33,3 bilhões (14%) serão destinados à ampliação do parque de refino. A meta é fazer a produção brasileira de derivados crescer em quase 50% – se tudo ocorrer dentro do planejado, a partir de outubro de 2020 a capacidade nacional de refino ultrapassaria os 3 milhões de barris por dia.

Nas contas de Bonfá, isso vai elevar a capacidade produtiva para pouco mais de 300,2 mil m³ diários – ou 109,5 milhões de m³ anuais. O problema é que a produção de quase 100 mil m³ diários viriam de duas refinarias que não saíram do papel. Sem essas refinarias a produção anual ficaria em torno de 72 milhões de m³ anuais. Considerando que, de acordo com Plano Decenal de Expansão de Energia publicado no ano passado pela Empresa de Planejamento Energético (EPE), a demanda de óleo diesel será de 77,2 milhões de m³ em 2022, a autossuficiência pode demorar para chegar. 

Atrasos
Para que ela aconteça, a Petrobras tem que de manter seu ambicioso cronograma de ampliação em dia. Coisa que ela já não vem conseguindo fazer atualmente. 

O primeiro trem da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), por exemplo, deveria ter entrado em funcionamento em julho de 2012. Agora, a inauguração está marcada para novembro de 2014, com quase dois anos e meio de atraso. O mesmo aconteceu com o Comperj que deveria estar operando desde setembro passado, mas, agora, não deverá dar a partida antes de abril de 2015. E como as duas refinarias Premium continuam sem prazo para início da construção não é possível estimar a data de término. Contar com a autossuficiência pode ser uma aposta arriscada.

Não bastasse isso, ainda há a questão do custo que tem ficado bem mais salgado do que as previsões iniciais. O preço da RNEST saltou de US$ 13,4 bilhões para US$ 17,1 bilhões. Enquanto a Comperj que deveria custar US$ 8 bilhões disparou para US$ 12,7 bilhões.

Em seu estudo “Evolução do Mercado de Combustíveis e Derivados: 2000 2012”, Bonfá já ressaltava que os compromissos com a exploração do pré-sal poderiam acabar levando a Petrobras a ter que engavetar os projetos na área de downstream (leia-se “refino”). “Deve-se frisar que a lógica econômica incentiva a Petrobras, em contextos de escassez de recursos, a postergar os investimentos no downstream, para não prejudicar o andamento dos projetos mais rentáveis do upstream, sobretudo aqueles relacionados ao desenvolvimento dos campos da camada pré-sal”, diz o texto em suas conclusões.

Além disso, pode ser que mesmo autossuficiente o Brasil ainda tenha que importar S10. Em agosto do ano passado, o diesel com baixo teor de enxofre já representava mais de 16% do mercado com tendência de expansão rápida. Isso pode colocar o país em dificuldade. É o que alerta Bonfá em sua dissertação. “Mesmo com a expansão prevista através das novas refinarias, em 2020, o Brasil poderá se deparar com uma oferta interna limitada de óleo diesel S10”, diz em seu texto. Se for mesmo esse o caso, o S10 teria que vir de fora. 

Em uma situação de escassez mundial de diesel S10, o biodiesel produzido nacionalmente ainda teria mais uma importante contribuição a oferecer.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
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