BiodieselBR
Publicidade

Será que vai faltar comida?

A disputa entre alimento e energia tem dominado as discussões sobre o avanço da produção de biocombustíveis.
Liv Soares Severino 4 min de leitura
A disputa entre alimento e energia tem dominado as discussões sobre o avanço da produção de biocombustíveis. Essa preocupação é justificável porque a fome ainda é um dos grandes problemas da humanidade, mas sinto que o foco dessas discussões está mais centrada no “que pode acontecer” ao invés de se dedicar ao “que podemos fazer”.

Inicialmente, relembro que, independente da produção de bioenergia, muita gente está passando fome no mundo, mesmo havendo terra e tecnologia disponível para produzir alimento suficiente para toda a população. Com isso, concluiu-se que o problema da fome não é uma questão de capacidade de produção, mas uma questão econômica, já que a má distribuição de renda deixa milhões sem dinheiro para comprar alimentos. Isso não é nenhuma novidade, mas vale a pena recordar.

Até pouco tempo atrás, no entanto, os mercados de energia e alimentos eram coisas bem distintas, pois o principal insumo energético, o petróleo, era bem mais barato que os alimentos. Isso mudou radicalmente a partir do momento em que o petróleo ficou mais caro que os produtos alimentícios, pois o cultivo de lavouras energéticas passou a figurar entre as alternativas agrícolas.

Antes de cada safra, o agricultor decide o que vai plantar baseando-se simplificadamente na expectativa de preço de venda, custo dos insumos, e na tecnologia, estrutura e área disponíveis. As lavouras bioenergéticas estão surgindo neste cenário como uma alternativa com bons preços e um mercado praticamente infinito. Neste primeiro momento, os agricultores podem trocar cultivos alimentícios por energéticos, mas pela Lei da Oferta e Demanda, se diminuir a produção de alimentos, imediatamente os preços se elevam e os agricultores voltam a produzi-los. Conclui-se que o risco não é de faltar alimento, mas de uma elevação dos preços dos produtos agrícolas e sua vinculação direta ao preço do petróleo.

Com a elevação dos preços de alimentos, muita gente que já tinha dificuldade de comprar comida, terá problemas ainda maiores, o que agrava o problema da fome no mundo. Mas a questão sobre a qual precisamos nos debruçar é o que podemos fazer para mitigar este problema? Eu também não tenho resposta para esta indagação, mas apenas sugiro que não adianta por a culpa nos biocombustíveis, porque isso não vai barrar seu avanço.

Tentar reduzir o consumo de energia seria uma saída óbvia, mas impraticável, já que a tendência é consumirmos cada vez mais e é difícil renunciar à comodidade que a energia nos proporciona. Subsidiar a produção de alimentos é impossível para os países pobres onde o problema da fome se concentra. Cobrar taxas sobre a venda de combustíveis e com o dinheiro subsidiar alimentos seria uma medida óbvia, mas os combustíveis (no mundo) já carregam impostos tão altos que seria dura a decisão política de aumentar essa cobrança. O desenvolvimento econômico com distribuição de renda, mais uma vez lembrado, traria uma solução para este problema, mas isso é outra questão bem complexa que já se discute há tempo.
Um equívoco comum é promover os cultivos não-alimentícios como forma de evitar o agravamento deste problema. Isso é um engano porque a concorrência entre alimentos e energia não ocorre no momento do consumo, mas no momento do cultivo. Por exemplo, quem planta uma lavoura não-alimentícia como mamona ou pinhão-manso, estará, possivelmente, deixando de plantar milho, feijão ou outro produto alimentar. Então, estará contribuindo da mesma forma para diminuição da produção de alimentos.

O Brasil está numa situação privilegiada neste momento porque, embora tenha milhões de habitantes que ainda passam fome, pode aproveitar a produção de biocombustíveis como uma oportunidade de gerar riquezas, que, se acompanhado de políticas públicas adequadas, pode gerar distribuição de renda e minimizar o problema da fome. Cabe somente a nós, pegar esse limão e fazer uma limonada.

Liv Soares Severino, é agrônomo, Mestre em Fitotecnia e pesquisador da Embrapa. E-mail: liv@cnpa.embrapa.br

Compartilhar: