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Todo o poder das algas

Divididas em dois grupos, micro e macroalgas, essas plantas superpoderosas são organismos ricos em polissacarídeos/açúcar (as macros) e lipídios/gorduras (as micros)
Estado de Minas 5 min de leitura
Divididas em dois grupos, micro e macroalgas, essas plantas superpoderosas são organismos ricos em polissacarídeos/açúcar (as macros) e lipídios/gorduras (as micros), necessários para a produção de biodiesel. Como estão expostas às adversidades, as algas desenvolvem sofisticadas moléculas químicas, como agentes metabolizantes secundários, diferentemente de estruturas de plantas terrestres.

Responsáveis por quase metade do oxigênio liberado na atmosfera, as algas marinhas são mais que ingredientes do sushi ou o “matinho” irritante que se prende nas pernas de banhistas na praia. Diversas pesquisas mostram que elas podem ser transformadas em remediadoras ambientais (como ajuda contra danos à natureza), fármacos, cosméticos e até biocombustíveis. Isso com a vantagem de ser uma matéria-prima que não precisa de terra para brotar nem água doce para vingar. Cultivadas no mar ou em piscinas, dispensam também o uso de fertilizantes e pesticidas.

Divididas em dois grupos, micro e macroalgas, essas plantas superpoderosas são organismos ricos em polissacarídeos/açúcar (as macros) e lipídios/gorduras (as micros), necessários para a produção de biodiesel. Como estão expostas às adversidades, as algas desenvolvem sofisticadas moléculas químicas, como agentes metabolizantes secundários, diferentemente de estruturas de plantas terrestres. As espécies mais usadas nas pesquisas são a Gracilaria domingensis, Gracilaria birdiae, algas vermelhas brasileiras, e Kappaphycus avarezii, originárias das Filipinas. Delas, são extraídos a carragena e o ágar, muito úteis na produção de alimentos e remédios.

Apostando nos benefícios dessas plantas, o professor de bioquímica Pio Colepicolo Neto, da Universidade de São Paulo, coordena projeto de exploração das algas marinhas e o uso da sua biomassa como fonte de remédios e de recursos biológicos economicamente viáveis para o tratamento de áreas degradadas. “Elas podem tratar águas poluídas, pois absorvem os poluentes orgânicos, usando-os como esqueleto carbônico para sintetizar biomoléculas importantes, como aminoácidos, bases nitrogênicas, proteínas e lipídios. Poluentes metálicos são absorvidos pelas algas, que imobilizam os metais em seus vacúolos, espécie de ‘tentáculos’ da planta.”

Para o bioquímico, as algas desempenham papel fundamental no ambiente e, “com criatividade e interesse”, é possível inovar em diferentes áreas da ciência. Colepicolo Neto explica que as algas servem de base para a produção de antifúngicos e que o uso deles aumenta a vida útil das frutas e verduras em até quatro semanas. “O que fizemos foi cultivar em laboratório os fungos que atacam as frutas e descobrimos o extrato algal, borrifado na fruta, como atividade antifúngica”, afirma.

No lado farmacêutico, o professor afirma que as algas servem de base para a fabricação de filtros solares. Por precisar de luz solar para sobreviver, as plantas têm micosporinas, substância química capaz de absorver radiação ultravioleta (UV) e ainda com ação antioxidante.

Negócio em expansão
Com tantos prós e poucos contras, o biólogo marinho Miguel Sepúlveda viu no cultivo das algas uma chance de empreender. Em 1998, ele introduziu em Ilha Grande (RJ) as fazendas de macroalgas da espécie Kappaphycus avarezii. Ele trouxe o broto da Venezuela e, depois de deixá-lo em um descanso de 40 dias no laboratório de camarões em Santa Catarina, iniciou o cultivo experimental. Essa pausa é importante para a planta brotar. Depois de cinco anos de avaliação tecnológica acerca do impacto ambiental e dos níveis de crescimento, o biólogo chegou à carragena, usada, entre outros produtos, em xaropes, cremes de barbear e embutidos. Atualmente, apoiado pela GDK S/A e Instituto Otaviano de Almeida Oliveira, Sepúlveda comercializa a alga seca e em gel bruto. “é possível extrair das algas um composto vitamínico de A a Z que pode ser usado na alimentação, como adubo e como marcador de poluição. São inúmeras as funções”, salienta.

Biocombustível feito com a Kappaphycus
A Kappaphycus é a base para as pesquisas de fabricação do etanol de terceira geração do programa ProAlga da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenado pelo professor do Departamento de Virologia do Instituto de Microbiologia da UFRJ Maulori Cabral. Ele explica que, da planta seca, desidratada e hidrolisada, elas são transformadas em líquido de puro açúcar. Esse suco é fermentado e só então se obtém o etanol. O processo, segundo Cabral, tem patente nacional e internacional pela UFRJ. “Nossa produção está configurada para as escalas de bancada e piloto. Os próximos passos exigem financiamento para os grandes equipamentos de escala semi-industrial e industrial.”

Empolgado com o processo, Cabral chama a atenção para a relação custo-benefício da produção do etanol a partir das algas. Segundo ele, enquanto para cultivar algas não são necessários água doce e solo terrestre, para um hectare plantado com cana, que produz cerca de 85 toneladas para as usinas, são gastos 2 milhões de litros de água doce por hectare/ano.

O Brasil tem potencial para produzir 40 toneladas por hectare/ano de alga seca. “Isso envolve quebra de paradigmas em prol da agricultura marinha, pois nosso povo não conhece ainda as vantagens do uso do mar, de forma sustentável, para o desenvolvimento econômico e social das populações litorâneas”, enfatiza. Para ele, algo mais sustentável que alga não existe. “O dia em que o mundo quiser solucionar o efeito estufa, basta prestar atenção no valor sustentável das algas”, prega.

algas
As Kappaphycus avarezzi, originárias das Filipinas, são cultivadas em uma fazenda em Ilha Grande, no litoral do Rio de Janeiro

Fonte: Estado de Minas
Tags Algas
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