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Biocombustível de segunda geração: hidrocarbonetos

A reação de craqueamento de triacilglicerídeos consiste na quebra dos compostos químicos presentes em diversos materiais graxos
BiodieselBR.com 4 min de leitura
A reação de craqueamento de triacilglicerídeos consiste na quebra dos compostos químicos presentes em diversos materiais graxos, como óleos, gorduras e sabões, a temperaturas acima de 350ºC, formando uma nova mistura de compostos constituída principalmente de hidrocarbonetos – muito similares aos encontrados no petróleo e derivados – e, em menor quantidade, compostos oxigenados – que conferem acidez ao produto. Foi mostrado que com a destilação desses produtos obtidos pelo craqueamento é possível isolar um biocombustível que satisfaz os parâmetros exigidos para o diesel de petróleo pela ANP.

Foram também estudadas outras propriedades não especificadas deste biocombustível, mas que influenciam no seu desempenho nos motores – como poder calorífico, lubricidade, tensão superficial, estabilidade térmica e química e poder tensoativo –, sendo observado que ele possui propriedades semelhantes às do diesel fóssil. Em relação à acidez usualmente elevada devido à presença dos compostos oxigenados, diversos autores relatam que a corrosividade ao cobre não supera à do diesel nos testes realizados. Todos esses resultados levam a crer que o produto craqueado poderia ser utilizado diretamente nos motores, sem a necessidade de modificações. No entanto, acredito que testes de longo prazo em motores são ainda necessários para se definir se o produto pode ou não ser usado em máquinas convencionais.

Existem diversos estudos na literatura que demonstram que os produtos finais do craqueamento dependem de diversos fatores, tais como a composição química da matéria-prima utilizada, temperatura do processo, tempo de residência no reator, presença de catalisadores, uso de atmosfera de hidrogênio e fluxo de vapor d’água. O aumento da temperatura mostrou diminuir consideravelmente a presença de produtos oxigenados, mas é acompanhada pela formação de produtos com alta viscosidade devido a reações paralelas no reator. Já o uso de catalisadores heterogêneos, principalmente óxidos e aluminossilicados, vem demonstrando eficiência para promover a desoxigenação dos produtos e formação preferencial de hidrocarbonetos idênticos aos do petróleo. No entanto, a estratégia mais eficiente parece ser o uso de altas pressões de hidrogênio durante o craqueamento, como o processo H-BIO da Petrobras, levando à obtenção quase que exclusiva de hidrocarbonetos. Deve-se destacar que a Petrobras divulgou ter feito testes em larga escala em algumas refinarias, misturando até 18% de óleo de soja no pool de diesel que entrava nas unidades HDT.

Os processos de obtenção de hidrocarbonetos a partir de materiais graxos parecem ser extremamente atraentes, pois demandam poucos insumos e podem ser realizados a partir de materiais residuais de baixo valor agregado e mesmo de passivos ambientais da agroindústria. De fato, estudos têm revelado que é possível obter hidrocarbonetos com alta qualidade para serem usados como biocombustível a partir de matériasprimas inimagináveis de serem usadas nos processos tradicionais de obtenção de biodiesel.

No entanto, ainda existem entraves para a comercialização desses biocombustíveis, já que não existe atualmente no Brasil especificação para os hidrocarbonetos obtidos a partir de biomassa. De fato, a ANP restringe o uso de hidrocarbonetos para aqueles que sejam obtidos a partir do petróleo ou gás natural, proibindo a comercialização daqueles obtidos a partir de outras fontes, mesmo que possuam composição química semelhante ou idêntica à obtida a partir de uma matéria-prima fóssil. Porém, isso não impede que num futuro próximo estes combustíveis entrem na matriz energética brasileira. Há grandes pressões mundiais para que novas tecnologias sejam incluídas na produção de biocombustíveis e expectativas para que essas tecnologias possam vir a substituir os chamados biocombustíveis de primeira geração.

Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.
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