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Fábio Rodrigues, de São Paulo
“Todo mundo me conhece por Antin, se me chamar assim todo mundo vai saber que sou eu”, apresenta-se Antônio Luiz Bianchini, esbanjando simplicidade, logo no começo da entrevista concedida a BiodieselBR. Nem parece, mas esse economista de formação, com mais de quatro décadas de experiência no mercado de soja, comanda um verdadeiro império, que segundo o último levantamento da revista Exame tem vendas anuais superiores a um bilhão de dólares.
Segundo o empresário, a Bianchini tem planos para o setor de biodiesel – segmento no qual atua desde setembro de 2012 – que podem nem parecer tão grandiosos assim, mas que são certeiros e seguros. Planos de quem conhece bem aonde quer chegar e como vai fazer para chegar lá.
BiodieselBR – Como é que uma fábrica de sabões acaba se transformando numa potência do comércio e processamento de soja?
Antin Bianchini – Potência é bondade sua. Na realidade, nossa empresa tem origem bastante humilde. Ela foi fundada pelo meu primo Antônio João Bianchini e outros dois amigos em 1960. Originalmente era uma fábrica de sabões no município de Bento Gonçalves (RS), um negócio que não tinha nada a ver com a soja.
BiodieselBR – E como ela mudou o foco para a soja?
Antin Bianchini – Isso aconteceu em 1965, um pouco por curiosidade e um pouco por necessidade, porque um dos insumos usados na fabricação de sabões era a lecitina de soja. Foi por causa disso que meu primo e os sócios acabaram descobrindo essa oportunidade. Na época, a soja era uma novidade, mas eles perceberam que não era só uma aventura e que o processamento de soja poderia ser um bom negócio. Então eles montaram uma esmagadora num modelo bastante artesanal com um sistema de prensagem mecânica, até porque as plantas daquela época eram bem menores do que as de hoje. A primeira fábrica moía nove toneladas de soja por dia e achávamos isso bastante.
BiodieselBR – Você já trabalhava na empresa desde essa época?
Antin Bianchini – Não. Eu fui me envolver mais efetivamente a partir de 1974. A Bianchini e um grupo de outras pioneiras tinha começado a exportar farelo de soja em 1971. Por isso, em 1974 a empresa resolveu abrir um escritório em Porto Alegre e eu fui convidado para vir colaborar. Desde então faço parte do dia a dia da Bianchini e trabalho por seu sucesso.
BiodieselBR – A Bianchini estava se saindo bem no mercado de soja. Por que investir em biodiesel?
Antin Bianchini – Temos duas plantas industriais, uma no município de Rio Grande e a outra em Canoas, que fica na Grande Porto Alegre. Como ambas estão localizadas perto de portos e têm uma logística muito boa, elas são voltadas a alimentar o mercado de exportação. Como disse, a Bianchini começou a exportar soja ainda em 1971 e, desde então, nossa matriz de vendas foi basicamente exportadora. Nessa última década acabamos percebendo que precisávamos ter uma presença maior no mercado interno, e uma forma de viabilizar isso foi através do biodiesel. Montar uma usina nos permitiria agregar valor ao óleo que antes era canalizado para a exportação de forma a vender no mercado interno.
BiodieselBR – E quando foi que vocês trocaram a intenção pela ação e começaram o projeto da usina?
Antin Bianchini – Lá em 2005, pouco depois de o PNPB ter sido lançado, fomos procurados por parceiros de outros estados para entrar em sociedade para a instalação de uma usina de biodiesel aqui no Rio Grande do Sul. Mas naquele momento entendemos que se tratava de um projeto um pouco arriscado e, por uma questão de prudência, resolvemos esperar um pouco mais.
BiodieselBR – Por quê?
Antin Bianchini – Naquela época as regras dos leilões exigiam que você se comprometesse a vender sua produção a preços fixos por períodos muito longos. Se essa regra não tivesse sido alterada, acho que o PNPB teria sido um fracasso. Qualquer um que acompanhe o mercado sabe que o biodiesel seria inviável por causa das variações nos preços internacionais da soja. Por isso nós entendemos que não deveríamos comprometer nossa saúde financeira nos lançando numa aventura.
BiodieselBR – E quando foi que vocês mudaram de ideia?
Antin Bianchini – Foi em 2007. Foi nesse ano que nós tomamos a decisão de construir uma usina, que efetivamente começamos em 2009. Como o nosso era uma projeto um pouco maior e fora do padrão costumeiro daquela época, a construção acabou demandando um pouco mais de tempo do que prevíamos porque não existiam outros projetos que pudessem servir como gabarito para que os órgãos governamentais fizessem a avaliação de nossa usina. Além disso, o lugar que escolhemos para fazer a instalação de nossa usina aqui no parque industrial de Canoas fica dentro da área de preservação ambiental permanente do Rio Jacuí, então foi preciso cuidado redobrado. Tanto que imaginávamos entrar no mercado em 2011, mas só conseguimos ter essa planta pronta no início de 2012.
BiodieselBR – E não era mais uma aventura, então?
Antin Bianchini – Como já tínhamos capacidade de geração de matéria-prima suficiente sem ter que sair atrás de óleo para a produção do nosso biodiesel, o principal desafio era o acesso ao mercado. Isso tem a ver com a localização. Estamos perto do maior polo consumidor de diesel do Rio Grande do Sul, que é a região metropolitana de Porto Alegre, e a menos de oito quilômetros da Refinaria Alberto Pasqualini. Além disso, contamos com acesso rodoviário, hidroviário, ferroviário. Tínhamos todos os pré-requisitos possíveis para ter sucesso nesse empreendimento.
BiodieselBR – Uma coisa que sempre chamou atenção na Bianchini é que ela já nasceu grande: a planta está entre as cinco maiores do país mesmo sem ampliações.
Antin Bianchini – Acho que essa é uma característica nossa. Quando nós instalamos as nossas plantas de processamento de soja, elas eram top tanto em escala quanto em tecnologia. Claro que, hoje, já existem plantas maiores. Quando resolvemos instalar a usina de biodiesel raciocinamos o seguinte: como nossas esmagadoras têm capacidade de produção perto de mil toneladas de óleo por dia, a usina deveria poder absorver um volume perto desse. Por isso optamos por uma usina para 900 metros cúbicos por dia [324 milhões de litros por ano], o que nos daria alguma folga industrial na eventualidade de algum problema ou oportunidade de negócio.
BiodieselBR – Vocês entraram no mercado relativamente tarde em comparação com outras empresas. Existe alguma vantagem em chegar com a coisa em andamento?
Antin Bianchini – O mercado não era totalmente estranho para nós. Embora não tivéssemos uma usina, éramos os maiores fornecedores de óleo de soja para a produção de biodiesel no Rio Grande do Sul. Isso nos permitiu pegar parte do período das vacas gordas vendendo muito bem o nosso óleo. Quando finalmente entramos no segmento, além da geração dos insumos conhecíamos boa parte das regras e macetes do mercado, o que nos permitiu uma entrada mais tranquila.
BiodieselBR – A chegada de vocês no mercado aconteceu num momento pouco receptivo para novos empreendimentos. Como foi estrear no mercado nadando contra a corrente?
Antin Bianchini – Não exatamente. O primeiro leilão do qual participamos foi no lote para usinas sem Selo [Social] do L27, mas não conseguimos vender um litro de biodiesel sequer. Foi um momento terrível para nós e nos sentimos muito derrotados, mas compreendemos que precisávamos do Selo e nos tornarmos mais conhecidos das distribuidoras. Vale lembrar que nossa planta atrasou um ano. Já estávamos com ela pronta em janeiro de 2012, mas tivemos dificuldade em conseguir o registro especial de produtor de biodiesel da Receita Federal. Isso atrasou o nosso Selo Social, apesar de estarmos trabalhando junto a produtores familiares já há dois anos naquela época. Chegamos a pegar os últimos leilões onde o biodiesel teve margens relativamente razoáveis. As margens só começaram a se deteriorar ao longo de 2013.
BiodieselBR – O biodiesel virou um mau negócio?
Antin Bianchini – Não. Encaramos essa perda das margens com muita naturalidade porque viemos de um setor que também é hipercompetitivo, que é o esmagamento de soja. Estamos mais que acostumados a trabalhar com margens mínimas. Sabemos como otimizar nossos custos e produzir em escala, que é onde você vai conseguir tirar o seu resultado. Evidentemente que sempre que vendemos biodiesel foi porque essa foi a melhor opção para a Bianchini na comparação com a exportação do óleo de soja e a venda no mercado doméstico.
BiodieselBR – Vocês têm demonstrado considerável agressividade nos leilões. O que permite à Bianchini ser mais agressiva que as concorrentes?
Antin Bianchini – Eu prefiro dizer que somos competitivos a dizer que somos agressivos. Até porque em todo leilão sempre houve companhias vendendo biodiesel a preços bem mais baixos que os nossos. O que nos permite vender a preços competitivos é nossa facilidade de acesso a matéria-prima e nossa condição logística melhor que a de muitos concorrentes.
BiodieselBR – E como vocês receberam a notícia do aumento da mistura?
Antin Bianchini – Vai ajudar bastante. Vamos ter condições de vender volumes maiores. Eu não chego a acreditar que o B7 vai bastar para garantir preços – e margens – maiores, especialmente aqui no Rio Grande do Sul onde temos capacidade instalada seis vezes maior que a demanda local. Não vejo muita chance de mudança nesse cenário no médio prazo. Quem quiser continuar no mercado vai ter que ser competitivo. De qualquer forma, vai ser um ano um pouco melhor por causa do aumento na demanda, mas é claro que a economia também precisa ajudar. Segmentos importantes da economia brasileira têm se retraído, o que naturalmente arrasta o consumo do diesel.
BiodieselBR – E quanto à oferta de soja? Estamos saindo de um ano bom e tudo leva a crer que o próximo ano tem boas perspectivas. Isso não vai ajudar nas margens?
Antin Bianchini – Pode ser que sim. Nesses últimos anos coincidiu de termos preços altos para o óleo de soja, muito embora o preço do farelo esteja caindo muito mais que o preço do óleo. Enquanto as cotações do farelo recuaram perto de 50%, nas do óleo o movimento foi só de 5%. As variações do preço do grão tendem a se refletir mais rapidamente na proteína porque no óleo vegetal existem alternativas. Isso leva o farelo a ter picos e recuos mais acentuados, enquanto o óleo pode permanecer nos mesmos patamares. Não é incomum que a sojacaia bastante enquanto o óleo sobe, eu já vi isso acontecer algumas vezes ao longo dos anos.
BiodieselBR – Segundo o ranking da Exame, as vendas do grupo superaram o bilhão de dólares. Qual é o peso do biodiesel para a Bianchini?
Antin Bianchini – A Bianchini conta com outras plataformas de negócios, então o biodiesel não é tão vital para que a empresa continue existindo. Somos uma grande exportadora de farelo de soja, podemos vender a parte do óleo que não usarmos no biodiesel e também temos uma boa receita anual oferecendo serviços de logística. Contudo, o biodiesel representa 30% de nosso faturamento e essa é uma bela parcela.
BiodieselBR – Falando em exportação, até agora vocês não exportaram biodiesel. Por quê?
Antin Bianchini – Se não fizemos isso até agora foi porque, considerando tudo o que a exportação de biodiesel poderia nos gerar em receitas, achamos que o mercado interno ainda é mais vantajoso. Claro, cada empresa tem suas contas e respeitamos quem tomou a decisão de exportar, e a verdade é que achamos que o futuro do mercado passa por aí. Nós nos vemos como exportadores de biodiesel num período um pouco mais à frente.
BiodieselBR – Este não seria o momento para o Brasil ser mais agressivo, aproveitando que a Argentina e a Indonésia foram praticamente banidas do mercado europeu?
Antin Bianchini – Sim. Mas a verdade é que a Argentina continua exportando para a Europa usando outros mecanismos e classificações de produtos. Há subterfúgios que acabam permitindo a exportação.
BiodieselBR – Como os EUA faziam exportando através do Canadá depois de também serem taxados pela UE?
Antin Bianchini – Isso. Você acha mesmo que as usinas argentinas pararam de fabricar biodiesel? Ou que aquele volume todo está sendo absorvido pelo mercado interno? Claro que as posições diplomáticas, os tratados e o dumping contam nas questões de comércio exterior, mas sempre que um governo estuda banir as importações de determinado produto, ele vai olhar para o impacto do custo em mercado interno e pode optar por fazer vistas grossas. Esse volume continua sendo exportado, de alguma forma ele está saindo.
BiodieselBR – Então continuamos tendo que competir com a Argentina?
Antin Bianchini – Tem que entender o seguinte: você nunca vai estar sozinho num mercado. Então, temos que encarar com naturalidade o fato de termos um vizinho muito competitivo e, também, que no futuro podemos enfrentar os mesmos problemas que eles estão enfrentando hoje. Todos os países travam batalhas muito duras para defender seus próprios produtos e mercados. No farelo de soja já tivemos muitos processos ao longo desses anos todos. A China, por exemplo, importa nosso óleo de soja porque precisam, mas taxam nosso farelo.
BiodieselBR – Qual o ganho de competitividade de ter um terminal ferroviário?
Antin Bianchini – De imediato quase nenhum, você vê poucos benefícios. Nosso biodiesel não está sendo mais bem remunerado porque temos ligação ferroviária, até porque esse modal ainda está em período de testes. Mas nós estamos nos preparando para o futuro, porque não dá para raciocinar para sempre com base no transporte rodoviário. Como grupo, sempre primamos por observar as alternativas logísticas – além de saída rodoviária e ferroviária, temos ainda hidrovia. A ferrovia nos permite chegar até Araucária (PR), de onde podemos ter acesso a mercados consumidores muito interessantes no sul de São Paulo e norte do Paraná. Tem também ligação com o porto de Paranaguá, o que é bom para a exportação. Então, mais para frente, vai ser uma opção interessante e nós nos preparamos para essa realidade.
BiodieselBR – Como você vê o mercado daqui a dez anos?
Antin Bianchini – Apesar de estarmos no meio dessa luta pelo aumento da mistura, se continuarmos raciocinando apenas com base na soja enfrentaríamos limitações. O problema é o farelo. Vamos ter restrições de mercado para conseguir colocar os volumes de farelo que produziríamos. Esse é um limitador. O outro é o atual modelo do Selo Social. Apesar de achar o princípio por trás do Selo muito justo, obrigar as usinas do Sul a usarem 40% de matéria-prima adquirida da agricultura familiar é uma meta muito pesada. Para todas as usinas, atender às exigências do MDA é uma briga diária. Se a mistura aumentar muito, simplesmente não vai ter agricultura familiar o bastante para garantir as usinas. Com o Selo de hoje, dificilmente poderíamos chegar num B20 como tantas usinas sonham hoje, a não ser que surgisse uma nova cultura oleaginosa para ajudar a abastecer o mercado.
BiodieselBR – E como fica a Bianchini nesse cenário de longo prazo?
Antin Bianchini – Tranquila. A nossa planta atual é de bom porte e com um pouco mais de investimento daria para ampliá-la em 20%. Mas não acho que isso será necessário. Acho que com a nossa estrutura atual estamos preparados para ter uma boa participação no mercado pelos próximos dez anos.
