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O biodiesel metílico 100% renovável é possível?

Muitas críticas são feitas ao uso de metanol para produzir biodiesel. Dentre elas, as mais contundentes referem-se à alta periculosidade e toxicidade do produto.
BiodieselBR.com 3 min de leitura
Muitas críticas são feitas ao uso de metanol para produzir biodiesel. Dentre elas, as mais contundentes referem-se à alta periculosidade e toxicidade do produto. No Brasil, a principal crítica que se faz é ao fato desse insumo ser importado e transportado por dezenas de quilômetros, muitas vezes para localidades onde é produzido o etanol – álcool que poderia substituir o metanol e do qual somos o segundo maior produtor. No entanto, devido à sua maior reatividade e ao seu menor teor de água, que limitam a formação de sabões e emulsões, o metanol é o álcool preferido da indústria de biodiesel nacional e internacional mesmo em países como o Brasil, onde o etanol é mais abundante e inclusive mais barato. Os ambientalistas também questionam o biodiesel metílico pelo fato dele não ser 100% renovável, uma vez que o metanol comercializado hoje no mundo é de origem fóssil. Não vou nesta coluna exaurir a discussão sobre as rotas etílica e metílica, mas discutir as tecnologias de produção do metanol e as possibilidades de se obter um biodiesel 100% renovável mesmo com o uso desse álcool.

Atualmente, o metanol é produzido a partir do metano, seja de origem do petróleo ou do gás natural, tendo portanto origem fóssil. O metanol passa por um processo chamado de reforma, onde é reagido com vapor de água ou oxigênio para produzir o “gás de síntese”, que é uma mistura de hidrogênio com monóxido de carbono. O gás de síntese é usado como matéria-prima para uma série de produtos da indústria petroquímica, incluindo o próprio metanol, o aldeído fórmico e os organoclorados. No entanto, o metanol já foi produzido a partir de fontes renováveis antes da consolidação da indústria petroquímica, quando era obtido a partir da destilação seca da madeira, que, devido ao seu alto custo, não é competitiva em relação ao processo de que utiliza o gás de síntese.

Hoje seria impensável, de um ponto de vista econômico, substituir o processo de obtenção de metanol a partir de gás de síntese pelo da destilação seca de madeira. Porém, é perfeitamente possível pensar em substituir a matéria-prima do gás de síntese. A partir dos processos de gaseificação ou pirólise de biomassa, pode-se isolar o biogás de síntese, que possui a mesma composição que o seu correlato gerado por metano, mas é 100% renovável. Ou seja, é possível vislumbrar para um futuro não tão distante a geração de diversos produtos da indústria petroquímica, incluindo o metanol, utilizando como matéria-prima resíduos agroindustriais, como o bagaço de cana e palhas.

Temos, portanto, tecnologias viáveis para produzir metanol isento de insumos fósseis e, assim, obter biodiesel completamente renovável. Mais do que biodiesel e metanol, poder-se-ia produzir uma série de compostos que tem origem no metano utilizando biomassa, o que iria auxiliar a diminuir a emissão de carbono fóssil na atmosfera. Uma vez que nossos programas de produção de etanol e biodiesel estão praticamente consolidados, talvez seja o momento para aprofundarmos a substituição de matérias-primas fósseis, o que pode ocorrer pela substituição das mesmas em diversos processos petroquímicos, incluindo o metanol.

Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.
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