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Petrobrás garante compra de 10 mil toneladas de matéria-prima para 2007

Há dois anos a estratégia parecia boa: os agricultores plantariam mamona, a Petrobras garantiria a compra, o Governo do Estado ajudaria no 'meio-de-campo'. Mas, nem toda engrenagem funcionou como o esperado.
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Há dois anos a estratégia parecia boa: os agricultores plantariam mamona, a Petrobras garantiria a compra, o Governo do Estado ajudaria no 'meio-de-campo', o Governo Federal aumentaria a demanda. Os agricultores plantariam ainda mais, a Petrobras ampliaria as compras e o Estado ganharia com uma nova força em sua economia - o biodiesel.

Mas, nem toda engrenagem funcionou como o esperado.
Há dois anos a estratégia parecia boa: os agricultores plantariam mamona, a Petrobras garantiria a compra, o Governo do Estado ajudaria no 'meio-de-campo', o Governo Federal aumentaria a demanda. Os agricultores plantariam ainda mais, a Petrobras ampliaria as compras e o Estado ganharia com uma nova força em sua economia - o biodiesel.

Mas, nem toda engrenagem funcionou como o esperado. Para produzir, os agricultores precisavam superar barreiras culturais e mordenizar seus métodos, melhorando a qualidade do produto. Para comprar dos produtores, a Petrobras exigia a formação de cooperativas, muitas das quais já existiam, mas estavam inadimplentes, assim, nada feito.

Para ajudar no meio-de-campo, o Governo do Estado tinha de sentar com a estatal e definir os compromissos de ambos, o que não aconteceu. A única peça da engrenagem que não falhou foi o aumento da demanda. O resultado é que a busca pelo biodiesel vem aumentando e o Rio Grande do Norte agora tem de (re)começar a montar toda essa estratégia para não perder a oportunidade de lucrar com um dos mais promissores mercados dentro do setor de combustíveis.

A expectativa, agora, é mudar o eixo principal, da mamona para o girassol. Governo e Petrobras garantem: aprenderam com as falhas e o caminho será trilhado de forma 'consistente'. Dentro de três anos, segundo as previsões, serão gerados 35 mil empregos, com a plantação de mamona, girassol e pinhão-manso (utilizados na produção de biodiesel) ocupando uma área semelhante à do feijão e do milho, principais culturas do estado. 'Inicialmente foi criada muita expectativa. Esperamos que os erros sirvam de lição a todos.

Vamos nos reunir a partir da próxima semana, estabelecer um cronograma e, de agora em diante, avançar sem açodamento, de forma a não termos mais retrocessos', assegura o secretário Estadual Extraordinário de Energia, Tibúrcio Batista. 'Nosso grau de integração com o Governo do Estado era muito de papel e telefone. Agora não. Já temos um trabalho bem mais integrado e esse projeto vai para a frente, de qualquer forma', prevê o gerente de Suporte Técnico da Petrobras no RN, Fernando Ribeiro. O compromisso para os próximos anos é aumentar 50 vezes a área plantada. Dos atuais mil hectares, para 10 mil ha de mamona e girassol, já em 2007, com predominância deste segundo. Esse número pula para 25 mil há, em 2008, e 50 mil ha, em 2009.

Por sua vez, a estatal garante a compra, no próximo ano, de 10 mil toneladas de oleaginosas. No seguinte, transforma as duas plantas experimentais de biodiesel, localizadas em Guamaré, em plantas de funcionamento contínuo, demandando uma área de 23 mil ha cultivados. Caso o crescimento da produção se consolide, a Petrobras pode dar então o grande passo: a construção de uma planta industrial de biodiesel em território potiguar. 'Demanda existe. Até 2011, a Petrobras pretende produzir 855 milhões de litros de Biodiesel e, atualmente, apenas três unidades estão previstas (Ceará, Bahia e Minas Gerais), com produção de 150 milhões. Restam ainda 700 milhões.

O principal motivo da decepção dos agricultores com o cultivo da mamona foi a dificuldade em comercializar o produto. A Petrobras, porém, tem uma explicação para isso. 'O nosso preceito é o de sempre beneficiar o pequeno produtor e uma das normas da empresa é só negociar a compra através das cooperativas, nunca individualmente', aponta Fernando Ribeiro.

No entanto, quando a estatal buscou cadastrar as cooperativas potiguares, em 2004, deparou-se com a realidade do campo: 'Para nossa frustração, todas estavam inadimplentes com relação ao pagamento de impostos e a Petrobras não pode negociar com inadimplentes.' Diante desse quadro, não só a área cultivada com mamona diminuiu 40%, do ano passado para este, como a produção foi reduzida de 1.300 para 800 toneladas. O problema, garante Ribeiro, já estaria superado. 'Estamos aprendendo. Afinal ainda somos uma estatal que vem migrando da condição de produtora de petróleo, para uma empresa de energia.'

A Coopera, de Apodi, foi a primeira a se regularizar para vender mamona à Petrobras (cerca de 300 toneladas este ano) e outras duas, em Cerró-Corá e no Seridó, também estariam próximas de se tornarem fornecedoras do programa de biodiesel. 'Hoje, para abastecer as plantas experimentais, compramos toda produção do estado e ainda parte da do Ceará. Nossa intenção é negociar apenas com os agricultores potiguares, até porque será construída uma planta no estado vizinho', diz o gerente. O preço pago ao produtor também é vantajoso. O secretário Tibúrcio Batista aponta essa garantia de compra como o principal instrumento para incentivar os produtores. 'O grande desafio para aumentar a área de cultivo das oleaginosas não é convencer que este é um bom negócio. Muitos já estão convencidos. O que precisamos é dar ao agricultor a certeza de que ele não vai se decepcionar no futuro. 'Estive recentemente com a governadora e ficou claro uma coisa, este projeto tem de deslanchar', afirma.

Diante do compromisso da Petrobras de adquirir 10 mil toneladas de mamona, girassol ou pinhão-manso, ainda em 2007, o próximo passo é incentivar a produção. 'Vamos começar a levar as informações sobre essa garantia de compra da safra e queremos, no ínicio do próximo ano, oferecer aos agricultores o apoio técnico e de equipamentos para que façam o plantio no tempo certo, possam contar com sementes selecionadas, ou seja, se sintam cada vez mais estimulados', enfatiza o secretário.

Mamona, girassol, pinhão-manso, até mesmo a soja (cuja utilização para o biodiesel vem aumentando no centro-sul do país) não devem disputar entre si o mercado. Quem garante é o pesquisador da Embrapa, Liv Soares Severino. 'A mamona, por exemplo, tem de concorrer com a própria mamona, para melhorar sua produção e baixar seus custos. Qualquer briga com outro não se justifica, a não ser por ciúmes, pois o mercado é quase infinito.' Prova disso é que, a partir de 2008, quando as distribuidoras de combustíveis terão de acrescentar 2% de biodiesel ao diesel de petróleo, serão necessários 1 milhão de toneladas de oleaginosas para atender a demanda.

De acordo com a Conab, a produção de Girassol em todo o Brasil, este ano, deve ficar em 108 mil toneladas e o de mamona em 125 mil toneladas. Somados, não chegam a um quarto do necessário, embora todo o espaço restante deva ser preenchido pela soja e outras culturas do agronegócio. A demanda não vai parar de crescer. Em 2013, a adição de biodiesel tem de chegar a 5%, exigindo uma produção de 2,7 milhões de toneladas de oleaginosas (esse prazo pode até ser adiantado para 2008).

'A Petrobras necessita do combustível e não vai deixar de comprar ou investir. Agora, se não tiver oferta no Rio Grande do Norte, eles vão atrás de onde tenha', alerta o pesquisador. Ainda assim, Liv defende a adoção de novas técnicas, para reduzir os custos da produção da mamona. 'A grosso modo, uma tonelada de óleo de mamona sai, hoje, 50% mais caro que a de óleo soja', compara.

Para diminuir essa diferença, é preciso estimular a pesquisa, estruturar a cadeia produtiva, promover avanços no uso de sementes geneticamente mais preparadas e também orientar os agricultores para que preparem o solo, plantem e colham no momento certo. 'Os produtores são realmente muito carentes. Buscam economizar, sem observar a perda da qualidade do produto. Há, portanto, uma barreira cultural difícil de ser vencida', explica. Ainda assim, ele acredita que a mamona continua a ser a grande alternativa com relação ao biodiesel, em se tratando de semi-árido. 'Muitos estão adotando o pinhão-manso, seguindo apenas informações superficiais, veiculadas na Internet, ou pelos vendedores de sementes, sem base científica. Nossas primeiras pesquisas dão conta do contrário. Embora seja resistente e perene, o custo é alto e não há tecnologia, nem sementes bem preparadas.'

Já o girassol é indicado como uma alternativa para os locais próximos ao litoral, onde o índice de chuvas é maior. 'Plantei girassóis em Assu, que é mais seco, e não passaram dos 10 cm', revela Liv Soares. Girassol pode tomar espaço da mamona O discurso é cauteloso, mas os sinais são evidentes. Embora o Governo do Estado não pretenda abrir mão dos investimentos no cultivo da mamona, o girassol deverá passar a ser o grande protagonista do programa de biodiesel em terras potiguares. 'Estamos convencidos de que o girassol terá participação importante nesse crescimento e é mais viável que a mamona. Porém uma coisa não exclui a outra e continuaremos a investir na produção dos dois', afirma Tibúrcio Batista.

 As razões para a preferência pelo girassol não são poucas: o ciclo (90 a 120 dias) é mais curto que o da mamona; de seus resíduos pode ser produzido uma torta para a ração animal e piscicultura (na região onde o cultivo é mais difundido, o Mato Grande, serão implantados diversos projetos de criação de peixes); as folhas - massa verde - servem para a construção de cilos e também à ração animal; a produtividade é maior; e sua cultura pode ser integrada com a criação de abelhas, transformando o mel em mais uma fonte de renda. 'Precisamos agregar valor às plantações. Não estamos apenas pensando em produzir oleaginosas com a finalidade de vender o óleo. É preciso integra-la com as demais cadeias produtivas', destaca Tibúrcio Batista.

Sendo assim, a mamona perde com as limitações, já que contém toxinas e, até para ser utilizada como ração animal, precisa passar por um extenso processo. Já em 2007, o girassol irá ocupar uma área plantada superior à da mamona. O secretário revela que, além de 6 mil hectares de assentamentos, na região do Mato Grande, o potencial de áreas para o plantio do girassol inclui ainda as terras utilizadas pela fruticultura. 'Os primeiros estudos são muito promissores. Plantar girassol entre uma safra e outra poderia até melhorar o solo onde são cultivadas as frutas', cogita.

Fonte: Gazeta Mercantil

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