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Planejamento estratégico

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O presidente da EPE, Mauricio Tolmasquim, fala sobre a visão de futuro do governo brasileiro para o setor de energia
Edição de Out / Nov 2013 10 min de leitura
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O presidente da EPE, Mauricio Tolmasquim, fala sobre a visão de futuro do governo brasileiro para o setor de energia

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O presidente da EPE, Mauricio Tolmasquim, fala sobre a visão de futuro do governo brasileiro para o setor de energia


Fábio Rodrigues, de São Paulo

Estabelecida em março de 2004, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) foi criada para servir como uma central de inteligência do governo federal em tudo o que diz respeito a energia. É ela quem produz os Balanços Energéticos Nacionais (BEN), que radiografam de onde o Brasil está tirando sua energia e delineiam cenários de como será a expansão da oferta de energéticos nos próximos anos.
O engenheiro Mauricio Tolmasquim é o atual presidente da entidade e conversou com BiodieselBR sobre como vê a evolução do setor de energia no Brasil.

Revista BiodieselBR – Como foi que surgiu o convite para que você assumisse a presidência da EPE?
Mauricio Tolmasquim – A então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, me convidou para ser seu secretário executivo e me confiou a coordenação do grupo de trabalho que teve como objetivo assessorá- -la na formulação e implantação do Novo Modelo do Setor Elétrico. Passados dois anos e meio à frente da Secretaria Executiva do MME e com o modelo já implantado, achei que estava na hora de assumir novos desafios. Eu tinha a forte convicção de que o planejamento era a coluna vertebral desse novo modelo, uma vez que, sem a visão estratégica, não há como garantir uma expansão sustentada do setor elétrico. Considerava também que não bastava ter uma nova lei, era necessário contar com uma instituição que zelasse por sua implementação. Dessa forma, solicitei à então ministra que me liberasse para montar a Empresa de Pesquisa Energética, que apesar de legalmente criada, não passava ainda de uma ideia no papel.

Revista BiodieselBR – O Brasil é uma das lideranças globais em termos de energias renováveis, com participação de 42,4% na matriz segundo balanço elaborado pela própria EPE. Como o país construiu uma liderança tão destacada?
Mauricio Tolmasquim – O Brasil se aproveitou do seu imenso potencial hidrelétrico, construindo empreendimentos como Itaipu, Tucuruí, Ilha Solteira, Xingó e Paulo Afonso. Criou o Proálcool, que possibilitou de forma inédita a substituição de combustíveis fósseis pelo etanol. Além disso, pela introdução da bioeletricidade derivada basicamente da biomassa da cana- -de-açúcar e mais recentemente pela inserção da energia eólica de forma competitiva na nossa matriz elétrica.

Revista BiodieselBR – As iniciativas do Brasil em energias renováveis parecem ser muito mais uma questão de oportunidade do que preocupação com a questão ecológica. A situação é realmente assim?
Mauricio Tolmasquim – As duas realidades se entrelaçam. O interesse em desenvolver as energias renováveis engloba tanto as questões ambientais quanto as econômicas e sociais. Pode-se dizer que a oportunidade de investimentos em fontes renováveis foi amplificada pela questão ecológica.

Revista BiodieselBR – O Plano Decenal de Expansão de Energia–PDE 2021 indica uma tendência de crescimento moderado na participação dos renováveis durante a próxima década. De onde virá esse crescimento?
Mauricio Tolmasquim – Os estudos do PDE 2021 indicam que a contribuição das energias renováveis na matriz energética brasileira nos próximos dez anos crescerá dos atuais 43% para aproximadamente 45% em 2021. Alguns fatores explicam essa projeção. A expansão adicional das fontes renováveis de geração elétrica como a hidroeletricidade, a energia eólica e a biomassa no período decenal. Também prevemos uma recuperação, ao final do período, da indústria sucroalcooleira na matriz, tanto na oferta de etanol para a frota de veículos leves quanto na oferta de bagaço de cana-de-açúcar para uso energético industrial. Some-se a isso a contribuição da eficiência energética nos usos térmicos, principalmente na indústria, que proporciona economia de combustíveis fósseis. Ao final do horizonte, estima-se que as ações de eficiência energética permitam economizar o equivalente a cerca de cerca de 410 mil barris de petróleo em 2021, ou aproximadamente 20% do consumo de petróleo no país em 2011.

Revista BiodieselBR – E qual a relevância dos biocombustíveis e da biomassa nesse bom desempenho?
Mauricio Tolmasquim – A participação dos biocombustíveis na matriz energética, segundo os últimos estudos da EPE, deve crescer de 16,4% em 2012 para 17,6% do total da oferta de energia primária.

Revista BiodieselBR – Ainda assim, é um crescimento razoavelmente lento. Seria possível acelerá-lo? De que maneira?
Mauricio Tolmasquim – O aumento dos investimentos em eficiência nos processos agrícolas e industriais, as novas variedades de cana, os investimentos em ampliação de capacidade e outros esforços em toda a cadeia de produção para a redução de custos poderão conduzir à recuperação da competitividade do etanol, dando uma nova dinâmica ao setor.

Revista BiodieselBR – O quanto o biodiesel é significativo nesse panorama?
Mauricio Tolmasquim – Sua importância está no fato de ser um substituto para o óleo diesel, um produto em grande parte importado. Além disso, ele é um aditivo especial para a melhoria do combustível no tocante a emissões tanto de enxofre quanto de gás carbônico. O biodiesel também é um gerador de renda para cerca de 100 mil famílias segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social, que foram integradas ao sistema produtivo através das cooperativas da agricultura familiar.

Revista BiodieselBR – O PDE 2021 não parecia esperar muito do setor de biodiesel. Por quê?
Mauricio Tolmasquim – O custo do biodiesel tem se apresentado maior que o do diesel fóssil. Com isso, o aumento da proporção do teor mandatório implicaria o encarecimento da cadeia de transportes nacional. Entretanto, caso haja um aumento da competitividade do biodiesel no futuro, o teor mandatório poderá vir a ser alterado.

Revista BiodieselBR – Considerando que o diesel é o combustível líquido mais importante para o país, por que não colocar mais ênfase no biodiesel do que no etanol?
Mauricio Tolmasquim –
A questão da competitividade do biodiesel tem se mostrado muito mais impeditiva para o aumento da sua participação na matriz energética. O etanol, a despeito dos problemas verificados nos últimos anos, tem se mostrado competitivo em relação à gasolina.

Revista BiodieselBR – O fato de o biodiesel ser dependente de culturas agrícolas comercialmente importantes, como é o caso da soja, é um problema na visão da EPE?
Mauricio Tolmasquim – É importante a diversificação da cesta de insumos para a produção do biodiesel com a inserção de culturas mais produtivas em óleos, tais como a palma- -de-óleo. Além disso, o aumento da participação de outras matérias- -primas, principalmente aquelas que sejam intensivas em mão de obra, pode contribuir para incentivar um melhor desenvolvimento regional. Esse é um dos pilares do PNPB.

Revista BiodieselBR – A EPE trabalha com algum cenário onde o biodiesel chega a ficar mais barato que o diesel convencional?
Mauricio Tolmasquim – Apesar do bom momento que vive o setor da soja brasileira, batendo recordes históricos de produção, é importante salientar que o consumo do óleo e da soja em grão tende a crescer significativamente no mundo. Isto é muito bom para o complexo soja, mas talvez não seja tão alvissareiro assim para o biodiesel, pois o custo de sua principal matéria-prima tende a se manter elevado. Ressalte- -se que o preço da aquisição da matéria-prima corresponde a cerca de 80% do custo de produção do biodiesel.

Revista BiodieselBR – De que forma a EPE vem acompanhando os avanços da chamada biomassa de segunda geração?
Mauricio Tolmasquim – Acreditamos que a viabilização dos biocombustíveis de segunda geração concorrerá para manter a relevância da inserção da bioenergia na matriz de transportes brasileira e mundial. Com essas tecnologias, será possível aumentar significativamente a produção de biocombustíveis avançados, sem a correspondente ocupação de novas áreas de plantio. Outra perspectiva interessante se refere ao aproveitamento do biometano. Com o desenvolvimento de tecnologias que atendem aos requisitos de qualidade observados para o gás natural, têm se ampliado as possibilidades de uso desse gás, como por exemplo nos sistemas diesel-gás para veículos pesados.

Revista BiodieselBR – Uma coisa chamou muito minha atenção nos dados do Balanço Energético Nacional. Em 2008 os renováveis chegavam a 48,5%, mas sua participação recuou até chegar a 42,2% em 2012. Estamos ficando com a matriz mais suja? Isso não contradiz as projeções da EPE?
Mauricio Tolmasquim – No período de 2009 a 2012, o gás natural e o petróleo e seus derivados tiveram um ganho de participação na matriz energética nacional em detrimento das fontes renováveis, como a energia hidrelétrica, a bioeletricidade e os derivados da cana-de-açúcar. Isso ocorreu principalmente devido aos baixos índices pluviométricos, que provocaram uma redução nos reservatórios das usinas hidrelétricas, bem como à produção de cana- -de-açúcar abaixo do esperado. A forma de compensar essa queda foi aumentar o consumo de fontes não renováveis, como a geração de eletricidade através de térmicas a gás natural e combustíveis fósseis e o maior uso da gasolina em detrimento do etanol. O crescimento apresentado no PDE 2021 para os biocombustíveis se baseava na expectativa de recuperação do setor, em função da retomada de investimentos privados e da recuperação econômica mundial. No entanto, o aprofundamento da crise na zona do euro, que se alastrou pela economia mundial, aliado a condições climáticas desfavoráveis, aprofundou os problemas da indústria sucroenergética, o que refletiu na redução da oferta de etanol para o setor de transportes brasileiro.

Revista BiodieselBR – Uma parte considerável da lógica por trás dos investimentos no setor de biocombustíveis estava fundamentada na ideia de que o pico do petróleo aconteceria em breve, mas não é bem o que temos constatado. Como isso afeta as perspectivas dos renováveis?
Mauricio Tolmasquim – Os recursos energéticos fósseis não convencionais, que agora se tornaram viáveis em vários países – mais notadamente, nos EstadosUnidos – podem deslocar o pico do petróleo de maneira significativa. Especialmente se forem disponibilizados a preços muito competitivos. Se esse cenário for concretizado, as perspectivas econômicas dos biocombustíveis ficariam mais comprometidas. No entanto, há outros fatores a se considerar, como por exemplo a questão ambiental, que podem restringir a participação dos combustíveis fósseis em benefício dos biocombustíveis na matriz energética mundial.

Revista BiodieselBR – De que forma a EPE vê o comportamento do preço do barril de petróleo pelos próximos anos?
Mauricio Tolmasquim – No médio prazo, acreditamos que o mercado internacional de petróleo permanecerá apertado, fazendo com que os preços se mantenham num patamar ainda elevado. Num prazo mais longo, porém, alguns fatores tais como a retomada e maturação de projetos de exploração e pesquisa (E&P), que haviam sido cancelados ou adiados por causa da crise financeira global, a manutenção de um crescimento econômico mundial moderado, o efeito da alta de preços sobre a demanda de derivados e a maturação de políticas de substituição de derivados e de eficiência energética, deverão levar a uma queda das cotações do produto.

Revista BiodieselBR – Como a exploração do pré-sal e a emergência dos fósseis não convencionais modificam o panorama da energia no Brasil para os próximos anos?
Mauricio Tolmasquim – Com o petróleo advindo do pré-sal chegaremos ao final da década com uma produção de aproximadamente 5 milhões de barris diários de petróleo, dos quais mais de 2 milhões de barris por dia deverão ser exportados. As nossas previsões são de que a participação das energias renováveis se manterá nos níveis atuais ou ocorrerá um leve crescimento em sua participação na matriz energética brasileira. Com relação ao gás não convencional, esperamos que a rodada a ser promovida pela ANP no final do ano possa resultar, no médio prazo, em perspectivas positivas para a sua inserção na matriz.
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