Participei entre os dias 16 e
19 de maio da 101ª Reunião
Anual da American Oil
Chemists´ Society (AOCS),
em Phoenix, Arizona.
Participei entre os dias 16 e
19 de maio da 101ª Reunião
Anual da American Oil
Chemists´ Society (AOCS),
em Phoenix, Arizona. Participo
das reuniões da AOCS há quase
uma década, as quais têm sido excelentes
fóruns onde técnicos com
reconhecimento internacional ligados
a universidades, centros de
pesquisa, indústrias e órgãos reguladores
do mundo inteiro discutem
biocombustíveis obtidos a
partir de óleos e gorduras. Nesses
eventos, usualmente acontecem
sessões coordenadas com interessantes
trabalhos sobre biodiesel
(ésteres metílicos ou etílicos de
ácidos graxos) e diesel renovável
(hidrocarbonetos obtidos a partir
de materiais graxos), em que são
apresentadas e discutidas novas
tecnologias de produção, análise e
uso desses biocombustíveis.
Diferentemente do que aconteceu nos anos anteriores, este ano as sessões apresentaram pouca novidade. A impressão que tive foi que está havendo uma dificuldade em se resolver os velhos e conhecidos gargalos do setor, como fontes de óleos e gorduras mais baratos e processos mais eficientes para produção, purificação e análise dos biocombustíveis.
Como fonte alternativa de óleos e gorduras, praticamente só trabalhos com microalgas foram apresentados. Mesmo assim, os resultados não foram nem um pouco alentadores. Os trabalhos evidenciaram que, além dos já conhecidos problemas em se cultivar e extrair óleos de microalgas, o perfil dos ácidos graxos apresenta alto teor de ácido linolênico (houve casos de teores superiores a 50 %), o que certamente compromete a estabilidade e uso do biodiesel.
No entanto, chamou-me a atenção um trabalho apresentado por pesquisadores do Energy & Environmental Research Center, localizado em Grand Forks, Dakota do Norte. Os pesquisadores mostraram um interessante processo para produção de hidrocarbonetos passíveis de serem usados como querosene de aviação a partir de óleos e gorduras vegetais e animais, óleos de microalgas e materiais graxos residuais. Esse processo consiste em uma etapa inicial de craqueamento seguida de outra de destilação e modificação dos hidrocarbonetos obtidos, de tal forma que o produto final atende as principais especificações internacionais, e mesmo as da aeronáutica americana, para ser usado como combustível para aviação. Foram relatados diversos testes em escala laboratorial para a produção de um “bioquerosene” de aviação e o seu uso experimental como combustível em aviões pequenos e inclusive para propulsão de foguetes. Ainda segundo relato dos pesquisadores envolvidos, está sendo construída uma usina piloto para validação do processo em escala semi-industrial. Ou seja, os pesquisadores afirmam ter conseguido um processo capaz de processar diferentes matérias- primas, muitas das quais de baixa qualidade e baixo custo, para resolver o problema de encontrar um biocombustível com alta qualidade capaz de substituir o querosene de aviação.
Como tenho sido incansável em defender, não acredito que seja possível continuar com a cômoda situação com a qual estamos acostumados com o petróleo e seus derivados, em que temos uma solução única para as nossas necessidades em combustíveis líquidos. Acredito que devamos cada vez mais incentivar pesquisas por fontes alternativas de energia, para que provavelmente tenhamos no futuro um caleidoscópio de combustíveis e matérias-primas capazes de suprir de forma sustentável as nossas crescentes necessidades energéticas.
Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.
Diferentemente do que aconteceu nos anos anteriores, este ano as sessões apresentaram pouca novidade. A impressão que tive foi que está havendo uma dificuldade em se resolver os velhos e conhecidos gargalos do setor, como fontes de óleos e gorduras mais baratos e processos mais eficientes para produção, purificação e análise dos biocombustíveis.
Como fonte alternativa de óleos e gorduras, praticamente só trabalhos com microalgas foram apresentados. Mesmo assim, os resultados não foram nem um pouco alentadores. Os trabalhos evidenciaram que, além dos já conhecidos problemas em se cultivar e extrair óleos de microalgas, o perfil dos ácidos graxos apresenta alto teor de ácido linolênico (houve casos de teores superiores a 50 %), o que certamente compromete a estabilidade e uso do biodiesel.
No entanto, chamou-me a atenção um trabalho apresentado por pesquisadores do Energy & Environmental Research Center, localizado em Grand Forks, Dakota do Norte. Os pesquisadores mostraram um interessante processo para produção de hidrocarbonetos passíveis de serem usados como querosene de aviação a partir de óleos e gorduras vegetais e animais, óleos de microalgas e materiais graxos residuais. Esse processo consiste em uma etapa inicial de craqueamento seguida de outra de destilação e modificação dos hidrocarbonetos obtidos, de tal forma que o produto final atende as principais especificações internacionais, e mesmo as da aeronáutica americana, para ser usado como combustível para aviação. Foram relatados diversos testes em escala laboratorial para a produção de um “bioquerosene” de aviação e o seu uso experimental como combustível em aviões pequenos e inclusive para propulsão de foguetes. Ainda segundo relato dos pesquisadores envolvidos, está sendo construída uma usina piloto para validação do processo em escala semi-industrial. Ou seja, os pesquisadores afirmam ter conseguido um processo capaz de processar diferentes matérias- primas, muitas das quais de baixa qualidade e baixo custo, para resolver o problema de encontrar um biocombustível com alta qualidade capaz de substituir o querosene de aviação.
Como tenho sido incansável em defender, não acredito que seja possível continuar com a cômoda situação com a qual estamos acostumados com o petróleo e seus derivados, em que temos uma solução única para as nossas necessidades em combustíveis líquidos. Acredito que devamos cada vez mais incentivar pesquisas por fontes alternativas de energia, para que provavelmente tenhamos no futuro um caleidoscópio de combustíveis e matérias-primas capazes de suprir de forma sustentável as nossas crescentes necessidades energéticas.
Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.