
Sabe quando uma nova lei só vem mesmo para oficializar algo que já é prática corrente? Ao que tudo indica, esse foi o que acabou levando a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a alterar o valor máximo de monoglicerídeos permitido no biodiesel fabricado no Brasil. O máximo agora passou a ser de 0,7% em relação à massa do biodiesel fabricado – antes o limite era de 0,8%.
Sabe quando uma nova lei só vem mesmo para oficializar algo que já é prática corrente? Ao que tudo indica, esse foi o que acabou levando a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a alterar o valor máximo de monoglicerídeos permitido no biodiesel fabricado no Brasil. O máximo agora passou a ser de 0,7% em relação à massa do biodiesel fabricado – antes o limite era de 0,8%.
Segundo a ANP, um levantamento realizado a partir de dados do biodiesel produzido pelas usinas nos anos de 2013 e 2014 revelou que a maior parte dos produtores já atendia ao que foi proposto pela Resolução ANP 45/2014 no que concerne a esse parâmetro.
O estudo mostrou que, em maio do ano passado, 88% do biodiesel comercializado em território nacional já apresentava teor de monoglicerídeos inferior a 0,7% em sua massa – patamar fixado pela nova especificação. Em junho daquele mesmo ano, esse percentual já havia chegado a 95% – índice igualmente registrado em dezembro. Em janeiro e fevereiro de 2014, mais de 80% do biocombustível era fabricado com o teor a 0,7%.
Na esteira
O que o estudo da ANP revelou é ratificado pelo setor produtivo. “A nova especificação ajusta o parâmetro brasileiro ao europeu. Nesse sentido, vale destacar que o biodiesel produzido até então já obedecia uma qualidade mais rígida, já que em grande parte era fabricado com 0,7%, ou até menos”, afirma Leonardo Zilio, assessor econômico da Associação Brasileira das Indústria de óleos Vegetais (Abiove).
“Os fabricantes de biodiesel associados à Ubrabio já vêm praticando teores de monoglicerídeos bem abaixo do novo limite”, atesta o professor Donato Aranda, consultor técnico da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), que tem entre seus filiados usinas de peso como as do grupo Granol.
Além de oficializar algo que já vinha sendo praticado, a redução no limite de monoacilglicerol é encarada como uma extensão das demais alterações mudanças promovida pela ANP visando a atrelar a especificação brasileira à europeia (EN 14214/2012). “Essa medida representa um alinhamento com tendências internacionais. [...] Esse novo valor não representa custos adicionais”, afirma o consultor da Ubrabio.
Ao fixar em 0,7% o teor de monoglicerídeos no biodiesel, a agência buscou um meio termo entre o que preveem as principais especificações internacionais do biodiesel para esse parâmetro.
A norma japonesa (JIS K 2390/2008) e a resolução argentina (nº 828/2010), por exemplo, admitem 0,8% de monoglicerídeos na massa do biodiesel — limite aceito antes da reforma na especificação brasileira. Já nos Estados Unidos, as autoridades reguladoras são bem menos tolerantes com os monoglicerídeos. A norma ASTM D 6751/2012 estabelece um teor máximo de apenas 0,4 % na massa do biodiesel.
O rigor do padrão norte-americano encontra respaldo na literatura científica. A professora Elizabeth Figueiredo, chefe do Laboratório de Combustíveis e Lubrificantes do Instituto Nacional de Tecnologia (INT), explica que a glicerina combinada – coproduto do biodiesel que inclui os mono, di e triglicerídeos – resulta da reação incompleta dos glicerídeos, sendo, portanto, considerado um indicador da eficiência da conversão de óleos e gorduras em biodiesel.
“A soma da glicerina livre e combinada é chamada de glicerina total. Dependendo da sua concentração no biodiesel, pode ocorrer a separação entre esses componentes e o óleo diesel dentro dos tanques de estocagem, além de aumentar a viscosidade do combustível provocando entupimento do filtro de combustível e formação de depósitos em partes do motor como pistões, válvulas e bicos injetores e emissões de aldeídos”, elenca a pesquisadora.
Sebo
Ainda de acordo com Elizabeth, os monoglicerídeos, em especial, podem causar turbidez, principalmente quando originados a partir da produção de biodiesel de sebo que possui maior quantidade de cadeias saturadas dos ácidos graxos presentes majoritariamente nessa matéria-prima.
“Essa impureza aumenta o ponto de névoa e, consequentemente, o ponto de entupimento. A presença de mono e diglicerídeos favorece a formação de emulsões estáveis. Quanto menor sua concentração mais favorável será a purificação do biodiesel produzido”, afirma a chefe do Laboratório do INT.
Segundo ela, há também relatos na literatura de que a presença de elevados teores de monoglicerídeos de cadeia saturada formam um resíduo sólido originado de forma espontânea e irreversível. “Acredito que a motivação em reduzir o teor de monoglicerídeos deva-se principalmente ao aumento da participação do sebo na matriz de produção brasileira do biodiesel. Portanto, a decisão foi de caráter preventivo e protetivo”, atribui Elizabeth.
A pesquisadora da Embrapa Agroenergia, Itânia Soares, também considera prudente a restrição no teor de monoacilgliceróis.
“Os monoglicerídeos, assim como os di e triglicerídeos, tendem a se aglomerar e formar depósitos, que normalmente entopem bicos injetores”, adverte.
Itânia observa ainda que, dos três contaminantes presentes no biodiesel, os monoglicerídeos eram o que tinham maior teor permitido na especificação — 0,8 % contra 0,2 % dos outros dois (di e triglicerídeos).
Cátia Franco – BiodieselBR.com
Sabe quando uma nova lei só vem mesmo para oficializar algo que já é prática corrente? Ao que tudo indica, esse foi o que acabou levando a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a alterar o valor máximo de monoglicerídeos permitido no biodiesel fabricado no Brasil. O máximo agora passou a ser de 0,7% em relação à massa do biodiesel fabricado – antes o limite era de 0,8%.
Segundo a ANP, um levantamento realizado a partir de dados do biodiesel produzido pelas usinas nos anos de 2013 e 2014 revelou que a maior parte dos produtores já atendia ao que foi proposto pela Resolução ANP 45/2014 no que concerne a esse parâmetro.
O estudo mostrou que, em maio do ano passado, 88% do biodiesel comercializado em território nacional já apresentava teor de monoglicerídeos inferior a 0,7% em sua massa – patamar fixado pela nova especificação. Em junho daquele mesmo ano, esse percentual já havia chegado a 95% – índice igualmente registrado em dezembro. Em janeiro e fevereiro de 2014, mais de 80% do biocombustível era fabricado com o teor a 0,7%.
Na esteira
O que o estudo da ANP revelou é ratificado pelo setor produtivo. “A nova especificação ajusta o parâmetro brasileiro ao europeu. Nesse sentido, vale destacar que o biodiesel produzido até então já obedecia uma qualidade mais rígida, já que em grande parte era fabricado com 0,7%, ou até menos”, afirma Leonardo Zilio, assessor econômico da Associação Brasileira das Indústria de óleos Vegetais (Abiove).
“Os fabricantes de biodiesel associados à Ubrabio já vêm praticando teores de monoglicerídeos bem abaixo do novo limite”, atesta o professor Donato Aranda, consultor técnico da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), que tem entre seus filiados usinas de peso como as do grupo Granol.
Além de oficializar algo que já vinha sendo praticado, a redução no limite de monoacilglicerol é encarada como uma extensão das demais alterações mudanças promovida pela ANP visando a atrelar a especificação brasileira à europeia (EN 14214/2012). “Essa medida representa um alinhamento com tendências internacionais. [...] Esse novo valor não representa custos adicionais”, afirma o consultor da Ubrabio.
Ao fixar em 0,7% o teor de monoglicerídeos no biodiesel, a agência buscou um meio termo entre o que preveem as principais especificações internacionais do biodiesel para esse parâmetro.
A norma japonesa (JIS K 2390/2008) e a resolução argentina (nº 828/2010), por exemplo, admitem 0,8% de monoglicerídeos na massa do biodiesel — limite aceito antes da reforma na especificação brasileira. Já nos Estados Unidos, as autoridades reguladoras são bem menos tolerantes com os monoglicerídeos. A norma ASTM D 6751/2012 estabelece um teor máximo de apenas 0,4 % na massa do biodiesel.
O rigor do padrão norte-americano encontra respaldo na literatura científica. A professora Elizabeth Figueiredo, chefe do Laboratório de Combustíveis e Lubrificantes do Instituto Nacional de Tecnologia (INT), explica que a glicerina combinada – coproduto do biodiesel que inclui os mono, di e triglicerídeos – resulta da reação incompleta dos glicerídeos, sendo, portanto, considerado um indicador da eficiência da conversão de óleos e gorduras em biodiesel.
“A soma da glicerina livre e combinada é chamada de glicerina total. Dependendo da sua concentração no biodiesel, pode ocorrer a separação entre esses componentes e o óleo diesel dentro dos tanques de estocagem, além de aumentar a viscosidade do combustível provocando entupimento do filtro de combustível e formação de depósitos em partes do motor como pistões, válvulas e bicos injetores e emissões de aldeídos”, elenca a pesquisadora.
Sebo
Ainda de acordo com Elizabeth, os monoglicerídeos, em especial, podem causar turbidez, principalmente quando originados a partir da produção de biodiesel de sebo que possui maior quantidade de cadeias saturadas dos ácidos graxos presentes majoritariamente nessa matéria-prima.
“Essa impureza aumenta o ponto de névoa e, consequentemente, o ponto de entupimento. A presença de mono e diglicerídeos favorece a formação de emulsões estáveis. Quanto menor sua concentração mais favorável será a purificação do biodiesel produzido”, afirma a chefe do Laboratório do INT.
Segundo ela, há também relatos na literatura de que a presença de elevados teores de monoglicerídeos de cadeia saturada formam um resíduo sólido originado de forma espontânea e irreversível. “Acredito que a motivação em reduzir o teor de monoglicerídeos deva-se principalmente ao aumento da participação do sebo na matriz de produção brasileira do biodiesel. Portanto, a decisão foi de caráter preventivo e protetivo”, atribui Elizabeth.
A pesquisadora da Embrapa Agroenergia, Itânia Soares, também considera prudente a restrição no teor de monoacilgliceróis.
“Os monoglicerídeos, assim como os di e triglicerídeos, tendem a se aglomerar e formar depósitos, que normalmente entopem bicos injetores”, adverte.
Itânia observa ainda que, dos três contaminantes presentes no biodiesel, os monoglicerídeos eram o que tinham maior teor permitido na especificação — 0,8 % contra 0,2 % dos outros dois (di e triglicerídeos).
Cátia Franco – BiodieselBR.com