A decisão de reduzir temporariamente o nível de adição do biodiesel ao diesel fóssil foi anunciada ontem pela Diretoria Colegiada da ANP
Desde que o programa do biodiesel começou para valer em 2008, a mistura obrigatória sempre andou em uma só direção. Ao longo desses 13 anos, fizemos inúmeros gráficos mostrando como o percentual só cresceu e como ele deveria seguir crescendo por vários anos. Isso acabou ontem.
Nessa terça-feira (16), a ANP anunciou que, por um período de 6 dias, a mistura de biodiesel será reduzida de 12% para 10%. Até para quem não acompanha esse mercado de perto, o motivo para essa redução é óbvio: está faltando biodiesel no mercado. E eles certamente não estão errados!
Mas não é essa a pergunta que realmente precisa ser respondida. A pergunta que vale dois pontos percentuais de biodiesel no diesel – e várias dezenas de milhões de reais – é: por que está faltando biodiesel no mercado?
Desde que o programa do biodiesel começou para valer em 2008, a mistura obrigatória sempre andou em uma só direção. Ao longo desses 13 anos, fizemos inúmeros gráficos mostrando como o percentual só cresceu e como ele deveria seguir assim ainda por vários anos. Isso acabou ontem.
Nessa terça-feira (16), a ANP anunciou que, por um período de 6 dias, a mistura de biodiesel será reduzida de 12% para 10%. Até para quem não acompanha esse mercado de perto, o motivo para essa redução é óbvio: está faltando biodiesel no mercado. E eles certamente não estão errados!
Mas não é essa a pergunta que realmente precisa ser respondida. A pergunta que vale dois pontos percentuais de biodiesel no diesel – e várias dezenas de milhões de reais – é: por que está faltando biodiesel no mercado?
Sucessão de erros
O problema da falta de biodiesel entre os dias 16 e 21 de junho começa com a quarentena. A demanda por combustíveis caiu bastante e de forma repentina e, consequentemente, fez com que a demanda por biodiesel fosse menor do que as distribuidoras tinham contratado no Leilão 71 para retirar em março e abril.
A regra é que, caso retirem menos que 95% do volume contratado nos leilões, as distribuidoras têm que pagar uma multa por cada m³ que não buscaram. Já para as usinas, as penalidades são aplicadas caso elas entregam menos que 90% do volume contratado. Com a pandemia, a ANP decidiu que era possível aplicar a cláusula de força maior dos contratos permitindo às distribuidoras retirarem menos sem multas.
Assim, aumentaram as desconfianças entre esses dois elos da cadeia. As usinas passaram a achar que as distribuidoras estavam retirando menos biodiesel do que precisavam, já que estavam isentas da multa, e como vocês vão ver mais a frente, as distribuidoras acharam o mesmo das usinas em junho.
Em meio a essa desconfiança estava chegando o leilão que deveria comprar biodiesel para os meses de maio e junho, o L72. O grande problema era saber quanto de diesel as distribuidoras deveriam comprar. Ninguém então sabia se a demanda voltaria ao normal ou se a situação ia ficar ainda pior. Além disso, já não estava claro se pandemia continuaria sendo aceita como uma força maior nos contratos do L72. Afinal, todo mundo já estava sabendo o que era coronavírus, Covid-19 e lockdown.
As distribuidoras queriam que o limite mínimo de retiradas caísse de 95% para 70% (alguns chegaram a defender 50%); as usinas, por sua vez, queriam que esse limite caísse para 90%. A ANP ficou no meio termo e colocou o limite em 80%. Mas não era 80% apenas para as distribuidoras, era também para as usinas. Ou seja, nem as usinas precisavam entregar mais que 80% do biodiesel comprado, nem as distribuidoras tinham que aparecer para buscar volumes acima desse percentual.
Essa decisão foi a primeira falha grave na sucessão de erros que desaguou na atual falta de biodiesel. O limite de 80% para os dois lados só resolveria o problema caso o preço pago pelo biodiesel no L72 fosse bom. Mas o que acabou acontecendo foi o oposto disso.
E o preço do biodiesel ficou baixo porque a expectativa de demanda era baixa. Alguns projetavam compras menores que 900 mil m³. Um quarto a menos do que antes da pandemia quando a previsão era 1.200 mil m³. O medo de não vender fez com que as usinas precificassem para cobrir os custos fixos, pois o prejuízo seria maior se a fábrica ficasse parada. As distribuidoras acabaram comprando 1.020 mil m³, mas esse volume não foi suficiente para fazer o preço alcançar um patamar rentável para as usinas. No L72, os fabricantes receberam R$ 2.713,19 por cada m³ de biodiesel, 9,6% menos do que no leilão do bimestre anterior.
Esse preço baixo reflete as incertezas ao redor da demanda de diesel em maio e junho. As usinas não sabiam quanto as distribuidoras iriam comprar e as distribuidoras não queriam comprar um volume apenas para pagarem multa depois por não terem conseguido retirar o produto. Por isso que, caso o limite de compras fosse maior que 80% as compras das distribuidoras seriam igualmente limitadas.
As distribuidoras compraram 1.020 mil m3 no L72 porque o limite de retirada era 80%. Elas imaginaram que 816 mil m³ (1.020 x 80%) seria um volume seguro para comprar biodiesel. Se o limite de retirada tivesse sido de 90%, muito provavelmente as distribuidoras teriam comprado 906 mil m³ (906 mil m³ x 90% = 816 mil m³). Se o mercado fosse maior, elas pediriam um leilão complementar ou pegariam biodiesel dos estoques reguladores.
O ponto aqui é o argumento de que os 80% de retirada foram um erro e que, mesmo se a ANP tivesse concordado com as usinas e ficado em 90%, não teria funcionado do mesmo jeito. A imprevisibilidade da demanda no começo de abril era enorme. Nesses períodos de incerteza da demanda, a melhor forma de diminuir o risco é diminuir a distância entre a compra e a entrega. O periodo de entregas do Leilão 72 deveria ter sido de um mês ou, até mesmo, uma quinzena. Fazer mais leilões gera mais trabalho e estresse na cadeia? Com certeza! As duas últimas semanas – em que o L73 quase emendou com o L74 – que o digam. Mas teria sido uma solução muito mais tranquila para toda a cadeia.
O preço do L73
As entregas de biodiesel do L72 começaram a dar sinais de problema já em maio. Em meados da segunda quinzena do mês passado a Petrobras já acusava problemas nas retiradas. Algumas usinas já não estavam querendo entregar mais que os 80% previstos em contrato, mas ainda não era algo generalizado.
O problema maior começou depois do primeiro dia da Etapa 3 do L73. Depois que o preço do biodiesel passou a dar lucro para as usinas – o valor médio final ficou em R$ 3.512,06 –, algumas delas diminuíram a quantidade de biodiesel que estavam dispostas a entregar. Para elas, não fazia sentido com prejuízo um biodiesel que podiam entregar mais tarde com um bom lucro. Desde que seguissem entregando acima do piso de 80% previsto em contrato, não estariam fazendo nada ilegal. Era uma decisão de negócios. As distribuidoras, contudo, viram isso de forma diferente.
Na visão de algumas distribuidoras, houve um movimento coordenado de usinas Brasil a fora para esvaziar estoques e, dessa forma, forçar uma retirada maior no L73. Era vez das distribuidoras desconfiarem das usinas.
Apesar de não ser coordenado, a redução no volume entregue de biodiesel no começo de junho fez uma situação que já estava no limite ficar crítica. As distribuidoras estavam usando o que tinham de estoques próprios e começaram a pressionar a ANP por uma solução.
Finalizado L73, a ANP chamou as usinas que estavam com os menores percentuais de entrega para expor a situação. A reunião realizada no último domingo (14) mostrou para as usinas que a situação era grave e que realmente poderia faltar biodiesel. Já no dia seguinte, a grade de entrega de biodiesel de boa parte das usinas já havia sido ampliada. Mas a reunião acabou acontecendo tarde demais e o déficit de biodiesel não tinha mais como ser coberto. Na terça, veio o anúncio de redução da mistura para B10.
Achando os culpados
O setor agora está numa caça aos culpados. E já começa a apontando dedos. O cenário todo colocado acima mostra que não existe um grande culpado. Foi preciso toda uma sucessão de decisões e apostas erradas para chegarmos nesse ponto. O estresse mostrou que o sistema tem um monte de falhas.
Mas também não dá para tratar todas as usinas da mesma forma. Algumas têm mais responsabilidade do que outras. As que tiveram um peso maior nessa bagunça nem são aquelas que entregaram apenas 80% do biodiesel vendido no L72, mas as que não entregaram o que foi contratado no leilão de estoque.
O biodiesel dos estoques está lá para os momentos em que o sistema falha. Se alguma usina deixa de entregar ou se uma distribuidora compra menos do que devia e precisa de um pouco mais, é à usina que vendeu no leilão de estoque que ela recorre. Essa usina não pode deixar de entregar. Ela tem que saber que o papel dela é importantíssimo para que o abastecimento de biodiesel aconteça de forma segura. E a melhor forma de fazer isso é punindo as usinas que vendem no leilão de estoque e não entregam. Ficar de fora dos leilões de estoque é pouco. A usina tem que ficar de fora de pelo menos um leilão regular.
Outras usinas fizeram um esforço extra e estão entregando mais biodiesel do que seria economicamente interessante pare elas. Teve usina que deixou de vender biodiesel no L74 para entregar mais biodiesel do L72. Quem fez isso deixou de ganhar cerca de mil reais por m³. Isso significa que ela teve prejuízo para ajudar o programa de biodiesel.
Enquanto isso, outras usinas estão limitando as entregas em 80% no L72 e vendendo biodiesel no L74 – cujo período entregas é concomitante. Não é ilegal, já que o contrato permite isso, mas também mostra muito sobre como essas usinas se vêm dentro do mercado de biodiesel.
Em resumo, o pecado original foi a decisão de fazer o L72 da forma como foi feito. Depois disso era preciso adequar a oferta a demanda, já que a oferta segura era 80% do que foi comprado no L72. Isso foi feito tardiamente. O acompanhamento da demanda e da oferta de biodiesel durante o mês de maio também não foi feito da forma devida. E a falta na entrega do leilão de estoque foi o prego final no caixão que fez com que não houvesse biodiesel suficiente para o B12 nessa semana.
Nenhuma dessas causas sozinhas teria ocasionado a diminuição da mistura. Por isso não é hora de apontar dedos. O setor precisa olhar para todas as falhas e erros e trabalhar para que não aconteçam mais. É como a indústria aérea opera depois de um desastre: achar os culpados pode ser importante, mas descobrir problemas e saná-los é ainda mais urgente.
Muitas coisas precisam mudar, alguns são problemas que só se tornaram evidentes agora. Alguns outros, contudo, vêm sendo empurrados com a barriga há bastante tempo. Está na hora de resolvê-los de vez.
Miguel Angelo Vedana – BiodieselBR.com