Assim como aconteceu com o álcool, quando o biodiesel deixou de ser um combustível experimental e saiu das condições ideais de laboratório para a vida real de armazenamento, distribuição e uso, diversos problemas começaram a surgir, muitos dos quais se agravaram ou começaram a ser observados quando o Brasil passou a usar B5. Dentre eles, a formação de depósitos sólidos, largamente chamados de borras, tem preocupado bastante a todos os agentes envolvidos. E é claro que esta é uma situação bastante preocupante, uma vez que filtros, bombas, tanques etc têm apresentado níveis de depósitos acima do que se observava antes do biodiesel ou mesmo durante o uso de B2.
Mas, afinal, o que origina a formação de borra? A resposta a essa pergunta é extremamente complexa, uma vez que não há apenas uma, mas diversas causas possíveis para a precipitação de sólidos. A origem mais óbvia é a precipitação de cadeias de biodiesel saturadas, que se solidificam a temperaturas mais altas que as insaturadas. Como o biodiesel feito com gorduras, seja de dendê ou bovina, possui uma composição alta em cadeias saturadas, as baixas temperaturas no inverno provocam uma solidificação parcial do mesmo. Como 15% a 20% do biodiesel usado no país hoje tem como matéria-prima o sebo de boi, este tem sido apontado como o grande vilão da borra. No entanto, diversos outros mecanismos de formação de borras são possíveis, os quais tentarei descrever a seguir sem a pretensão de esgotar o assunto.
Uma possível causa para a formação de borra eu presenciei em tanques de uma distribuidora de combustível nos Estados Unidos. Enquanto fazia estágio em um laboratório do governo daquele país, a equipe de especialistas em biodiesel foi chamada para identificar a causa de formação de um depósito semelhante a um gel que havia se formado no fundo dos tanques. Após coletarmos e analisarmos o material, concluímos que se tratava de uma mistura de monoglicerídeos, diglicerídeos, triglicerídeos e sabão, provavelmente devido à reação incompleta durante a preparação do biodiesel e de uma purificação (lavagem) ineficiente.
Outro exemplo são os óleos poliinsaturados, como o de soja, que possuem uma baixa estabilidade à oxidação térmica ou na presença de oxigênio. O principal produto dessa oxidação é a polimerização, que leva à formação de sólidos. Assim, o próprio biodiesel de soja pode sofrer oxidação e formar sólidos quando não armazenado corretamente.
Finalmente, a tão festejada biodegradabilidade do biodiesel pode dar origem a borras. De fato, a mistura de biodiesel e água comumente encontrada em tanques pode levar à proliferação de microorganismos, acarretando formação de lodos.
Essas são as causas mais evidentes de formação de borras. No entanto, este assunto está longe de ser esgotado com esta discussão. É necessário entender o que ocorre com o biodiesel e o B5 nas condições reais de mercado para encontrar boas práticas de produção, transporte, armazenagem e uso desses produtos. Só a pesquisa poderá nos levar a conhecer boas práticas e especificações técnicas que evitem o problema de formação de borras, assim como outros problemas que estão surgindo com o aumento do teor de biodiesel no diesel.
Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.
Mas, afinal, o que origina a formação de borra? A resposta a essa pergunta é extremamente complexa, uma vez que não há apenas uma, mas diversas causas possíveis para a precipitação de sólidos. A origem mais óbvia é a precipitação de cadeias de biodiesel saturadas, que se solidificam a temperaturas mais altas que as insaturadas. Como o biodiesel feito com gorduras, seja de dendê ou bovina, possui uma composição alta em cadeias saturadas, as baixas temperaturas no inverno provocam uma solidificação parcial do mesmo. Como 15% a 20% do biodiesel usado no país hoje tem como matéria-prima o sebo de boi, este tem sido apontado como o grande vilão da borra. No entanto, diversos outros mecanismos de formação de borras são possíveis, os quais tentarei descrever a seguir sem a pretensão de esgotar o assunto.
Uma possível causa para a formação de borra eu presenciei em tanques de uma distribuidora de combustível nos Estados Unidos. Enquanto fazia estágio em um laboratório do governo daquele país, a equipe de especialistas em biodiesel foi chamada para identificar a causa de formação de um depósito semelhante a um gel que havia se formado no fundo dos tanques. Após coletarmos e analisarmos o material, concluímos que se tratava de uma mistura de monoglicerídeos, diglicerídeos, triglicerídeos e sabão, provavelmente devido à reação incompleta durante a preparação do biodiesel e de uma purificação (lavagem) ineficiente.
Outro exemplo são os óleos poliinsaturados, como o de soja, que possuem uma baixa estabilidade à oxidação térmica ou na presença de oxigênio. O principal produto dessa oxidação é a polimerização, que leva à formação de sólidos. Assim, o próprio biodiesel de soja pode sofrer oxidação e formar sólidos quando não armazenado corretamente.
Finalmente, a tão festejada biodegradabilidade do biodiesel pode dar origem a borras. De fato, a mistura de biodiesel e água comumente encontrada em tanques pode levar à proliferação de microorganismos, acarretando formação de lodos.
Essas são as causas mais evidentes de formação de borras. No entanto, este assunto está longe de ser esgotado com esta discussão. É necessário entender o que ocorre com o biodiesel e o B5 nas condições reais de mercado para encontrar boas práticas de produção, transporte, armazenagem e uso desses produtos. Só a pesquisa poderá nos levar a conhecer boas práticas e especificações técnicas que evitem o problema de formação de borras, assim como outros problemas que estão surgindo com o aumento do teor de biodiesel no diesel.
Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.