BiodieselBR
Publicidade

[Agribio 2013 - Painel 2] O selo social ainda não entendeu o Nordeste

Agribio menelau_280813Em seu 2º painel, o Congresso Agribio 2013 debateu as barreiras que impedem a inclusão de agricultores familiares das regiões Norte, Nordeste e do semiárido.
BiodieselBR.com 5 min de leitura
Agribio menelau_280813Em seu 2º painel, o Congresso Agribio 2013 debateu as barreiras que impedem a inclusão de agricultores familiares das regiões Norte, Nordeste e do semiárido.

Agribio menelau_280813
Os palestrantes escalados para o segundo painel do Agribio 2013 ajudaram a cumprir a proposta da discussão em pauta: revelar as barreiras que impedem a inclusão efetiva de agricultores familiares do Norte, Nordeste e Semiárido brasileiro no programa de biodiesel, bem como apontar soluções para reverter esse quadro. 

A abertura do painel ficou a cargo do professor do Programa de Pós Graduação em Administração e Desenvolvimento Rural da Universidade Federal Rural do Estado de Pernambuco (PADR/UFRPE), Almir Menelau. 

O professor endossou a opinião de que o Selo Combustível Social (SCS) fracassou porque não conseguiu incluir socialmente os agricultores do Nordeste. “O objetivo do selo era viabilizar a participação ativa do agricultor. Isso era determinante para o fracasso ou sucesso. Se o agricultor não participa maciçamente, não há sucesso”, concluiu com singular franqueza. 

Para Menelau, ao contrário do que muitos afirmavam, a questão participativa no Nordeste não é bem resolvida e, muito menos, foi bem visualizada no que concerne à implementação do Selo. 

Um dos problemas é a descrença dos agricultores no êxito de uma atuação em cooperativa. “O que aconteceu no passado reflete-se hoje. O cooperativismo acabou no Nordeste porque ocorreram questões de ordem pessoal. Enganaram os produtores rurais. Eles não acreditam mais. Têm discordância em relação à governança”, disse o professor, sem relacionar a questão a nomes ou fatos. 

Ineficiência estatal
Já no que era de alçada governamental, as críticas não foram feitas de forma velada. Menelau acusou as autoridades de destruir a inspeção rural - deixou claro que estava se referindo à extinta Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMBRATER) - e de politizarem as assistências técnicas dos Estados. “Pernambuco é uma diretoria da Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária Pecuária. Não faz nada, a não ser política”, afirmou. 

Outra revelação de impacto do professor referiu-se à distribuição de sementes. Segundo Menelau, além de serem distribuídas de forma tardia, as sementes são usadas como “instrumento de coação política”. 

Também não menos contundente foi a afirmação de que os técnicos, além de serem disponibilizados em número inferior à necessidade vigente, são mal treinados. Para Menelau, esse fator, aliado ao perfil do agricultor nordestino, caracterizado pelo baixo nível de escolaridade, contribuiu para uma assimilação deficiente do conhecimento tecnológico. 

“O produtor é analfabeto ou semialfabetizado, não compreende o processo tecnológico. E as pessoas que estão levando a tecnologia são mal formadas. Aí cria esse impacto de uma difusão de tecnologia inadequada”, expôs.

Aversão ao risco
Profundo conhecedor do Nordeste, o professor Menelau explicou aos presentes de que forma algumas crenças e posturas culturais implicaram para que o programa não prosperasse na localidade.

De acordo com Menelau, o PNPB falhou ao achar que bastava dar a semente e ensinar como plantá-la para que o agricultor do Nordeste já manifestasse sua adesão. “O produtor nordestino é culturalmente avesso ao risco. Depende da lavoura para sobreviver, do contrário, morre de fome”, salientou. 

Foi justamente por ignorar essas questões, de caráter cultural, que o PNPB não vingou no Nordeste. “O que o programa não entendeu é que não se pode quebrar paradigmas culturais arraigados há mais de 500 anos. Não funciona assim.”

Novos paradigmas
Eliminar velhos paradigmas não é possível. Entretanto, construir novos, sim, acredita Menelau. “O agricultor nordestino só aceita entrar no desconhecido se está convicto que vai dar certo”, afirmou. 

E essa confiança pode ser conquistada por meio de uma política de gerenciamento de riscos, na qual, por exemplo, se ofereça ao produtor um adiantamento pela produção. Com essa medida, além de assegurar a produção, consegue-se fidelizar o produtor ao programa. 

Importante também, na visão do professor, é o fomento a um processo mais participativo, no qual a transmissão do conhecimento tecnológico seja estendida a todos os membros da família (mulher, filhos, agregados etc.), já que integram a unidade de produção.

De acordo com Menelau, a melhor forma de se fazer isso é criando Unidades de Demonstração de Tecnologias (UDT), a serem implementadas nas próprias propriedades rurais.

“Assistência técnica é muito mais que ensinar a plantar. O produtor precisa ver como funciona todo o processo de plantio, adubação, colheita para acreditar no programa”, enfatizou. “São necessárias, ao menos, duas visitas dos técnicos por mês para que os agricultores tenham o devido acompanhamento. Quem conhece o Nordeste sabe que precisa funcionar assim”, garantiu.

O professor destacou ainda a necessidade de um maior investimento em pesquisas, com a criação de sementes básicas e comerciais, e de um programa “sério” de distribuição de sementes. “Se entregar para a prefeitura, não dá certo. Prefeitura só sabe fazer política”, disse.

Além dessas medidas, Menelau ressaltou como fundamental o gerenciamento das expectativas acerca da inclusão dos agricultores do Nordeste no programa. Para o professor, não é possível imprimir a essa questão uma tônica imediatista. “É fazer a inclusão com uma velocidade mais branda. Não adianta colocar as usinas e falar ‘eu quero mamona’.”

Ao sugerir que se deixe de lado o ímpeto de ver o programa “acontecer” no Nordeste e se priorize, dentro do contexto do PNPB, a adoção de medidas que levem em conta toda complexidade socioeconômica e cultural da região, o professor entende que, embora mais demorados, os resultados obtidos serão bem mais satisfatórios. 

A cobertura do 1º Painel do Congresso Agribio 2013 pode ser lida clicando aqui.

Cátia Franco – BiodieselBR.com
Compartilhar: