


Dentre outros coprodutos da indústria do biodiesel, merece especial atenção a produção de glicerina. Como este insumo é gerado numa razão aproximada de 10% do volume produzido de biodiesel, pode-se estimar que fossem gerados atualmente no Brasil mais de 243 milhões de litros de glicerina bruta ao ano. Até 2004, antes do início da produção de biodiesel, eram produzidas em saboarias espalhadas pelas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste pouco mais de 15 milhões de litros de glicerina ao ano, os quais abasteciam o consumo interno e as exportações.
Diferentemente de outros coprodutos da cadeia produtiva do biodiesel, como o farelo de soja, que encontram facilmente colocação no mercado, o consumo tradicional da glicerina (indústria farmacêutica, de cosméticos e de higiene pessoal) não possui elasticidade suficiente e não foi capaz de absorver esse aumento vertiginoso de produção. Esse desequilíbrio gerado no mercado da glicerina fez com que o preço do produto despencasse, além de gerar grandes estoques nas usinas. Como consequência, está se procurando tanto na universidade como na indústria desenvolver novos usos para a glicerina, até mesmo para dar sustentabilidade à cadeia de produção de biodiesel. No meio acadêmico, já se desenvolveram desde combustíveis alternativos à gasolina, pelas reações de esterificação e eterificação da glicerina com metanol ou etanol, até processos de geração de gás natural ou gás de síntese.
Recentemente, li uma notícia bastante interessante sobre o uso da glicerina diretamente como combustível em fornos para produção de cerâmica. Este uso foi desenvolvido por uma indústria cerâmica do Mato Grosso do Sul, para substituir lenha e palha de arroz. Foi apontado que a glicerina apresenta uma série de vantagens sobre os combustíveis sólidos usados anteriormente, como baixa geração de cinzas e manuseio mais fácil, pois o combustível é injetado no forno por meio de bombas e bicos injetores. A preocupação com uma possível queima incompleta da glicerina que levasse à emissão de acroleína, um composto altamente tóxico e comprovadamente carcinogênico, foi resolvida de forma bastante simples. A glicerina somente é injetada nos fornos quando o mesmo está a uma temperatura superior a 500°C, a qual garante uma decomposição completa da acroleína, uma vez que esta se decompõe acima de 300°C. Para pré-aquecer o forno é utilizada palha de arroz. Além de substituir a lenha, que sofre restrições ambientais, a empresa conseguiu utilizar a glicerina a um preço baixo e ainda ganhar créditos de carbono.
Este é um interessante exemplo de criatividade para solucionar problemas de duas cadeias produtivas. O excedente de glicerina gerado pela indústria de biodiesel, que já se considera mais um passivo ambiental que um coproduto, atendeu à necessidade da indústria cerâmica de trocar a sua fonte energética, por força da legislação ambiental.