

Plantado por causa de sua pluma, o algodão encontrou no biodiesel um importante aliado. Hoje o óleo extraído de seu caroço já é a terceira fonte mais usada na produção do biocombustível

Plantado por causa de sua pluma, o algodão encontrou no biodiesel um importante aliado. Hoje o óleo extraído de seu caroço já é a terceira fonte mais usada na produção do biocombustível
Vinícius Boreki, de São Paulo
O “boi vegetal”. É essa a alcunha pela qual o algodão é chamado por seus produtores. O apelido não foi ganho por acaso: a planta é quase toda aproveitada – assim como o boi, do qual, diz o ditado, “só se perde o mugido”. Seu produto principal é a pluma usada pela indústria têxtil, mas o caroço serve de base para a produção de rações animais e de óleo, usado para diversos fins. O óleo de algodão se tornou a terceira matéria-prima mais importante para a indústria brasileira do biodiesel, mas, mesmo assim, a planta ainda é um mistério a ser desvendado no mercado de biocombustíveis.
Embora tenha sido responsável por 3,15% do biodiesel fabricado no país em 2011 – tendo chegado a quase 10% da produção nacional nos meses de janeiro e fevereiro deste ano –, o óleo de algodão está abaixo do seu potencial no mercado de biocombustíveis. Tendo como produto principal a pluma, o biodiesel fabricado do caroço de algodão é um coproduto que pode, simultaneamente, diminuir a dependência brasileira da soja e incrementar o rendimento dos agricultores. Mas, para isso acontecer, há necessidade de superar a concorrência com as indústrias alimentícia e química e a falta de máquinas adequadas à extração do produto em algumas regiões produtoras.
O fato de ser quase totalmente aproveitado torna o algodão uma cultura bastante difundida entre os agricultores comerciais. Tanto que é a segunda oleaginosa do país (atrás apenas da soja), segundo estimativa da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), e está entre os cinco grãos mais comuns do globo. “Além da pluma, a torta é a base alimentar do gado na região Nordeste e o óleo se inclui no Programa Nacional para Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). Mas a quantidade produzida ainda é relativamente pequena para o setor de biocombustíveis”, explica o chefe geral da Embrapa Algodão, Napoleão Beltrão.
Apesar de ocupar uma área relativamente pequena quando comparada à da soja – 1,4 milhão de hectares contra 27,3 milhões de hectares na safra 2012/13, segundo estimativas da Conab –, o caroço ainda é largamente subaproveitado. “Se toda a produção de caroço de algodão fosse direcionada para o óleo, poderiam ser produzidas cerca de 500 mil toneladas. Considerando a demanda compulsória de 2,3 milhões de toneladas de biodiesel em 2011, o total de óleo de algodão poderia atender a mais de 20% da demanda”, explica o pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) para grãos, fibras e raízes, Lucilio Rogerio Aparecido Alves.
Em 2012, o algodão perdeu seu lugar em muitas propriedades. Em função do aumento do preço da soja, um grande número de agricultores migrou atrás de lucros melhores. Em Pernambuco, muitos desistiram da cultura em 2012. “O governo de Pernambuco teria o maior interesse em manter a área de plantio de 2011 para 2012, mas os agricultores optaram pela soja em razão do grande mercado internacional para esta safra”, relata o gerente regional do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), Francisco Lopes Sobrinho.
Segundo Beltrão, da Embrapa, a redução não chegará a afetar a posição do Brasil no mercado global. “Há uma busca pelas culturas que pagam mais. Como a soja está em um momento excepcional, isso causa a redução de outras culturas, incluindo o algodão. Ainda com essa queda, o Brasil está entre os cinco países que mais exportam algodão no mundo”, afirma.
Adilton Domingos Sachetti, conselheiro consultivo da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa) e ex-vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), afirma que, mesmo com os bons preços obtidos pela arquirrival soja, o algodão continua a ter seu espaço no país. “Há, sim, uma influência do preço da soja no plantio do algodão. Contudo, a cultura continua a ter espaço no país”, afirma Sachetti, que também já ocupou a presidência da fabricante mato-grossense de biodiesel Cooperbio.
Além da competição com outras culturas, o óleo obtido do caroço do algodão também é visado por outros setores. O alimentício é o comprador mais comum, enquanto no ramo industrial o produto chega a ser usado na fabricação de papel e celulose e pela indústria química – até mesmo em misturas para defensivos agrícolas. “Considerando a disponibilidade do caroço de algodão nas últimas seis safras, o biodiesel aparece como alternativa importante para maximizar seu uso”, opina Alves, do Cepea.
Cadeia produtiva
O biodiesel não é o principal objetivo do plantio de algodão, mas se tornou um coproduto bem-vindo, especialmente nas regiões Nordeste e Centro- -Oeste.O boi vegetal tem como principal fim a pluma, visada sobretudo pela indústria têxtil. Em uma área aproximada de 1,4 milhão de hectares plantados no Brasil, estima-se a geração de aproximadamente 2 milhões de toneladas de plumae 2,79 milhões de toneladas de caroço. Em 2011, de acordo com um estudo da cadeia produtiva do algodão elaborado pela Abrapa, o faturamento com a pluma foi de US$ 5,6 bilhões para o mercado interno e de US$ 0,7 bilhão para o mercado externo.
No que diz respeito ao caroço de algodão, a pesquisa da Abrapa leva em conta que 60% da produção se destina ao esmagamento, enquanto os 40% restantes seguem in natura para o consumo animal. Após passar pelas esmagadoras, são obtidos três tipos de produtos: óleo vegetal, torta/farelo línter (um tipo de fibra muito curta formada por celulose quase pura). Em 2011, segundo a Abrapa, o óleo vegetal rendeu US$ 282 milhões de faturamento adicional à indústria do algodão.
“Alguns produtores já come-çaram a encontrar meios para fazer a prensagem. Outros dependem de grandes produtoras que participam desse processo de extração”, diz Adilton Sachetti, da Ampa. O gerente do IPA, Francisco Lopes Sobrinho, considera a tecnologia um dos principais entraves para expandir a produtividade da cultura no país. “Há necessidade de se investir na melhora da estrutura para a cultura voltar a mostrar sua viabilidade. A maior parte dos governos tem interesse no algodão. Hoje, o estado que começa a despontar na liderança é a Bahia”, afirma.
Qualidade
Tido como um dos óleos mais baratos para se produzir biodiesel, de acordo com análise realizada em 2007 pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o algodão também apresenta a qualidade necessária para abastecer tanto o mercado nacional quanto o internacional, desde que passe por processos químicos de tratamento. “Já houve estudos que comprovaram que não existe óleo ideal, tanto para a alimentação quanto para o biodiesel.O óleo de algodão apresenta um equilíbrio satisfatório e chega a ser bom para o ser humano”, defende Beltrão, da Embrapa. O óleo bruto de algodão apresenta alta acidez e coloração escura, devido à presença de vários pigmentos (entre os quais se destaca o gossipol, uma espécie de anticoncepcional masculino, que dificulta seu uso na alimentação humana), havendo necessidade de um processo de refino industrial e uma segunda etapa de neutralização. O pré-tratamento diminui a formação de borras, conforme constatações do estudo “Otimização do Processo de Refino do Óleo de Algodão para Produção de Biodiesel”, realizado pela Universidade Federal do Ceará em 2009.
“O processo de tranesterificação não é um problema para o óleo de algodão. Para sair do B5, o Brasil precisa encontrar outras possibilidades além da soja e sebo, e o algodão precisa ser visto como opção”, avalia Beltrão, da Embrapa.
Agricultura familiar
O algodão poderia também ajudar no cumprimento de uma das diretrizes do PNPB: o benefício social gerado pelo incentivo à agricultura familiar. Apesar de a industrialização ser um avanço necessário, a cultura continua a ter importância social, sobretudo na região Nordeste. “O algodão tem uma importância social muito grande, pois ocupa mão de obra. Ao todo, cerca de 70 homens/dia podem ser usados em pequenas propriedades”, esclarece Lopes Sobrinho. Nos últimos anos, parte da mão de obra que costumava ser usada para colher algodão migrou para outros setores. Em Pernambuco, por exemplo, os melhores salários pagos pela construção civil levaram parte desses profissionais a migrar para as cidades.Sachetti, por outro lado, afirma que o algodão como cultura manual vai fracassar com o passar do tempo, tornando a industrialização um caminho sem volta. Até mesmo na China, país em que há mão de obra em profusão, as máquinas passaram a ser usadas a fim de expandir a produtividade. “O algodão se transformou em uma cultura de altíssima tecnologia. Por esse motivo, o trabalho manual está fadado ao insucesso. É muito trabalho para uma produtividade considerada pequena”, explica.
Praga do bicudo atrapalhou o algodão no Brasil
É preciso voltar no tempo para compreender o que levou o algodão a perder espaço na agricultura. De acordo com dados da série histórica da Conab [veja gráfico], o Brasil chegou a plantar 4 milhões de hectares de algodão em 1976 – três vezes mais do que a área deste ano. Porém, o surgimento da praga conhecida como bicudo fez com que houvesse uma grande redução no plantio, chegando, em 1996, a menos de 700 mil hectares em todo o país. Se o algodão não tivesse sido afetado por esse problema, muito provavelmente seria mais difundido em todo o país e não estaria à mercê do rendimento de outras culturas.“Especificamente o Nordeste ficou em uma situação muito difícil na década de 80. A retomada não aconteceu, porque o preço do algodão não compensou novos plantios. Porém, há um potencial muito grande e que precisa ser explorado, desde que haja incentivo aos agricultores”, analisa Francisco Lopes Sobrinho, do IPA.
“De segundo maior exportador de algodão, o Brasil passou a ser o segundo maior importador, em razão do bicudo”, conta Adilton Sachetti, da Ampa. O besouro ingressou no país pelas fronteiras com o Paraguai, Argentina e Bolívia, e causou estragos tão grandes que a cultura quase chegou a se extinguir. “O Brasil tem uma história longa com o algodão, com grandes produtores no Centro-Sul e Nordeste. Depois do bicudo, os agricultores passaram a apostar na soja. As duas culturas são equivalentes e são viáveis em praticamente todo o país. Onde há soja, há algodão”, afirma.
