Delfim Netto: Independência alimentar e etanol |
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| terça, 13 maio 2008 . Valor Econômico | |||||||||||
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É plenamente justificada a indignação do presidente Lula com a sórdida campanha européia e da ONU (que tem o mais nobre objetivo e a mais indecente performance para atingi-lo) contra os biocombustíveis e, em particular, contra o etanol brasileiro. Trata-se da mais pura chicana política. Vereadores de arraial, disfarçados de estadistas, defendem os mais inconfessáveis interesses econômicos com o falso argumento que eles irão produzir a fome no mundo. Chicana, em primeiro lugar, porque a Europa criou o biodiesel (de colza) e, de fato, é a maior produtora mundial do produto. E, em segundo lugar, porque o Brasil tem aumentado, simultaneamente, a produção de alimentos e de cana-de-açúcar, como se vê abaixo: A safra de grãos 2007/08 revela aumento de 7,1% com pequeno crescimento de área plantada (1,6%) e 5,5% de aumento da produtividade. Ao mesmo tempo cresceu a produção de cana-de-açúcar em 8,3%. Com relação à cana, convém lembrar que a área média renovada anualmente (com o plantio de alimentos) é da ordem de 13%. No setor sucroalcooleiro, duas observações são importantes: 1) com o aumento da colheita mecanizada há uma enorme redução do uso da mão-de-obra na atividade (grosseiramente, para cada tonelada de cana colhida mecanicamente, dispensa-se um colhedor). Em São Paulo, por exemplo, onde a mecanização está em torno de 45%, estima-se que a colheita da produção da ordem de 350 milhões de toneladas (contra 320 na safra 2006/07) exigirá praticamente a mesma mão-de-obra da safra anterior. Se a mecanização fosse maior, haveria dispensa de mão-de-obra. O cronograma fixado em lei é atingir 100% de área mecanizável em 2021 e 100% de área "não-mecanizável" (queima em área menor do que 150 hectares ou declividade maior do que 12%) em 2031; e 2) produzimos hoje um litro de etanol com 1/3 da terra exigida há 25 anos (devido aos ganhos tecnológicos). Vemos que, graças às pesquisas que realizou, o Brasil criou uma eficiente agricultura tropical que deixa longe o fantasma malthusiano: produzimos mais, com menos terra e menos mão-de-obra! O mesmo acontece, aliás, no setor da pecuária de carne (onde somos o primeiro exportador mundial) e de leite (onde em breve assumiremos um importante papel no mercado internacional). Se isso não fosse suficiente para mostrar a tolice de atribuir ao etanol brasileiro uma redução da produção de alimentos, bastaria lembrar que, dos seus 850 milhões de hectares, o Brasil tem (com a tecnologia hoje existente) cerca de 350 milhões de terras agricultáveis, dos quais apenas 8 milhões (ou seja menos de 2,5%) estão ocupados com cana-de-açúcar. A pecuária ocupa 60% da área, mas a disponibilidade de pastos degradados que estão sendo liberados pelo avanço da tecnologia na produção da carne e de lácteos garante que podemos dobrar (ou mesmo triplicar) a produção de etanol sem derrubar uma árvore! O mesmo acontece com a cultura de grãos, que ocupa menos de 75% das terras próprias para sua produção. Campanha da Europa e ONU é pura chicana política O que está acontecendo no mundo deveria ser objeto de nossa reflexão. Deve ser agora evidente, para os ingênuos que defendem o livre-comércio "à outrance" por pura "bobice" ideológica, que os interesses nacionais não terminam nas "vantagens comparativas". Toda nação busca a autonomia alimentar, de forma que o comércio de alimentos será sempre um complemento da produção interna. Que falta lhes faz a história!![]() Como foi possível chegar a essa situação caótica onde a fome ameaça o mundo? Situação que não foi prevista ou intuída pela suposta "inteligência política e econômica" que sustentamos na ONU, na FAO, na OMC, no FMI, no Banco Mundial e "tutti quanti"? Quando e como nasceu isso? No fim da Segunda Guerra Mundial, a necessária autonomia alimentar mostrou a sua cara. Todos os países a procuraram através do suporte às suas políticas agrícolas. Quarenta anos depois, a Europa não sabia o que fazer com seus estoques produzidos por subsídios e "cotas" (alguém se lembra da "manteiga" e do "leite em pó"?), que protegeram uma agricultura ineficiente à custa de impedir as importações dos emergentes e, portanto, sem induzi-los a realizarem seu desenvolvimento com o aumento da produção para a exportação. E o que emergiu agora em plena negociação da Rodada Doha? O fantasma da fome e a busca da autonomia alimentar! Tomados de pânico, os países trataram de defender-se proibindo temporariamente as exportações. Pior, vários países estão desenvolvendo outra vez programas subsidiados e protegidos por "cotas" de importação de alimentos: a Rússia com a carne de porco, China e a Índia com os grãos, Irlanda com a carne de boi, a insensata (do nosso ponto de vista) defesa francesa da Política Agrícola Comum (CAP) e a "Farm Bill" aprovada pelo Congresso dos EUA. Os preços agrícolas estão subindo por muitos motivos: 1) o mais importante talvez seja a desvalorização da unidade de conta do comércio internacional, o dólar; 2) pela redução dos estoques (recomendação da própria OMC), porque com a "liberdade de comércio" eles seriam dispensáveis!; e 3) pela especulação desenfreada dos "hedges funds". O que restará disso? Primeiro, grandes conversas diplomáticas, lítero-musicais nos foros internacionais. Segundo, concretamente e por "baixo do pano", cada um vai buscar sua independência alimentar... Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento Textos Relacionados:
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Sergio P. Guimarães
disse:
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| Considero o comentário do ex-Ministro muito pertinente e esclarecedor, talvez, se lido pelo componente da ONU, o deixasse mais aliviado. 1
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| Comentário oportuno e muito esclarecedor.O Brasil está dando exemplo de como se produz alimento e bioenergia.Está cada vez mais provado que se pode produzir alimento e biuoenergia sem uma atividade atropelar o desenvolvimento da outra.Isso é aqui e em várias partes do mundo. A chiadeira desses Zeaglers e Zoelliks é para tornar as coisas ainda mais complicadas.O Professor levantou essa questão quando ele diz que os subsídios são o grande mau da evolução de produção agrícola mas que esse aumento de tom sobre crise de alimentos é para justificar mais proteção que esses países estão planejando para proteger ainda mais seus mercados agrícolas...veja a Irlanda querendo barrar a carne brasileira para vender seu bife a R$ 80,00 contra R$ 18,00 do bife brasileiro...?isso usando o artifício do CISBOV. Gente encastelada lá na ONU,BANCO MUNDIAL,FAO,etc...prontas para servirem de instrumento para tornarem as coisas piores do que estão... 2
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| Sim, muito pertinente o texto do ex-ministro, mas gostaria de fazer apenas uma reflexão. Quando diz que a produçào de alimentos aumentou, ele se baseia na produçào de grãos, e nesse ponto devemos entender a produçào de soja é isso ou estou enganada? Bom, se for, ótimo soja é alimento (e também é biodisel) , mas pensemos na nossa típica mesa brasileira, quantos brasileiros se alimentam de soja...achei que o prato brasileiro tipico fosse a base de arroz e feijào. E ai gostaria de saber como anda a produçào destes dois alimentos, aumentou, diminui? Esses dados ilustrariam melhor nossa discussão. Só acho bobagem vestirmos uma camisa nacionalista, quando nossos governates só se preocupam em defenderos interesses das grandes corporações. Claro, é ótimo que investimentos estrageiros sejam realizados no Brasil, mas mais uma vez esse dinheiro jamais chegará ao bolso de pequenos produtores. 3
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| Minha cara Maria Rosa,a produção de grãos em 2008 está estimada em 140 000 000 ton.aonde 60 mi é de soja,58 mi é de milho,4 mi é de feijão,13mi é de arroz,4 mi é de trigo ... Soja é alimento e biodiesel mas também o milho é alimento e biodiesel através das víceras das aves que entram como sebo,como gordura animal. Quanto ao arroz,nossa produção atende ao consumo interno sem se fazer estoque estratégico e quanto ao feijão,a produção atende ao consumo mas,por não ter estoque estratégico,ficamos a mercê de variáveis climáticas e foi o que aconteceu na última safra... Um dado concreto é que pelo fato dos preços dos alimentos estarem remunerando melhor o produtor,iremos aumentar a cada ano a nossa produção de grãos...áreas disponíveis para tanto,existem... 4
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| É certo que a ONU tem feito um papel de interlocutora dos países desenvolvidos e sempre que cria uma polêmica como o do biocombustível, é preciso ficar atento porque existe interesses não claros por traz disto tudo. Eles nunca comentam oque os países ricos estão fazendo com o petróleo que ainda domina toda a economia mundial e que ainda responsável por 90% da poluição mundial e tem o descaramento de dizer que os bois tem culpa nisto. Ainda tem gente aqui no Brasil que entra nesta, fazendo conferências sobre o "pum e arroto do boi. 5
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