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Sócias minoritárias

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Embora a soja seja a grande vencedora, o aumento da mistura de biodiesel no diesel mineral também traz boas perspectivas para as matérias-primas de menor volume
Edição de Ago / Set 2014 10 min de leitura
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Embora a soja seja a grande vencedora, o aumento da mistura de biodiesel no diesel mineral também traz boas perspectivas para as matérias-primas de menor volume

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Embora a soja seja a grande vencedora, o aumento da mistura de biodiesel no diesel mineral também traz boas perspectivas para as matérias-primas de menor volume


Alexandro Kurovski, de São Paulo

A chegada do B6 às bombas de combustível no início do mês passado movimentou o mercado e trouxe uma nova lufada de bom humor para o setor, que já se prepara para atender o B7 a partir de novembro. Isso gera uma chance para que o setor aumente suas vendas e reduza consideravelmente seus níveis de ociosidade, que no primeiro trimestre beiraram os 60%. Embora a maior parte desse crescimento venha a ser lastreado pela soja, cuja participação até o mês de maio ronda os 74%, está claro que o comércio das matérias- primas minoritárias também será impulsionado em menor grau.

Nessa categoria se destacam principalmente a gordura animal e o óleo de caroço de algodão, subprodutos de outros setores que encontraram no biodiesel um grande aliado. O sebo bovino – que antes do Programa Nacional de Biodiesel acabava, em grande parte, descartado pela indústria frigorífica – atualmente é responsável por 21,6% da produção de biodiesel no país. Já o óleo de caroço de algodão aparece na terceira posição, representando por volta de 1,7% do volume produzido.

Sebo Bovino

Das fontes minoritárias, o sebo bovino é a que apresenta as melhores perspectivas de crescimento com o aumento da demanda de biodiesel. De acordo com a Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), a expectativa do setor é de que a demanda pelo produto cresça até 20% entre 2014 e 2015. Para se ter uma ideia, a produção nacional de óleos e gorduras de origem animal em 2013 foi de 1,9 milhão de toneladas, sendo que, desse total, 1,4 milhão de toneladas foram de sebo bovino e 443 mil toneladas de óleo de aves.

Hoje, a maior parte do sebo produzido no país, cerca de 45%, acaba sendo absorvida pela indústria de higiene e beleza. Já a indústria de biodiesel transforma 41% desse resíduo. Do restante, 13% vai para alimentação animal e o 1% que sobra fica com a indústria química. Com o B6 e o B7 a Abra espera que o biodiesel se torne o principal destino para o sebo. Nas contas da associação, o setor deverá passar a consumir uma fatia de 60% do volume gerado no país.

Os efeitos da maior procura por sebo já começaram a ser sentidos no mercado, principalmente nos preços. Andrea Gaia, corretora da UniAmérica e especialista em gordura animal, explica que o biodiesel tem contribuído muito para valorizar o produto. “Estamos em um momento de queda e os preços só não estão mais baixos por causa do biodiesel”, esclarece.

No estado de São Paulo, a tonelada de sebo tem sido negociada em média por R$ 1.800, uma redução de quase R$ 400 em relação ao mesmo período do ano passado. Hoje o mercado dispõe de um volume mensal médio que ultrapassa as 150 mil toneladas de sebo e o preço acaba sendo determinado principalmente pelo óleo de soja, que ainda é o principal referencial de mercado. Fatores como qualidade e cor do sebo também acabam entrando nessa equação. Vale ressaltar que, embora tenha crescido em importância nos últimos anos, a venda do sebo ainda representa uma parcela relativamente irrisória no faturamento dos frigoríficos: pouco mais de 1%.

A disponibilidade do produto, no entanto, está intimamente atrelada ao consumo de carne e ao número de abates realizados, como lembra o médico veterinário e consultor da Scot Consultoria, Hyberville Neto. O rebanho brasileiro tem se mantido estável e sem grandes mudanças nos últimos anos, o que dificulta um aumento do fornecimento de gordura animal. “No momento a oferta é confortável, mas existe um limite”, destaca.

E há mesmo um limite no fornecimento de sebo, mas ele deve ser ampliado nos próximos anos devido ao aumento no consumo de carnes que vem sendo registrado. Um relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e da Organização para a Cooperação e o Desen-volvimento Econômico (OCDE), divulgado na primeira quinzena de julho, aponta que o aumento na renda de diversos países em desenvolvimento deverá levar a um crescimento na procura por produtos ricos em proteínas. Isso deverá aquecer ainda mais a demanda do setor de proteína animal e, por consequência, levar a uma expansão na disponibilidade de sebo.

Para a FAO, a carne de frango deve superar a suína e se tornar a proteína mais consumida pelo mundo nos próximos dez anos. Nesse cenário, a gordura de frango também deve ganhar mais espaço como matéria-prima na produção de biodiesel. Normalmente, essas duas matérias-primas juntas não chegam a 1% do mercado de biodiesel. Contudo, a gordura de frango surpreendeu no mês de maio ao cravar uma participação de quase 2,1% no levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Este é, de longe, o maior volume já registrado desde o início do histórico. A única dúvida é se esse foi um ponto fora da curva ou se a oferta vai se expandir de forma sustentável.

Se por um lado a ampliação da mistura de biodiesel representa preços mais estáveis e garantia de negócio para as gorduras animais, nas usinas que utilizam o produto o clima ainda é de cautela. Paulo José Fuga, gerente da unidade de biodiesel da Biofuga – usina que surgiu de um grupo com atuação no mercado de couros como estratégia para valorizar o sebo – diz que é cedo para saber como o setor irá se comportar com o aumento da demanda. Já o diretor comercial e de novos negócios da JBS Biodiesel, Alexandre Pereira da Silva, diz que não existem dados oficiais sobre o comércio de sebo que p o s s a m ajudar a responder esses questionamentos de forma segura, por isso a empresa prefere não fazer conjecturas antes de coletar informações mais detalhadas.

Já para a Abra, não há dúvidas: com outro grande consumidor de sebo bovino entrando na disputa com a indústria de higiene e limpeza, a associação acredita que os preços só poderão subir. As empresas desse setor preferem não se pronunciar para evitar especulação, mas a consultora Andrea Gaia adianta que um eventual aumento no preço do sebo certamente vai se refletir nas prateleiras dos supermercados e puxar para cima produtos como sabão e sabonete, que, historicamente, não costumam apresentar grandes variações.

Preços muito altos também acabam por afugentar as usinas, já que os custos de produção de biodiesel a partir da soja são menores, principalmente em períodos de temperaturas mais baixas, quando o trabalho com o sebo se torna mais dispendioso por causa do elevado ponto de entupimento dessa matéria-prima. Mas vá o preço na direção que for, fontes ouvidas por esta reportagem não acreditam que possa faltar produto no mercado.Segundo elas, o setor de sebo já conta com uma estrutura consolidada e capaz de atender a demanda, por isso não estão previstos investimentos significativos para os próximos meses, mesmo com a chegada do B7.

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Óleo de algodão

Com a expectativa da melhora na demanda e a maior presença de vendedores e compradores, o mercado de caroço de algodão também está mais animado.

Tradicionalmente, o caroço de algodão é o terceiro colocado no ranking de matérias-primas do setor de biodiesel. Contudo, depois de atingir um pico de 4,7% em 2012, a participação dessa matéria-prima vem caindo, e em maio passado somente 0,34% do biodiesel produzido no Brasil teve algodão como matéria-prima. Apenas na região Nordeste o óleo de algodão manteve um volume relevante, com um índice de 20%.

O presidente da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa), Milton Garbúgio, considera que o aumento do percentual de biodiesel de 5% para 7% é visto com bons olhos pelo setor algodoeiro, justamente porque amplia as possibilidades de comercialização – e consequente valorização – do caroço de algodão, ainda considerado um subproduto no Brasil. “É claro que há vários gargalos no setor da produção de biodiesel que podem ser solucionados com o apoio efetivo do governo e uma política mais consistente de apoio à produção de biodiesel, mas é um setor com grande potencial”, frisa.

Vale destacar que o algodão não é plantado pelo grão ou pelo óleo. O que é valioso no vegetal é a fibra, cobiçada pela indústria têxtil. Para o produtor, a ampliação do mercado é um ótimo negócio, já que essa é uma cultura particularmente cara que exige muito fertilizante e maquinário específico. Vender o óleo é garantir uma renda extra que amortiza os investimentos. A comercialização do caroço representa em média 16% da receita do agricultor, percentual que não pode ser desprezado.

No entanto, o desacordo quanto aos preços tem limitado o fechamento de negócios. Na bolsa de Chicago, a tonelada do caroço de algodão tem sido cotada a R$ 500, preço considerado salgado pela indústria de esmagamento e baixo pelos produtores. No geral, o caroço tem se desvalorizado no mercado: no mesmo período do ano passado a tonelada chegou a custar R$ 660.

“O aumento da área cultivada e a grande disponibilidade do produto puxaram os preços para baixo e a tendência é que caiam ainda mais”, explica o pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP) Lucilio Rogério Alves. A produção de caroço de algodão saltou de 2 milhões de toneladas em 2013 para perto de 2,6 milhões em 2014, segundo o 10º Relatório de Acompanhamento da Safra Brasileira de Grãos da Conab. Com o preço elevado, diminui a oferta de óleo de caroço para a produção de biodiesel, pois para a indústria de processamento se torna mais vantajoso a produção do óleo semirrefinado para as indústrias alimentícias.

O algodão segue a tendência de queda verificada nos preços das principais culturas agrícolas e que deve se manter nos próximos dois anos, quando ocorrerá uma estabilização das cotações, acima dos níveis registrados antes da crise de 2008, de acordo com o relatório da FAO/ OCDE já mencionado.

Para as usinas de biodiesel que utilizam o insumo, essa é uma boa notícia. O valor mais baixo estimula a utilização do óleo de caroço, já que ele é um óleo mais impuro e exige um pré-tratamento específico, o que envolve custos mais altos de operação. De acordo a Ampa, a capacidade de oferta não deverá ser limitada pela estrutura do setor, que deverá ser capaz de atender ao aumento da procura com relativo conforto e sem a necessidade de novos investimentos na indústria de esmagamento a curto prazo.

Este é, sem dúvida, um momento-chave para as matérias-primas minoritárias dentro da cadeia do biodiesel. Claro que a soja vai continuar reinando e deve até aumentar sua participação no mercado – simplesmente por ser a única com oferta suficiente para atender ao volume extra de produção necessário ao B6 e B7 –, mas o sebo e o caroço de algodão terão uma grande chance de pegar uma carona e atingir novos patamares.

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