

Experimentos de melhoramento de oleaginosas exóticas conduzidos nas diferentes regiões brasileiras estão permitindo reunir informações para definir os sistemas mais adequados à produção de biodiesel

Experimentos de melhoramento de oleaginosas exóticas conduzidos nas diferentes regiões brasileiras estão permitindo reunir informações para definir os sistemas mais adequados à produção de biodiesel
Juliana Tavares, de São Paulo
O sucesso do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB) depende da diversificação das matérias-primas que participam da cadeia produtiva do biodiesel. Além das opções mais viáveis hoje em dia como a canola e o dendê, existem algumas outras oleaginosas que estão sendo estudadas para, no futuro, ocupar um pedaço do programa que hoje é da soja.
Com exceção do dendê, as oleaginosas convencionais apresentam produtividade relativamente baixa de óleo quando comparadas às espécies ainda não utilizadas comercialmente. A verdade é que, como já possuem domínio tecnológico para o cultivo, logística apropriada e escala de produção, elas continu-am atraindo mais investimentos do que as novatas. “Os programas de melhoramento das oleaginosas tradicionais anuais estão em fase avançada, inclusive quanto ao uso de ferramentas biotecnológicas para acelerar o melhoramento genético, bem como para introduzir características de interesse agroindustriais”, revela o pesquisador Bruno Laviola, da Embrapa Agroenergia.
Já as oleaginosas de alto potencial – como o pinhão-manso, a macaúba e o babaçu –, embora apresentem rendimentos de 3 a 8 vezes superior ao da soja, ainda penam para engrenar. O problema é que elas não estão domesticadas e os programas de pesquisa ainda estão numa etapa relativamente rudimentar em relação a domínio tecnológico, apesar da disposição de disponibilizar resultados para breve. “Por isso, as ações atuais do setor produtivo se concentram no aumento da área plantada, na constituição de bancos de germoplasma e na caracterização dos acessos a essas oleaginosas”, diz Laviola.
Ida ao banco
Um banco de germoplasma é formado pela reserva dos materiais genéticos que apresentaram os melhores resultados de uma espécie. Pesquisadores e empresas recorrem ao banco em busca de variedades que tenham as características genéticas que desejam induzir nas populações em processo de melhoramento, como, por exemplo, ausência de toxidez, resistência a seca, pragas e doenças, qualidade de óleo, entre outras.“A manutenção de bancos de germoplasma com ampla variabilidade genética é de grande importância para a continuidade dos programas de melhoramento. Com eles há ganhos contínuos para diversas características de interesse agroindustrial”, explica Laviola.
Embora central, essa não é a única arma dos programas de melhoramento que trabalham com novas oleaginosas. Também são usados métodos estatísticos avançados para seleção de características que são reguladas por muitos genes ao mesmo tempo e/ou que sejam altamente influenciadas pelo ambiente. O objetivo é ajudar os cientistas a encontrar o veio de ouro nesse garimpo genético. “A utilização destes métodos permite predizer, com alta precisão, o valor genético dos indivíduos”, afirma o pesquisador da Embrapa.
Atalho
A fim de dar maior agilidade aos programas de melhoramento, diversas empresas de pesquisa estão em busca de tecnologias e métodos que permitam a seleção precoce de genótipos superiores. Isso permitiria acelerar a construção de bases confiáveis para a seleção genômica no melhoramento. A seleção genômica é um método que busca predizer o valor genético dos indivíduos selecionados mediante o uso de um grande número de marcadores moleculares e modelos estatísticos apropriados. Sem isso, os pesquisadores precisariam esperar que qualquer nova cultivar começasse a dar seus primeiros frutos para, só então, determinar sua produtividade – uma espera que pode levar vários anos no caso de espécies perenes, como o dendê.Mesmo essa tecnologia, entretanto, exige que, num primeiro momento, sejam realizados testes de campo em idade de avaliação, a fim de se “calibrar” os modelos preditivos. Ela também não chega a substituir completamente todas as fases de avaliação em campo, uma vez que para registrar uma nova cultivar são necessários testes em condições reais de plantio. “Essas tecnologias de ponta serão muito úteis nos estudos de diversidade genética e potenciais para a seleção assistida e/ou genômica de caracteres quantitativos e de expressão tardia, como a produção de grãos”, informa Laviola.
As oportunidades são tantas e o mercado tão atrativo que empresas e pesquisadores estão mesmo dispostos a apostar alto. A SG Biofuels (SGB), por exemplo, está concentrando os seus esforços na Jatropha curcas, o nome científico do pinhão- -manso – uma cultura subtropical não comestível que produz sementesque podem ser usadas numa grande variedade de biomateriais, incluindo o biodiesel, biocombustível de aviação e produtos de química fina.
Devido a seus inúmeros atributos, a espécie tem sido identificada como uma das matérias-primas promissoras no longo prazo para produção em grande escala de óleo vegetal sustentável. Apesar de o pinhão-manso só atingir a maturidade de produção em 4 a 5 anos, a produtividade nos primeiros dois anos se mostrou um indicador suficiente para prever a produtividade nos anos posteriores. Em outras palavras, é possível realizar cruzamentos específicos com confiança significativa, antes do quarto ano de maturidade da planta.
“Além de ser economicamente viável, a Jatropha curcas não compete com a produção de alimentos”, garante Robert Schmidt, cientista chefe da SGB. “A espécie pode ser cultivada em terras que são consideradas inadequadas para outras culturas e atende à demanda de desenvolvimento sustentável e ambientalmente positivo, permitindo a produção de energia de carbono neutro.”
De acordo com Schmidt, governos, investidores e empresas multinacionais começaram a adotar o pinhão-manso com a esperança de combater as alterações climáticas e prover segurança energética e desenvolvimento rural. “Infelizmente, a cultura ainda não havia passado por uma domesticação profissional, e muitos projetos iniciais falharam em produzir os rendimentos esperados”, informa. “Ao contrário dessas pesquisas, nossa plataforma de melhoramento e biotecnologia é baseada em uma coleção robusta de germoplasma, que já demandou cerca de US$ 30 milhões em investimentos desde o início de suas operações, há cinco anos.”
Esses investimentos fazem sentido quando se mantém em mente que o mercado global de biocombustíveis deve chegar a US$ 280 bilhões por volta de 2022, segundo pesquisa realizada pela Pike Research – uma empresa de consultoria especializada no mercado de energias limpas. Além disso, a indústria bioquímica deverá crescer para algo entre US$ 250 bilhões e US$ 500 bilhões até 2025.
Questão de tempo
O grande desafio dos programas de melhoramento das espécies potenciais para produção de biodiesel é o tempo. No melhoramento genético de culturas anuais, por exemplo, consegue-se resultados ano a ano.Já nas espécies perenes, os avanços se dão muito lentamente. Com a macaúba, é preciso esperar entre 6 e 8 anos para que se possa selecionar com exatidão os genótipos superiores. “O ciclo de melhoramento é o intercruzamento ou autofecundação de genitores selecionados, implantação de testes de campo, avaliação e seleção das famílias ou indivíduos superiores. Muitas pesquisas vêm sendo realizadas, porém o limite para que a pesquisa dê resultados satisfatórios é o tempo que cada planta precisa para expressar o potencial de rendimento. Além disso, como são espécies perenes, a continuidade de recursos é importante para que não haja interrupção nas pesquisas”, afirma Alexandre Alonso Alves, também pesquisador da Embrapa Agroenergia.
As vantagens do melhoramento podem incrementar muito o setor de biodiesel. No caso específico do dendê, o Brasil já possui o domínio tecnológico e a espécie tem a maior produtividade entre as oleaginosas cultivadas – o que representa de 8 a 10 vezes a produtividade da soja. Outro aspecto importante é que a utilização dessas espécies possui características regionais. “A diversificação na cadeia de produção de óleo é importante para a sustentabilidade das cadeias produtivas, seja na produção de óleo para fins alimentícios, biocombustíveis ou outros usos que permitam maior remuneração”, informa Alves.
As possibilidades de desenvolvimento de oleaginosas são bastante promissoras. Mas não é um projeto de curto prazo: será preciso perseverança, foco e, principalmente, continuidade de investimentos.