Com saudades dos 25 anos de vida de açougueiro em Belo Horizonte, onde
ganhava R$ 600,00 por mês, o pequeno agricultor,Rogério Oscar Ribeiro
Soares, 43, plantou oito quilos de semente de mamona em parte da terra
da família e gastou R$ 180,00 para preparar a terra.
Com saudades dos 25 anos de vida de açougueiro em Belo Horizonte, onde ganhava R$ 600,00 por mês, o pequeno agricultor,Rogério Oscar Ribeiro Soares, 43, plantou oito quilos de semente de mamona em parte da terra da família e gastou R$ 180,00 para preparar a terra. A propriedade fica na comunidade de Cachoeira de Miralta, a 30 km de Montes Claros, onde foi instalada a Usina de Biodiesel Darcy Ribeiro, da Petrobras. "Eu não tenho experiência com isso", admitiu enquanto segurava um bocado da colheita nas mãos para fazer a foto para a reportagem. Rogério tem um dos 8.200 contratos que a Petrobras diz ter assinado, por cinco anos, para fornecer uma das matérias-primas para a fabricação do biodiesel na usina. Para apurar R$ 1,10 pelo quilo do produto, o ex-açougueiro precisa retirar a semente escondida numa casca espessa, difícil de arrancar. "Se vender a mamona com casca a Petrobras paga R$ 0,60 a R$ 0,70 o quilo", informou o engenheiro agrônomo da Emater, Robson Danilo Ferreira, o guia da reportagem de O TEMPO nas estradas poeirentas da comunidade e responsável pela assistência técnica para o biodiesel na região.
Ao ouvir as cotações, o agricultor se surpreendeu. "Estou pensando em voltar para Belo Horizonte, pois hoje um açougueiro ganha R$ 1.300 por mês", comparou com voz desanimada num rosto judiado pelo sol. O exemplo de Rogério é um dentre tantos outros sobreviventes da agricultura de subsistência na região e uma leve esperança de viver com mais de R$ 1.000 tirados por ano com a safra de quiabo. Alguns metros à frente, ouve-se um locutor. O som parece sair de um curral necessitado de reparos, onde Roberto Alves de Souza, 20, tem o hábito de escutar rádio enquanto tira 60 litros de leite, por dia, de 14 vacas e repassa-o a um laticínio por R$ 0,60, o litro. Descalço, busca um chinelo, cumprimenta-nos com mãos fortes de pele grossa e caminha para o cercado com a plantação de mamona feita com o tio, quase no tempo de colher. "É a primeira vez. Tem que fazer a experiência" contou, com olhos baixos, desprovido de euforia.
A empreitada gerou investimento de R$ 50 por uma hora de aluguel do trator para arar a terra e R$ 40 a dois ajudantes por um dia de trabalho no plantio, além de dois sacos de adubo, um total de R$ 120,00. Roberto e o tio também colhem sete sacos de feijão e 500 quilos de milho. A renda com a diversificação não ultrapassa os R$ 300,00. Fabricavam cachaça, mas a falta de lucro encerrou o processo. "Já tivemos prejuízo de feijão e milho. Em 2007, quase não choveu aqui", lembrou o jovem com ensino médio incompleto escaldado pela difícil vida no campo. Devoto de Santo Expedito, o jovem se recusa a ir para a cidade. "Quero viver para sempre aqui", sonha. Durante a viagem, o engenheiro Robson Danilo contou sobre a instalação de uma usina esmagadora de mamona há 10 anos na região. Depois da primeira colheita o dono fechou a empresa e muita gente perdeu tudo. "A gente não consegue nem vender peixe ainda", explicou. Ele disse que vários agricultores da região têm medo de aderir ao Programa do Biodiesel da Petrobras. Como disse Guimarães Rosa, "esta vida está cheia de ocultos caminhos". Na volta, "deitamos o cabelo", como diz o povo na região, em 17 km de estrada de terra vermelha como um pó de arroz de mulher.
A estratégia é transformar a Usina de Biodiesel Darcy Ribeiro em polo óleo-químico atraindo de 20 a 30 empresas para aproveitar todos os componentes da matéria-prima: torta, goma, lecitina e derivados nobres da casca. “Será uma espécie de joint-venture”, informou o executivo sobre a associação com outras empresas. A lista de gastos para garantir um biodiesel social vai exigir outro aporte de R$ 15 milhões por ano. O dinheiro vai para a compra de sementes como parte do programa de subsídio de 20 mil agricultores familiares em 40 mil hectares de terra plantada.
Helenice Laguardia - Jornal O Tempo
Com saudades dos 25 anos de vida de açougueiro em Belo Horizonte, onde ganhava R$ 600,00 por mês, o pequeno agricultor,Rogério Oscar Ribeiro Soares, 43, plantou oito quilos de semente de mamona em parte da terra da família e gastou R$ 180,00 para preparar a terra. A propriedade fica na comunidade de Cachoeira de Miralta, a 30 km de Montes Claros, onde foi instalada a Usina de Biodiesel Darcy Ribeiro, da Petrobras. "Eu não tenho experiência com isso", admitiu enquanto segurava um bocado da colheita nas mãos para fazer a foto para a reportagem. Rogério tem um dos 8.200 contratos que a Petrobras diz ter assinado, por cinco anos, para fornecer uma das matérias-primas para a fabricação do biodiesel na usina. Para apurar R$ 1,10 pelo quilo do produto, o ex-açougueiro precisa retirar a semente escondida numa casca espessa, difícil de arrancar. "Se vender a mamona com casca a Petrobras paga R$ 0,60 a R$ 0,70 o quilo", informou o engenheiro agrônomo da Emater, Robson Danilo Ferreira, o guia da reportagem de O TEMPO nas estradas poeirentas da comunidade e responsável pela assistência técnica para o biodiesel na região.
Ao ouvir as cotações, o agricultor se surpreendeu. "Estou pensando em voltar para Belo Horizonte, pois hoje um açougueiro ganha R$ 1.300 por mês", comparou com voz desanimada num rosto judiado pelo sol. O exemplo de Rogério é um dentre tantos outros sobreviventes da agricultura de subsistência na região e uma leve esperança de viver com mais de R$ 1.000 tirados por ano com a safra de quiabo. Alguns metros à frente, ouve-se um locutor. O som parece sair de um curral necessitado de reparos, onde Roberto Alves de Souza, 20, tem o hábito de escutar rádio enquanto tira 60 litros de leite, por dia, de 14 vacas e repassa-o a um laticínio por R$ 0,60, o litro. Descalço, busca um chinelo, cumprimenta-nos com mãos fortes de pele grossa e caminha para o cercado com a plantação de mamona feita com o tio, quase no tempo de colher. "É a primeira vez. Tem que fazer a experiência" contou, com olhos baixos, desprovido de euforia.
A empreitada gerou investimento de R$ 50 por uma hora de aluguel do trator para arar a terra e R$ 40 a dois ajudantes por um dia de trabalho no plantio, além de dois sacos de adubo, um total de R$ 120,00. Roberto e o tio também colhem sete sacos de feijão e 500 quilos de milho. A renda com a diversificação não ultrapassa os R$ 300,00. Fabricavam cachaça, mas a falta de lucro encerrou o processo. "Já tivemos prejuízo de feijão e milho. Em 2007, quase não choveu aqui", lembrou o jovem com ensino médio incompleto escaldado pela difícil vida no campo. Devoto de Santo Expedito, o jovem se recusa a ir para a cidade. "Quero viver para sempre aqui", sonha. Durante a viagem, o engenheiro Robson Danilo contou sobre a instalação de uma usina esmagadora de mamona há 10 anos na região. Depois da primeira colheita o dono fechou a empresa e muita gente perdeu tudo. "A gente não consegue nem vender peixe ainda", explicou. Ele disse que vários agricultores da região têm medo de aderir ao Programa do Biodiesel da Petrobras. Como disse Guimarães Rosa, "esta vida está cheia de ocultos caminhos". Na volta, "deitamos o cabelo", como diz o povo na região, em 17 km de estrada de terra vermelha como um pó de arroz de mulher.
Projeto da Petrobras tem outros gastos
No meio de um “deserto verde” de terra ácida do semi-árido do Norte de Minas Gerais, em Montes Claros, a carcaça da Usina de Biodiesel Darcy Ribeiro consumiu R$ 100 milhões para início de conversa, mas depende de uma esmagadora para extrair o óleo da matéria-prima. O equipamento mais moderno com uso de solvente vai consumir outros R$ 25 milhões. “A ideia é construir em Montes Claros ou entorno de 150 km”, confirmou o gerente de suprimentos da usina, Onésimo Azeredo.A estratégia é transformar a Usina de Biodiesel Darcy Ribeiro em polo óleo-químico atraindo de 20 a 30 empresas para aproveitar todos os componentes da matéria-prima: torta, goma, lecitina e derivados nobres da casca. “Será uma espécie de joint-venture”, informou o executivo sobre a associação com outras empresas. A lista de gastos para garantir um biodiesel social vai exigir outro aporte de R$ 15 milhões por ano. O dinheiro vai para a compra de sementes como parte do programa de subsídio de 20 mil agricultores familiares em 40 mil hectares de terra plantada.
Helenice Laguardia - Jornal O Tempo