Novos estudos indicam que, para conter as mudanças climáticas, precisamos abandonar os combustíveis fósseis duas vezes mais rápido do que está sendo feito hoje.
Climatologistas têm uma notícia ruim para governos, empresas de energia, motoristas, passageiros e, basicamente, todo mundo neste planeta: se quisermos manter o aquecimento global dentro dos limites acertados pelas 195 nações que assinaram o acordo de Paris em dezembro passado, teremos que cortar o consumo de combustíveis fósseis num ritmo ainda mais acelerado do que havia sido predito por qualquer um.
Joeri Rogelj, pesquisador do Instituto Internacional para Análise de Sistemas Aplicados (IIASA), na Áustria, juntamente com colegas europeus e canadenses, acaba de publicar um artigo na Nature Climate Change propondo que todas as estimativas anteriores da quantidade total de dióxido de carbono que pode ser emitida na atmosfera antes que as temperaturas atinjam níveis potencialmente catastróficos – o chamado orçamento de carbono – são excessivamente generosas.
Ao contrário de estimativas anteriores que garantiam que ainda teríamos um saldo de 2.390 bilhões de toneladas de carbono para gastar, o novo estudo indica que podemos emitir, no máximo dos máximos, 1.240 bilhões de toneladas.
Níveis disponíveis
Isso efetivamente reduz pela metade os níveis de diesel e gasolina, carvão e gás natural coletivamente disponíveis para a humanidade queimar antes que a média das temperaturas globais – que já estão 1ºC maiores do que eram no começo da Revolução Industrial – atinjam a marca dos 2ºC internacionalmente aceitos como um ponto sem volta para o planeta.
De fato, na Conferência de Paris da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas o acordo é manter o aquecimento “bem abaixo” de 2ºC em reconhecimento às ameaçadoras projeções – uma das quais afirma que, atingidas essas temperaturas, o nível do mar subiria o suficiente para submergir diversas nações insulares.
Esse novo artigo na Nature Climate Chance não passa de uma reafirmação de um problema que já está claro há décadas de que as proporções de dióxido de carbono na atmosfera estão conectadas à temperatura superficial do planeta. Quando as primeiras aumentam, a segunda segue. Durante a maior parte da história humana, a quantidade de CO2 na atmosfera oscilou na faixa das 280 partes por milhão.
A exploração global em escala massiva de combustíveis fósseis permitiu a expansão da agricultura, das economias e um salto de sete vezes na população humana. Nesse meio tempo, os níveis dos oceanos já subiram 14 cm e as temperaturas 1ºC.
Para impedir que as temperaturas médias se elevem outros 3ºC ou mais e que os oceanos subam mais de um metro, a humanidade precisa reduzir o consumo de combustíveis fósseis. Mas a magnitude dessa redução é difícil de calcular.
O orçamento global de carbono é, na realidade, um balanço entre a quantidade de carbono que os animais emitem – o que inclui os humanos com seus automóveis, aviões e fábricas – e quanto deste as plantas e algas conseguem absorver. Essas estimativas são atrapalhadas por incertezas sobre florestas, pradarias e oceanos.
Para simplificar, os climatologistas traduzem essa meta em bilhões de toneladas de dióxido de carbono que, em tese, pode ser liberada na atmosfera de 2015 em diante. Estes números, no entanto, também são projeções de vão de um piso mínimo a um teto máximo. Há um consenso mais ou menos generalizado de que o piso para evitar que o mundo superaquecesse de forma perigosa seria da ordem 590 bilhões de toneladas. Tudo acima disso quer dizer que já estaríamos aceitando correr riscos. O debate atual diz respeito ao teto dessas estimativas – o máximo onde podemos chegar com um grau mínimo de segurança.
“Para termos uma chance razoável de manter o aquecimento global abaixo dos 2ºC, não podemos emitir uma certa quantidade total de dióxido de carbono. Esse é o nosso orçamento”, explica o dr. Rogelj. “Isso já é conhecido há cerca de uma década e a física por detrás desse conceito já é bem compreendida, mas há muitos fatores diferentes que podem levar a orçamentos tanto maiores quanto menores. O que queríamos era entender essas diferenças e esclarecer o assunto para as autoridades e para o público”, prossegue.
“Nosso estudo mostra que, em alguns casos, superestimamos o orçamento em até 200%. No limite superior, a diferença ultrapassa 1.000 bilhões de toneladas de dióxido de carbono”, esclarece.
O estudo também olha mais a fundo os motivos para essas variações bruscas no nível de emissões considerado seguro.
Um complicador tem sido o grau de incerteza sobre o que os humanos poderiam fazer e, também, sobre o efeito de gases relacionados ao efeito estufa mais efêmeros como o metano e os óxidos de nitrogênio. Ambos têm vida relativamente curta na atmosfera e são emitidos em quantidades menores, embora alguns deles sejam muito mais potentes que o dióxido de carbono.
Cálculos complexos
Mas a equipe do dr. Rogelj descobriu que a maior causa das variações dizia respeito a adoção de diferentes premissas e metodologias utilizadas em cálculos dessa ordem de complexidade. Por isso, os pesquisadores reexaminaram a questão e suas diferentes abordagens para chegar a um número global que possa ser mais relevante para a sustentar políticas mais realistas.
O número leva em conta as consequências de todas as atividades humanas considerando as opções de baixo carbono e adotam como margem de segurança uma possibilidade de 66% de que consigamos ficar abaixo do limite internacionalmente aceito para a temperatura.
“Agora entendemos melhor o orçamento de carbono para que consigamos manter o aquecimento abaixo dos 2ºC”, afirma o dr. Rogelj. “Percebemos que o orçamento estava no limite inferior do que os estudos anteriores indicavam e que se não começarmos a reduzir nossas emissões imediatamente vamos estourá-lo em poucas décadas”, alerta.
O artigo completo pode ser acessado a partir daqui.
Tradução e adaptação BiodieselBR.com
Climatologistas têm uma notícia ruim para governos, empresas de energia, motoristas, passageiros e, basicamente, todo mundo neste planeta: se quisermos manter o aquecimento global dentro dos limites acertados pelas 195 nações que assinaram o acordo de Paris em dezembro passado, teremos que cortar o consumo de combustíveis fósseis num ritmo ainda mais acelerado do que havia sido predito por qualquer um.
Joeri Rogelj, pesquisador do Instituto Internacional para Análise de Sistemas Aplicados (IIASA), na Áustria, juntamente com colegas europeus e canadenses, acaba de publicar um artigo na Nature Climate Change propondo que todas as estimativas anteriores da quantidade total de dióxido de carbono que pode ser emitida na atmosfera antes que as temperaturas atinjam níveis potencialmente catastróficos – o chamado orçamento de carbono – são excessivamente generosas.
Ao contrário de estimativas anteriores que garantiam que ainda teríamos um saldo de 2.390 bilhões de toneladas de carbono para gastar, o novo estudo indica que podemos emitir, no máximo dos máximos, 1.240 bilhões de toneladas.
Níveis disponíveis
Isso efetivamente reduz pela metade os níveis de diesel e gasolina, carvão e gás natural coletivamente disponíveis para a humanidade queimar antes que a média das temperaturas globais – que já estão 1ºC maiores do que eram no começo da Revolução Industrial – atinjam a marca dos 2ºC internacionalmente aceitos como um ponto sem volta para o planeta.
De fato, na Conferência de Paris da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas o acordo é manter o aquecimento “bem abaixo” de 2ºC em reconhecimento às ameaçadoras projeções – uma das quais afirma que, atingidas essas temperaturas, o nível do mar subiria o suficiente para submergir diversas nações insulares.
Esse novo artigo na Nature Climate Chance não passa de uma reafirmação de um problema que já está claro há décadas de que as proporções de dióxido de carbono na atmosfera estão conectadas à temperatura superficial do planeta. Quando as primeiras aumentam, a segunda segue. Durante a maior parte da história humana, a quantidade de CO2 na atmosfera oscilou na faixa das 280 partes por milhão.
A exploração global em escala massiva de combustíveis fósseis permitiu a expansão da agricultura, das economias e um salto de sete vezes na população humana. Nesse meio tempo, os níveis dos oceanos já subiram 14 cm e as temperaturas 1ºC.
Para impedir que as temperaturas médias se elevem outros 3ºC ou mais e que os oceanos subam mais de um metro, a humanidade precisa reduzir o consumo de combustíveis fósseis. Mas a magnitude dessa redução é difícil de calcular.
O orçamento global de carbono é, na realidade, um balanço entre a quantidade de carbono que os animais emitem – o que inclui os humanos com seus automóveis, aviões e fábricas – e quanto deste as plantas e algas conseguem absorver. Essas estimativas são atrapalhadas por incertezas sobre florestas, pradarias e oceanos.
Para simplificar, os climatologistas traduzem essa meta em bilhões de toneladas de dióxido de carbono que, em tese, pode ser liberada na atmosfera de 2015 em diante. Estes números, no entanto, também são projeções de vão de um piso mínimo a um teto máximo. Há um consenso mais ou menos generalizado de que o piso para evitar que o mundo superaquecesse de forma perigosa seria da ordem 590 bilhões de toneladas. Tudo acima disso quer dizer que já estaríamos aceitando correr riscos. O debate atual diz respeito ao teto dessas estimativas – o máximo onde podemos chegar com um grau mínimo de segurança.
“Para termos uma chance razoável de manter o aquecimento global abaixo dos 2ºC, não podemos emitir uma certa quantidade total de dióxido de carbono. Esse é o nosso orçamento”, explica o dr. Rogelj. “Isso já é conhecido há cerca de uma década e a física por detrás desse conceito já é bem compreendida, mas há muitos fatores diferentes que podem levar a orçamentos tanto maiores quanto menores. O que queríamos era entender essas diferenças e esclarecer o assunto para as autoridades e para o público”, prossegue.
“Nosso estudo mostra que, em alguns casos, superestimamos o orçamento em até 200%. No limite superior, a diferença ultrapassa 1.000 bilhões de toneladas de dióxido de carbono”, esclarece.
O estudo também olha mais a fundo os motivos para essas variações bruscas no nível de emissões considerado seguro.
Um complicador tem sido o grau de incerteza sobre o que os humanos poderiam fazer e, também, sobre o efeito de gases relacionados ao efeito estufa mais efêmeros como o metano e os óxidos de nitrogênio. Ambos têm vida relativamente curta na atmosfera e são emitidos em quantidades menores, embora alguns deles sejam muito mais potentes que o dióxido de carbono.
Cálculos complexos
Mas a equipe do dr. Rogelj descobriu que a maior causa das variações dizia respeito a adoção de diferentes premissas e metodologias utilizadas em cálculos dessa ordem de complexidade. Por isso, os pesquisadores reexaminaram a questão e suas diferentes abordagens para chegar a um número global que possa ser mais relevante para a sustentar políticas mais realistas.
O número leva em conta as consequências de todas as atividades humanas considerando as opções de baixo carbono e adotam como margem de segurança uma possibilidade de 66% de que consigamos ficar abaixo do limite internacionalmente aceito para a temperatura.
“Agora entendemos melhor o orçamento de carbono para que consigamos manter o aquecimento abaixo dos 2ºC”, afirma o dr. Rogelj. “Percebemos que o orçamento estava no limite inferior do que os estudos anteriores indicavam e que se não começarmos a reduzir nossas emissões imediatamente vamos estourá-lo em poucas décadas”, alerta.
O artigo completo pode ser acessado a partir daqui.
Tradução e adaptação BiodieselBR.com